Lava Jato

Além de não apresentar simples recibos de aluguel, Lula transfere a reponsabilidade da negociação do apartamento, terreno e recursos para Vacari, Okamoto, Palocci, Okamotto e a falecida Dona Marisa Letícia. Neste processo, Lula é acusado do recebimento de R$ 13 milhões em propina

 

São Paulo - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestou depoimento na quarta-feira, 13/09, ao juiz Sérgio Moro, na Justiça Federal de Curitiba.

Neste segundo encontro, Lula responde como réu no processo no qual é acusado de receber propina da Odebrecht de R$ 13 milhões em forma da compra de um terreno, onde seria construída uma nova sede do Instituto Lula e de um apartamento, vizinho ao que ele mora em São Bernardo do Campo.

Nitidamente mais nervoso e combativo, Lula concordou em responder as perguntas feitas por Moro e também pelos representantes do Ministério Público Federal (MPF), Isabel Cristina Groba Vieira e Antônio Carlos Welter, assistentes de acusação, defensores e um representante da OAB-PR (Ordem dos Advogados do Brasil), além de agentes de segurança. Ao lado de Lula na mesa estava o advogado Cristino Zanin Martins.

Lula e a sua defesa negaram todos as acusações e ficou claro que eles utilizariam uma estratégia de total alienação do ex-presidente sobre os imóveis citados no processo. Além da negação, a outra missão de Lula era desqualificar as testemunhas de acusação, os réus confessos e delatores, entre eles Antônio Palocci, Emílio e Marcelo Odebrecht. Outra linha adota por Lula para se defender foi levantar suspeitas sobre a conduta do MPF e da Polícia Federal, insinuando que ambas instituições plantaram e forjaram provas.  

 

OS DEPOIMENTOS DE CADA RÉU E TESTEMUNHAS SOBRE O TERRENO PARA O INSTITUTO LULA

Nesta primeira parte, GME HUB faz a comparação entre os depoimentos

José Carlos Bumlai (09/08/2017) - O pecuarista amigo do ex-presidente Lula, afirmou ao juiz Sergio Moro que a ideia de fazer uma nova sede para o Instituto Lula foi da ex-primeira dama Marisa Letícia e que ela não queria que ele soubesse.

“A ideia surgiu de uma conversa com dona Marisa. Eu não sabia como solucionava isso aí, a não ser o que tinha sido feito pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso. Que 10 empresários participassem do processo e levantassem o Instituto Lula, onde guardariam os presentes, uma espécie de museu. Eu não tinha a menor condição de arrumar 10 empresários em São Paulo, nem a liberdade para chegar e expor”

Bumlai disse que expôs a ideia a Marcelo Odebrecht e o empresário afirmou que alguém da empresa o procuraria. “Era o único que eu tinha mais liberdade para conversar...levei a idéia do Instituto para o Marcelo Odebrecht.

Bumlai fala sobre Roberto Teixeira – advogado que supostamente estaria cuidando da parte legal da aquisição do terreno a convite de Dona Marisa. “Dona Marisa, quando apresentou a ideia, queria colocar mais uma pessoa. Era o Jacó Bittar, mas o Jacó Bittar ficou muito doente, sem possibilidade de ajudar em nada. O doutor Roberto (Teixeira) é o advogado da família há muitos anos, acredito que foi por ai.”

Paulo Okamotto (30/08/2017) - O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, disse em depoimento ao juiz Sérgio Moro que não sabia que o imóvel visitado por ele pertencia a Odebrecht. 

“As pessoas sabiam que a gente estava procurando um escritório, pessoas ofereciam imóveis para a gente, corretoras, pessoas que queriam alugar… alguém, eu não me lembro se fui eu que pedi para essa pessoa ou se foi alguém que informou que tinha um terreno que estava sendo ofertado para gente poder olhar. Mas eu realmente não sei quem foi que fez isso”, disse.

Okamotto negou ter conversado sobre o imóvel com o ex-ministro Antônio Palocci, o ex-assessor dele Branislav Kontic e com o pecuarista José Carlos Bumlai. 

Marcelo Odebrecht (05/09/2017) - Em depoimento, Marcelo disse que: “O Bumlai me procurou dizendo que tinham identificado o terreno, que era Roberto Teixeira que tinha identificado o terreno, que tinha acertado a compra do terreno e que eles iam querer que esse terreno fosse a sede do futuro Instituto e queriam que a gente viabilizasse a compra desse terreno”.

“Outra razão pela qual eu sei que Lula sabe desse provisionamento, porque eu conversei tanto com Bumlai quanto com o Okamotto. Seguinte: ‘eu, tudo bem, mas esse valor vai sair, seja lá qual for a forma, vai sair do valor provisionado que eu tenho com Palocci para Lula’. Fui em Palocci: ‘Palocci, olha, Bumlai e Paulo Okamotto chegaram com essa história de comprar o terreno, você sabe qual é a minha posição, eu prefiro doar, eles que comprem, mas dá uma checada nisso, porque o que você disser, eu faço’. Ele foi checar e voltou para mim, ele também não gostou muito da história, porque ele também era da linha de que era melhor doar para o Instituto Lula e eles se virarem, mas ele disse: ‘Olha, Marcelo, foi iniciativa do Roberto Teixeira, mas já fizeram a cabeça Dona Marisa, Lula, e se você criar caso, vão dizer que você está criando mais caso porque você fica sempre pedindo as coisas de Lula, aí ele vai em seu pai, vai resolver na marra. Seguinte, melhor você liberar’. Fui lá, combinei com Paul Altit, o presidente da Odebrecht Realizações, como era uma transação imobiliária, a gente procuraria uma pessoa para fazer, mas precisaria de uma pessoa dele.”.

Marcelo não cita a DAG, mas mandou informações ao MPF que compravam a transação. Ele afirma que não falou diretamente com Lula sobre o terreno.

Demerval Gusmão (06/09/2017): Em depoimento em 06 de setembro ao juiz Sergio Moro, o dono da DAG Construtora, Demerval Gusmão, confirmou que comprou, em 2010, um terreno em São Paulo a pedido da empreiteira Odebrecht, mas que apenas depois soube que ele serviria para o Instituto Lula.

"No final de julho de 2010, início de agosto de 2010, fui procurado por Paulo Melo, então diretor da Odebrecht Realizações no estado de São Paulo, me convocando para uma reunião. Essa reunião aconteceu, primeiramente, no escritório dele. Paulo me coloca uma oportunidade de negócio: a Odebrecht tinha identificado um terreno para construir um empreendimento".

"Doutor, se o senhor me perguntasse na época, eu afirmaria que esse terreno era meu. Hoje, com o desenrolar desse processo, vendo a quantidade de pagamento feitos à minha revelia, que eu não tinha a menor ciência, por fora, o que eu posso dizer ao senhor é que eu fui enganado. Hoje eu entrei aqui como laranja nesse processo e hoje eu vejo que eu fui um pato. Isso que eu fui".

Segundo Gusmão, Roberto Teixeira era o representante de Lula: “No contexto da conversa dele (Roberto Teixeira), por diversas vezes, eu subentendia que ele estava se referindo ao ex-presidente Lula”

Segundo Gusmão, o negócio não andou: “Tudo que eu sei é através de Bumlai. Roberto Teixeira, não, porque eu nunca estive com ele. Bumlai, Okamotto e o Palocci. Aparentemente esse assunto foi iniciativa de Roberto Teixeira com Bumlai, que identificaram esse terreno, não sei se tinha um acerto com os vendedores. Isso nunca ficou claro para mim. Mas de certo modo foi o terreno e que Lula acabou aceitando, mas não sei se ele bateu o martelo.”

Gusmão disse que foi engando: "Doutor, se o senhor me perguntasse na época, eu afirmaria que esse terreno era meu. Hoje, com o desenrolar desse processo, vendo a quantidade de pagamento feitos à minha revelia, que eu não tinha a menor ciência, por fora, o que eu posso dizer ao senhor é que eu fui enganado. Hoje eu entrei aqui como laranja nesse processo e hoje eu vejo que eu fui um pato. Isso que eu fui".

Antônio Palocci (06/09/2017) –Antônio Palocci deu um depoimento considerado histórico. Pela primeira vez um petista admitiu seus crimes e entregou seus comparsas na suposta organização criminosa instaurada a partir da presidência da república.

Palocci assume as ilicitudes "De fato, queria dizer a princípio que a denúncia procedente. Os fatos narrados nesta denúncia, os fatos narrados nela são verdadeiros", disse Palocci sobre a acusação do MPF sobre as propinas em forma de imóveis oferecidas pela Odebrecht.

Sobre o terreno, Palocci se refere ao “Pacote de Propinas”, Palocci relaciona o terreno como uma das vantagens oferecidas por Emilio Odebrecht: "Envolvia esse terreno do instituto, que já estava comprado e o seu Emilio apresentou ao presidente Lula.”

Palocci afirma que Bumlai estava operando a transferência do terreno para o Instituto Lula.  "Eu voltei a falar com ele [Lula] sobre o prédio do instituto. Falei da minha conversa com o Bumlai e falei: 'eu não gostaria que fizesse desse jeito. Se o senhor está fazendo um instituto para receber doações e fazer sua atividade, não sei porque procurar agora um terreno. Não tem problema nenhum receber uma doação da Odebrecht, mas que seja formal ou que, pelo menos, seja revestida de formalidade'

Palocci persuadiu Lula a não ficar com o terreno, que acabou permanecendo com a DAG de Gusmão.  “Comentei com ele (Lula) naquele dia, nosso ilícito com a Odebrecht já está monstruoso. Já começou comprando um terreno de uma forma completamente torta. O senhor não tem como por para dentro este terreno. Acho que isso aí vai virar uma confusão e um dia nós vamos acabar em um lugar como esse que nós estamos aqui (Justiça Federal) ”.

Luis Ignácio Lula da Silva (13/09/2017) - No seu depoimento a Moro, Lula disse: “Desse prédio (terreno). Vou lhe dizer com todas as letras quando é que eu fiquei sabendo desse prédio. A única pessoa que falou comigo desse prédio foi o presidente do instituto chamado Paulo Okamotto. Nós já tínhamos visitado outros prédios para alugar ou para pegar oferta de compra, tínhamos visitado um prédio do correio, tínhamos visitado um prédio de uma escola que tinha lá perto do Ipiranga, tínhamos visitado uma espécie de castelinho que tem nas coisas velhas do Ipiranga, que até era um precinho barato porque aquilo está tombado, aí o Paulo falou: "Olha, estão oferecendo para comprar um prédio que me parece que era um antigo shopping", não sei.Aí eu fui uma única vez, uma única vez, e, cheguei lá, a primeira coisa que eu disse foi o seguinte: "Não interessa, é inadequado, isso aqui não é uma zona que pode frequentar muita gente, nós vamos procurar noutro lugar".

Lula responde a pergunta sobre o que Okamotto tinha informado a ele.  "Que tinha um terreno sendo oferecido para compra, sabe, se a gente queria ver se ia comprar o terreno ou não. Sabe? Você ia ver o terreno, como fui ver os outros terrenos, se você tivesse um prédio em condições de alugar, você alugaria, e se você não tivesse, você então iria discutir, sabe, como fazer uma campanha de finanças para comprar o terreno."

Lula afirmou: “Todas as pessoas que trabalhavam comigo, todas as pessoas, todos sabiam que era proibido falar em qualquer coisa de Instituto Lula ou de Instituto de Memorial, enquanto eu tivesse exercendo cargo de Presidente da República. Eu vi o Palocci mentir aqui essa semana, mas eu quero antecipar. Ninguém, ninguém no meu governo, nem muito menos na minha casa discutia comigo qualquer coisa do Instituto porque eu dei uma ordem, "não quero discutir o futuro do Lula antes do dia 31 de dezembro de 2010, quando eu deixar a presidência, eu vou discutir a minha vida". Era assim, portanto, se conversaram com a Marisa ela não me contou e eu acho muito difícil ter conversado com a Marisa e ela não me contar."  

Lula negou qualquer conhecimento sobre o envolvimento e participação na oferta do terreno de Marcelo Odebrecht, Antônio Palocci, Roberto Teixeira, José Carlos Bumlai e Glauco Costa Marques.