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Mesmo com todos os problemas causados pela crise política e apostando na recuperação econômica, o IPO do Carrefour deve movimentar hoje na B3 mais de R$ 5 bilhões. A maior abertura de capital no Brasil desde 2013.

São Paulo – Faz alguns anos que a varejista Carrefour se prepara para lançar a sua oferta pública de ações na bolsa de valores do Brasil. Na terça feira, 18/07, a empresa estabeleceu o preço final de suas ações pelo preço de R$ 15,00, no piso da faixa indicada, que vai até R $ 19,00 por ação. 

Dos R$ 5,1 bilhões captados pela empresa, R$ 3,088 bilhões são referentes à oferta primária, ou seja, o dinheiro vai para caixa do Carrefour e será aplicado na melhoria da sua estrutura de capital.

O objetivo é utilizar os novos recursos levantados na oferta para diminuir o endividamento global das empresas do grupo, que gira em torno de 2,8 bilhões de reais. Outros pontos que devem ser beneficiados são a liquidação de operações de câmbio e reforço do capital de giro. A administração acredita que o crescimento da empresa depende desta restruturação financeira da dívida e os planos de expansão devem ser colocados em prática já no segundo semestre.

Já os demais R$ 2,037 bilhões fazem parte da oferta secundária, na qual os recursos de capital captados vão para os acionistas vendedores, como os acionistas majoritários Carrefour e Carrefour Nederland. Entre os acionistas minoritários está a Península Investimentos, da família Diniz. A empresa continuará como um dos acionistas do Carrefour Brasil, mas com uma participação acionária menor.

Segundo analistas consultados por GME HUB, a demanda pelas ações do Carrefour não foi muito forte, mas ainda assim a varejista conseguiu vender não só as ações da oferta base, mas também um lote suplementar.

Cenário político e econômico

A oferta pública do Carrefour é impressionante porque acontece em meio a uma paisagem política problemática e em um momento de deflação de preços. Mas, isto não desanimou o interesse dos investidores que têm interesse na compra das ações da empresa.

Os números divulgados no prospecto de oferta das ações mostram uma boa evolução do Carrefour nos últimos anos. A receita aumentou 29,3% entre 2014 e 2016, fechando no ano passado em R$ 47,5 bilhões. O lucro dobrou em dois anos, e em 2016 registrou 1,17 bilhão de reais.

O objetivo é expandir as operações no Brasil e aumentar a distância para o Grupo Pão de Açúcar (GPA), controlado pelo rival francês Casino e a colombiana Éxito. Ambas administram as marcas Extra, Pão de Açúcar e Assaí. Desde de 2014, o Carrefour vem crescendo em um ritmo mais rápido do que o GPA. Hoje, a liderança do Carrefour, que detém 11,8% de market share do mercado brasileiro, é bem apertada em relação ao GPA, que tem 10,8% de participação.

Mesmo com participação no mercado quase idênticas, a diferença entre as duas empresas nos resultados está cada vez maior. Enquanto as vendas no varejo de alimentos do GPA atingiram R$ 41,4 bilhões em 2016, o Carrefour obteve receitas de R$ 47,5 bilhões. O balanço da GPA demonstra que as perdas somaram R$ 133 milhões no varejo de alimentos. Já mesmo resultado no balanço do Carrefour demonstra um ganho R$ 1,17 bilhões no último ano.

 

O Carrefour no Brasil e a associação estratégica com Abílio Diniz

O Carrefour tem 576 pontos de venda no Brasil sob as bandeiras Carrefour Hipermercado, Carrefour Bairro, Carrefour Express, Carrefour Drogaria, Carrefour Posto, Atacadão e Supeco, além do comércio eletrônico. Esta situação é muito diferente da encontrada em 2009, quando o Carrefour perdeu a liderança do mercado para o GPA.

 

Georges Plassat, CEO do Carrefour desde 2012, foi substituído por Alexandre Bompard agora em Julho de 2017.

Na foto, Geroges e Abílio Diniz em 2014, no fechamento do acordo entre o empresário e o grupo francês. (foto: divulgação)

 

Em busca das causas da falta de competitividade, em 2010, uma auditoria na operação brasileira descobriu uma fraude contábil de 1,2 bilhão de reais. O valor da fraude foi o triplo do que foi reconhecido pela matriz francesa, e a revelação de irregularidades nas contas provocou a saída do então presidente, Jean Marc Pueyo, e de toda a diretoria.

Desde então, o foco dos executivos do Carrefour foi a restruturação da empresa. Os primeiros resultados começaram a aparecer em 2013, com a aplicação do plano de reestruturação para os seus hipermercados tradicionais, que foram redimensionados e diminuídos. Até março de 2017, o Carrefour reestruturou 64 hipermercados e 13 supermercados e o objetivo é completar o programa de revitalização até o final de 2019. 

Desde 2014 abriu 77 lojas de conveniência, Carrefour Express, para competir com o Minuto Pão de Açúcar e o Mini Extra.

Outro fator que contribuiu para a liderança foi a associação com o empresário Abilio Diniz. O Pão de Açúcar, empresa de sua família fundada por seu pai, era a varejista líder de mercado até Diniz perder a disputa pelo controle com o grupo francês Casino. Em uma espécie de reviravolta, com ares de vingança, no final de 2014, Diniz anunciou a compra de 10% das subsidiárias brasileiras do Carrefour por R$ 1,8 bilhões.

Hoje, a Península Investimento, atual empresa de investimentos da família Diniz, detém 12% do negócio e deve vender 4,11% no IPO, embolsando cerca de 1,2 bilhão de reais.

A retomada do mercado pelo Carrefour também foi impulsionada pelos erros estratégicos do principal concorrente nos últimos anos. O GPA apenas iniciou reformas em seus supermercados e hipermercados em 2015, um movimento que, na visão dos analistas, chegou muito tarde. Os grandes mercados foram atingidos pela crise econômica, o que diminuiu o poder de compra dos consumidores.

Fora dos supermercados, as vendas nas marcas da subsidiária do GPA Via Varejo, que inclui as operações de Ponto Frio e Casas Bahia, também cairam.

Para os analistas consultado por GME HUB, ainda é difícil saber o quanto o crescimento do Carrefour nos últimos anos tem sido sustentável, já que em seu prospecto a varejista divulga dados dos últimos três anos. A preocupação principal é sobre a sustentabilidade da empresa em um cenário econômico instável como o do Brasil.

Outra questão é sobre o pagamento de royalties da operação brasileira do Carrefour para o uso do Marca à matriz francesa. No prospecto de oferta de ações é afirmado que, ao atingir uma certa margem de lucro operacional, haverá um pagamento entre 0% e 0,125% sobre as vendas líquidas, menos uma parte das despesas de publicidade. Mas, entretanto, não há mais informações que direcionem estes repasses.

Como a rentabilidade da indústria é tradicionalmente baixa, cada ponto percentual descontado pode ser um pesadelo para os acionistas brasileiros em bolsa. A expectativa é que a empresa divulgue mais detalhes sobre a questão dos dividendos e outros fatores de risco a partir do início das negociações na bolsa de valores nesta quinta-feira.