Agronegócios

Apesar dos problemas climáticos que afetaram safras recentes, o campo brasileiro avança em eficiência utilizando cada vez mais recursos de alta tecnologia, como os drones

De São Paulo -- A oferta de alimentos precisa ser ampliada em 70% nos próximos 40 anos para garantir a alimentação da população mundial, segundo estimativas da FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. Por isso, aumentar a produtividade mantendo a mesma área plantada - já que pôr fim ao desmatamento também é uma meta importante a ser atingida pelos países produtores de alimentos - é a discussão do momento. 

O Brasil tem se saído bem, segundo a Conab, Companhia Nacional de Abastecimento, que estima que o país colha nesta safra 186,4 milhões de toneladas, um volume 10,3% menor que a safra anterior, diminuição causada pelo excesso de chuvas no Paraná e pela estiagem em Mato Grosso.

“A soja, que representa metade da área plantada de grãos do país, sofreu muito com o veranico, principalmente em Mato Grosso”, explica Cléverton Carneiro de Santana, gerente de Levantamento e Avaliação de Safra da Conab. Um aumento da área plantada, já que a soja tem sido lucrativa e muitos produtores deixaram outras culturas de lado para investir no grão, compensou os estragos promovidos pelo clima. 

O trigo, cereal que o Brasil precisa importar há décadas para suprir a demanda de seu mercado interno, reduziu em 14,4% a área plantada, porque muitos produtores decidiram apostar no milho “2ª safra”, carinhosamente conhecido como “milho safrinha”. Mesmo assim a cultura registrou um aumento de 11% na produção e de 30% na produtividade.

Colheitadeiras de soja em ação no Mato Grosso, a maior área plantada do país: produtividade cresce e se aproxima dos EUA
Colheitadeiras de soja em ação no Mato Grosso, a maior área plantada do país: produtividade cresce e se aproxima dos EUA (Foto: divulgação)

“O Brasil tem tido ganhos de produtividade bem acima do avanço da área plantada. A tecnologia ajudou a minimizar as perdas. Se não fosse ela, a queda atual de produtividade poderia ter sido maior", avalia o gerente da Conab.

E que tecnologia é essa? Sementes altamente produtivas, defensivos modernos, máquinas agrícolas de ponta, como plantadeiras, tratores e colheitadeiras. “Os produtores de grãos que ganharam dinheiro nos últimos anos investiram em tecnologia. Isso faz com que as fazendas tenham um maquinário que ajuda um plantio feito com mais rapidez, no momento certo, na quantidade certa. Tudo o que existe de melhor em tecnologia o produtor brasileiro está usando, e com ótimos resultados”, garante Cléverson.

A expansão da soja no Brasil começou nos anos 70 com a ampliação da indústria de óleo. As terras do Centro-Oeste eram baratas e, por isso, muitos agricultores do sul do país mudaram para o Mato Grosso para investir na soja. O solo não era muito propício à cultura, mas pesquisa e tecnologia combinadas permitiram que a soja se consolidasse por lá e o estado se tornasse, hoje, o maior produtor do país.

Quando assunto é pesquisa, o estado também está na frente. Dessa ânsia pela busca de caminhos que levem a um aumento da produtividade, nasceu o Comitê Soja Brasil, entidade sem fins lucrativos formada por profissionais e pesquisadores de diversas áreas, que se uniram para trabalhar estrategicamente em prol da sojicultura brasileira. Desde 2008 promove anualmente o “Desafio da Máxima Produtividade”, um concurso no qual os produtores de soja se inscrevem e competem para ver quem consegue produzir mais no mesmo espaço de terra.  

“Na safra passada, nosso campeão colheu 142 sacas de soja por hectare. Conseguirmos colher quase três vezes mais do que a média brasileira. Com a mesma área, com o mesmo maquinário, mesmo equipamento, otimizando mão de obra, sem derrubar uma árvore. Isso não acontece de um ano para o outro, por acaso. Tudo tem que ser construído, planejado e programado”, explica José Nery Ribas, diretor técnico da Aprosoja, Associação dos Produtores de Soja e Milho do estado de Mato Grosso, e presidente do Comitê Estratégico Soja Brasil.

Imagem aérea de plantação com análise gráfica sobreposta, feita por drone
Imagem aérea de plantação com análise gráfica sobreposta, feita por drone (Foto: XMOBOT)

O jornalista e analista de mercado agropecuário, Antônio Reche, diz que o Mato Grosso é realmente uma potência. “Se fosse um país, seria o quarto maior produtor de soja do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, Brasil e Argentina”, explica. Mas o Brasil também tem motivos para se orgulhar, já que a produtividade média de grãos no país, equiparada com a dos Estados Unidos, é bem parelha: cerca de 55 sacas por hectare aqui contra 65 sacas nos EUA.

“Em alguns anos nosso país já alcança uma produtividade maior que a deles, dependendo do clima”, conta, orgulhoso, o presidente do Comitê Estratégico Soja Brasil. Mas quando o assunto é milho, os Estados Unidos ainda são imbatíveis. Produzem cerca de 10 mil kg por hectare plantado, enquanto o Brasil ainda patina nos 6 mil kg por hectare.

Para Reche, essa diferença entre os dois países mostra que o Brasil tem um grande potencial de crescimento. “Há muita terra disponível de pastagens degradadas que já estão sendo ocupadas por produtores de grãos e, sem tocar em nenhuma árvore, o país pode dobrar a produção do cereal. Neste caso, a receita, o como fazer, também é pública: um bom manejo do solo, plantio direto ou plantio na palha, boas sementes, adubos de qualidade, atenção no combate às doenças e pragas e muita reza para São Pedro”, completa.

Segundo estudo elaborado pelo Departamento de Estudos Econômicos do Ministério da Agricultura, juntamente com pesquisadores da Esalq, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e pelo Serviço de Pesquisa Econômica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, a agropecuária brasileira cresceu a uma taxa de 4% de 2000 a 2014 ao ano e foi impulsionada principalmente pela produtividade.

Inovações decorrentes da pesquisa e a adoção de novas tecnologias agrícolas foram os fatores que contribuíram para o resultado que colocou o país em posição de destaque diante de competidores no mercado internacional de alimentos e fibras.  Esse salto na produtividade é, de acordo com o estudo, superior à média mundial, que tem crescido 1,84% ano ano. Resultado de um crescente investimento em pesquisa realizada principalmente pela a Embrapa, segundo o coordenador geral de Estudos e Análises da Secretaria de Política Agrícola do Ministério, José Garcia Gasques.

“Entre as tecnologias que propiciaram um aumento da produtividade estão a viabilização da segunda safra de verão, a ‘safrinha’, a resistência genética às doenças e  práticas sustentáveis, como o plantio direto da palha”, afirma Gasques. O analista Antônio Reche concorda. “A Embrapa produziu nos últimos 40 anos a maior e melhor agropecuária tropical do mundo com a suas pesquisas.”

 AGRICULTURA HI-TECH

 Com a busca de tecnologias que façam cada vez mais a diferença no aumento da produtividade, os agricultores começam a investir em drones e veículos aéreos não tripulados, os Vant’s, para monitorar mais de perto sua lavoura. Esses equipamentos conseguem trazer informações quase em tempo real ao agricultor ou pecuarista depois de um simples sobrevoo na propriedade.

“Como está minha produção? Sadia? doente? Há áreas sofrendo problemas de irrigação? Como está o rebanho?”, são as perguntas que podem ser respondidas com exatidão com as imagens que essas máquinas podem produzir e permitem que o agricultor tenha subsídios para tomar decisões cada vez mais baseadas em informações de qualidade.

A XMOBOT, empresa concebida por dois estudantes de engenharia da USP, Universidade de São Paulo, inicialmente fabricava veículos aéreos não tripulados que monitoravam o desmatamento da Amazônia. Mas não demorou para perceberem que o futuro do negócio estava na agricultura.

Agora, 80% dos equipamentos vendidos pela empresa vão para fazendas, segundo Thatiana Miloso, diretora comercial da empresa. Produtores de cana-de-açúcar, soja e eucalipto são os principais clientes e desembolsam de R$ 90 mil a R$ 450 mil para ter um drone para chamar de seu. Vários tipos de câmeras fotográficas, inclusive com raios infravermelhos, podem ser acopladas ao aparelho e conseguem detectar anomalias na lavoura, como pragas, por exemplo.

“Com as imagens feitas, o 'pragueiro' consegue atuar na localização exata de onde a plantação está com o problema. Antes podiam demorar alguns dias até que se descobrisse onde ocorria o problema na lavoura”, conta. Produtores que dispõem dessa tecnologia também conseguem mais precisão do plantio à colheita.

“As usinas de cana, por exemplo, conseguem fazer com o Vant um mapeamento da topografia da área, detectar as falhas no plantio e até obter às coordenadas da linha de cana para inserir no piloto automático das colheitadeiras”, completa a diretora da XMOBOT.