Lava Jato

A 42ª fase da operação Lava Jato prendeu o ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras Aldemir Bendine, que foi uma das peças mais importantes nas administrações dos governos de Lula e Dilma.

 

São Paulo - Nesta manhã de quinta-feira (27/7), Aldemir Bendine foi preso temporariamente na Operação Cobra, nome dado à nova fase da Lava-Jato, uma referência ao codinome dado a Bendine nas planilhas da Odebrecht. Ele estava em uma residência em Sorocaba, em São Paulo. 

Nesta mesma fase, os irmãos André Gustavo Vieira da Silva e Antônio Carlos Vieira da Silva Júnior, sócios na agência de publicidade Arcos Propaganda, também foram presos em Recife. Os três são suspeitos de organizarem o recebimento de propinas no valor de R$ 3 milhões em propinas oriundas da Odebrecht em favor do ex-presidente da Petrobras.

Em entrevista coletiva, o procurador Athayde Ribeiro Costa enfatizou a 'audácia' de Bendine e os outros investigados, que, mesmo com todas as investigações da força a tarefa em andamento, eles continuaram com o esquema de corrupção e os recebimentos de propinas.

"São a prova viva de que a prisão é necessária para frear o ímpeto criminoso de um esquema que vem desviando bilhões há mais de décadas", disse o procurador em nota.

Além das prisões, a Justiça expediu, a pedido da força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) do Paraná, 11 mandados de busca e apreensão. As ações da Polícia Federal (PF) ocorreram em Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e no Distrito Federal. Em Brasília foram duas ordens de busca e apreensão.

É uma prisão que atinge um dos principais homens de confiança dos ex-presidentes Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT). A prisão de Bendine é temporária e tem prazo de cinco dias e pode ser prorrogada pelo mesmo tempo ou convertida para preventiva, que não tem prazo para deixar a prisão.

Bendine na Petrobrás

Em fevereiro de 2015, Bendine foi nomeado à presidência da Petrobrás pela ex-presidente Dilma Rousseff e sua a missão era corrigir o balanço da companhia, que não tinha condições de ser auditado pois não havia como contabilizar as perdas com a corrupção descobertas pela operação Lava Jato desde março de 2014. Durante a gestão de Bendine, a Petrobrás contabilizou um prejuízo recorde de R$ 6,2 bilhões por conta de baixas contábeis relacionadas à corrupção entre 2004 e 2012. O resultado referente ao ano de 2014 ficou negativo em R$ 21,6 bilhões.

Bendine renunciou à presidência da Petrobrás em maio de 2016, ainda durante a interinidade de Temer na Presidência da República. Em seu lugar ficou Pedro Parente, ex-ministro da Casa Civil e do Planejamento do segundo governo Fernando Henrique Cardoso.

Antes de sua entrada, Graça Foster, outra indicação de Dilma, foi indicada para sanar os problemas de corrupção na companhia. Ela renunciou ao cargo diante da pressão por conta dos desdobramentos das investigações.

 

Em 2015, Aldemir Bendine e Rodrigo Janot, Procurador-Geral da República, participaram da cerimônia de devolução de R$ 157 milhões recuperados pela Operação Lava Jato. (foto: divulgação)

 

A acusação

Segundo a investigação do MPF, quando era presidente do Banco do Brasil, Bendine pediu R$ 17 milhões em propinas. De acordo com as delações Marcelo Odebrecht, na época presidente da Odebrecht, e do ex-executivo do grupo, Fernando Reis, a propina seria para viabilizar a rolagem de dívida de um financiamento da Odebrecht AgroIndustrial. No entanto, o pedido foi negado pela Odebrecht, eles entenderam “que Bendine não tinha capacidade de influenciar no contrato de financiamento do Banco do Brasil.".

Já as vésperas de assumir a presidência da Petrobras, Bendine e um de seus operadores financeiros teriam feito um segundo pedido de propina. Desta vez o valor foi menor, de R$ 3 milhões, para que a Odebrecht não fosse prejudicada em seus diversos contratos com a Petrobras. Houve até uma insinuação de que eles poderiam cooperar com as investigações da Operação Lava-Jato contra a empresa. Desta vez, Marcelo Odebrecht disse em sua delação que optou pelo pagamento.

Segundo o MPF, o valor foi repassado em três entregas com dinheiro em espécie, no valor de R$ 1 milhão cada. Os pagamentos foram feitos em São Paulo. "Esses pagamentos foram realizados no ano de 2015, nas datas de 17 de junho, 24 de junho e 1º de julho, pelo Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht", afirma a acusação.

Um dos operadores financeiros confirmou que recebeu R$ 3 milhões da Odebrecht, mas atribuir o pagamento a uma suposta consultoria que teria prestado à empreiteira para facilitar o financiamento junto ao Banco do Brasil. A empresa era de fachada. A investigação apontou que não havia explicação sobre o destino dos valores, além da ausência de contratos escritos para o valor de uma consultoria milionária.

O MPF enfatizou que se tratava de esquema criminoso, mesmo quando os investigados tentaram dar uma aparência de negócio lícito, recolhendo os tributos relacionados à suposta consultoria, cerca de dois anos após os pagamentos.

"Há indícios que a documentação também foi produzida com intuito de ludibriar e obstruir as investigações", afirmaram os procuradores.

A defesa declara que a prisão é "desnecessária"

O defensor de Bendine, o advogado Pierpaolo Bottini, declarou ser "desnecessária" a prisão de seu cliente. Ele alega que Bendine, desde o início das investigações, se colocou à disposição da Justiça para esclarecer os fatos, abrindo mão de sigilos fiscais e bancários e juntando documentações ao inquérito.