Agronegócios

Depois de enriquecer o país a partir do Século XIX, café brasileiro agora se reinventa em busca de qualidade, tanto nas fazendas quanto nos bares, e consegue se equiparar aos melhores do mundo

De São Paulo – Volte no tempo apenas 15 anos. Como você tomava um café fora de casa aqui no Brasil? À exceção de um ou outro estabelecimento classe A, todos serviam o cafezinho no balcão. Apreciar a bebida numa mesinha, a exemplo do que é habitual em capitais europeias como Paris, Berlim e Madri, ou em vizinhas como Buenos Aires, era praticamente impossível.

De lá para cá, as cafeterias e padarias em logradouros comerciais de cidades médias a grandes transformaram a forma de servir o café, dando a ele a mesma qualificação de serviço oferecida em países que nunca colheram um grão do produto, mas sempre souberam reverenciá-lo.

Esse é o lado visível de uma revolução vivida nos últimos 30 anos por aquele que já foi apelidado de “ouro verde”.  Em todo o processo de produção, do campo, passando pela indústria, até essas mudanças de hábito no varejo, o café brasileiro teve que se reinventar.

Vanusia Nogueira, da BSCA: busca de qualificação nas últimas décadas equiparou café brasileiro aos melhores do mundo
Vanusia Nogueira, da BSCA: busca de qualificação nas últimas décadas equiparou café brasileiro aos melhores do mundo (Foto: BSCA)

Depois de perder a liderança no ranking das exportações brasileiras na virada dos anos 70/80 para produtos como suco de laranja, minério de ferro e, em seguida, a soja, e reduzir plantações em estados como São Paulo e Paraná, o café pouco lucrativo percebeu que não podia mais viver apenas da produção em grande escala.

O principal gerador de riquezas no país a partir da metade do século XIX, que revolucionou a economia brasileira e a sustentou por pelo menos um século, observou concorrentes como a Colômbia e entendeu que para voltar a ganhar no mercado internacional precisava mudar. Quantidade sim, mas também precisava se equiparar aos melhores em qualidade -- desde a escolha e preparação da terra, plantio da muda, até a oferta do produto final para consumo.

No final dos anos 80 a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic) criou o selo de qualidade para o café nacional, que atestava na embalagem dos produtos vendidos ao consumidor que aquele pó não continha misturas de outros produtos. Isso gerou uma pressão por qualidade a toda cadeia produtiva. E o resultado positivo chegou nos últimos anos aos cafeicultores brasileiros.

“A grande revolução do café aconteceu não só na indústria, mas no campo também. Hoje somos reconhecidos como os maiores e também os melhores – uma virada que foi consolidada há uns 3 ou 4 anos apenas. Nosso produto passou a ser tão bem avaliado no mercado internacional quanto o colombiano, por exemplo”, resume o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), Nathan Herszkowicz

Ele explica que a qualificação envolveu toda a cadeia de produção, de melhoramentos genéticos da planta, feita pelos institutos de pesquisa como o Instituto de Agronomia de Campinas (IAC), melhores técnicas de colheita, secagem até a torrefação e modelos de oferta ao consumidor – as capsulas para máquinas domésticas de café expresso são a grande vedete de vendas da indústria de café gourmet, em alta nos últimos 8 anos, desde que a Nespresso trouxe o seu modelo para o Brasil.

Outro sinal inquestionável requalificação nas últimas décadas é o aumento do volume dos produtores dos chamados “cafés especiais”, que são aqueles que em análises sensoriais e químicas (degustação feita por especialistas, além da classificação microbiológica feita por laboratórios especializados), supera os 80 pontos, na escala de 0 a 100.

“Passou-se a ter maior preocupação com as características de clima do local, altitude e topografia do terreno e os processos de produção em geral, o que fez com que a participação do café de alta qualidade crescesse muito no Brasil nos últimos tempos”, explica Vanúsia Nogueira, diretora da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, na sigla em inglês). Ela não inclui o tipo de terra como fundamental para a produção cafeeira. “As características do solo são menos importantes. A terra mais fraca vai demandar maior preparação, adubação, para corrigir problemas. Mas quase todos os terrenos vão precisar de algum preparo”, sentencia.

Depois de perder com a praga da "ferrugem" e com sequência de geadas no Paraná e em São Paulo nas décadas de 70 e 80, muitos cafeicultores encontraram em Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia melhores condições para a renovação da cafeicultura nacional. São Paulo, onde boa parte dos cafezais foi substituída por laranjais e, nas duas últimas décadas, por cana para usinas de açúcar e etanol e, ainda mais recentemente, por eucalipto, é hoje o terceiro maior produtor do país, com cerca de 20% do total colhido em terras mineiras.

É de Minas, portanto, de onde sai o maior volume, não apenas de café em geral, mas também dos melhores grãos nacionais, do tipo Arábica. No Espírito Santo, parte significativa da produção é da espécie Conilon (ou Robusta), variedade menos nobre e que serve basicamente à produção de blends (entra na mistura com o Arábica no processo industrial na maioria dos pós consumidos no país).

Mas é no sul capixaba onde são produzidas hoje algumas das vedetes da cafeicultura brasileira. Como o caso do café da Fazenda Comocim, no município de Domingos Martins. Ali passou-se a explorar em seu favor uma praga do café na região: o jacu. O pássaro de grande porte e que vive em bandos na região come o grão de café maduro – justamente quando ele está vermelho, momento ideal de colheita --, suga a polpa e descasca o grão de café, que sai intacto, depois, nas fezes do animal.

Café orgânico, a partir de grãos comidos pelo jacu: uma das variedades mais caras do país, produzida no Espírito Santo (Foto: Divulgação)

Em vez de tentar se livrar da ave, o proprietário decidiu produzir café do grão “processado” no estômago do jacu e obteve um café com qualidades químicas de alta qualidade. Na Indonésia há um tipo parecido de café, digerido por uma espécie de esquilo. No caso brasileiro, o caráter exótico da produção faz com que o quilo do café “do jacu” chegue a ser vendido em países como a Rússia por R$ 3 mil – no Brasil, mais barato, custa ao redor de R$ 600 (hoje, a saca de 60 quilos de café tipo exportação sai por em cerca de R$ 500 no mercado internacional, ou pouco mais de R$ 8,00 o quilo).

Mas esses casos são exceção, mesmo na Fazenda Comocim, em que o café do jacu representa apenas 1% da produção. Também cafés da região da Chapada Diamantina, na Bahia, alguns cafés chegam a ser vendidos por até R$ 10 mil a saca.

A grande revolução do novo café brasileiro, entretanto, se dá a partir da qualificação alcançada por praticamente toda a produção nacional. Nesse sentido, além do monitoramento da moagem e torrefação da indústria pela Abic, foram fundamentais os dez últimos anos de trabalho intensivo de informação fomentado pela Associação Brasileira de Cafés Especiais, o que puxou para cima praticamente toda a produção brasileira. Hoje, os “especiais” já representam mais de 15% do total produzido no país (8 milhões de sacas do total de 50 milhões previsto para 2016, o segundo maior volume histórico).

Os cafés considerados especiais obtém preços entre 40% e 50% acima do café Arábica padrão do tipo exportação (que tem saca hoje ao redor de R$ 500), chegando a R$ 700 a R$ 750 a saca beneficiada de 60 quilos.

O tipo Arábica representa hoje entre 70% e 75% da produção de grãos no país, que este ano prevê uma safra recorde, ao redor de 50 milhões de sacas – o segundo melhor resultado histórico.

A produção recorde prevista para este ano nem sempre será a melhor notícia para os cafeicultores, já que o Brasil, como o maior produtor do mundo, é decisivo na formação dos preços internacionais, que caem quando há fartura de produto por aqui.

“Os preços subiram nos dois últimos anos devido aos problemas de seca na época de florada em algumas regiões e chuva no período de colheita em outras. O mercado fica atento às informações sobre estoques e problemas do clima no Brasil e a oscilação se dá a partir disso”, explica Renato Garcia Ribeiro, pesquisador do mercado de café do Cepea/USP.

Como antídoto providencial a essa oscilação dos preços, os produtores contam, além da receptividade em alta para o café brasileiro no exterior (70% da safra, de arábica são exportados), com o consumo interno, igualmente em alta, apesar da crise econômica. No ano passado, foram consumidos internamente 21 milhões de sacas, quase a metade da produção total do país (incluindo o Conilon). Isso faz do brasileiro o segundo maior consumidor per capita do mundo da bebida, só atrás dos americanos.

“Se é bom negócio produzir café?”, pergunta e logo responde Nathan Herszkowitz, diretor da Abic. “Sim, se o produtor souber oferecer um mix de produtos que atendam desde os consumidores tradicionais, que fazem o cafezinho em casa, como os apreciadores de cafés gourmet, cada vez em maior número nas cafeterias”, sentencia.