ETANOL REAGE, MAS QUER MAIS

Agronegócios

Setor se recupera aos poucos do tombo causado pelo represamento do preço da gasolina. A produção cresce e usinas apostam nos derivados da cana como fonte de energia limpa.

(Foto: Tadeu Fessel/Unica)

De São Paulo -- A produção de etanol no Brasil, que recuou 17% no início da década -- de 27,3 bilhões de litros, na safra 2010/2011, para 22,6 bilhões, em 2011/2012 --, está voltando a crescer, apesar de as perspectivas de futuro ainda serem incertas. “O etanol começou a recuperar sua competitividade em relação à gasolina na safra de 2015/2016”, afirma Elizabeth Farina, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única).

O principal freio no crescimento do etanol foi o congelamento do preço da gasolina no final do governo Lula e nos anos iniciais de Dilma Rousseff, para conter a inflação. Como o combustível só vale a pena para o consumidor se custar até 70% do preço da gasolina e os preços pelo país superaram essa faixa, o etanol passou a ser rejeitado nas bombas.

Na safra passada, com a flexibilização do preço da gasolina, a produção de álcool combustível voltou a crescer e chegou a 30,5 bilhões de litros, o que se refletiu na geração de empregos também. No primeiro semestre de 2016, chegou a 4.870 o número de vagas com carteira assinada na cadeia produtiva da cana. Uma evolução significativa em comparação ao mesmo período no ano passado, quando 3.200 trabalhadores foram demitidos.

Elizabeth Farina, presidente da Unica: recuperação na produção, depois de dezenas de falências de usinas
Elizabeth Farina, presidente da Unica: recuperação na produção, depois de dezenas de falências de usinas (Foto: Marcela Ayabe/Unica)

“Esse setor é bastante importante na economia brasileira por estar presente em cerca de mil municípios e ser responsável por aproximadamente um milhão de empregos. Também é representativo na balança comercial por causa da exportação de açúcar e tem a capacidade de incentivar a indústria de bens de capital, a partir do desenvolvimento de novas tecnologias e equipamentos”, diz Elizabeth.

A crise enfrentada pela indústria sucroalcooleira, deixou duras sequelas ao setor . “Mais de 80 usinas foram fechadas e cerca de 70 estão em recuperação judicial”, lembra a presidente da Unica. 

Com o crescimento de 40% na demanda pelo produto na bomba, a partir do ano passado, e o aumento de 25% para 27,5% de álcool anidro de mistura na gasolina, os produtores ganharam fôlego. “O setor melhorou seu desempenho, mas ainda não solucionou os efeitos da crise que passou e enfrenta desafios não triviais para uma retomada de crescimento consistente”, ressalta Elizabeth.

Para Adriano Pires, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a política do governo em relação ao incentivo do consumo do etanol tem que ser clara e definitiva. “A Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), cobrado na gasolina, não é uma tributação qualquer. Tem que funcionar como um imposto ambiental, de tal forma que se dê competitividade às fontes de energia limpa”, diz ele.

Custo do etanol na bomba acima de 70% do preço da gasolina gerou queda nas vendas e na produção
Custo do etanol na bomba acima de 70% do preço da gasolina gerou queda nas vendas e na produção (Foto: divulgação)

O professor acredita que, quando o barril do petróleo estiver barato, o governo deve aumentar o imposto para evitar que o preço da gasolina e do diesel caiam também. Pires reconhece, no entanto, que não é possível fazer isso agora porque isso prejudicaria a recuperação da Petrobras.  

A incerteza em relação à manutenção da postura do governo de não interferir no preço da gasolina prejudica a atração de investimentos para aumentar a capacidade de produção das usinas. “Isso reduziu a capacidade de desenvolvimento dos canaviais, embora se tenha investido muito em inovação e pesquisa para o desenvolvimento do etanol de segunda geração, com recursos do BNDES”, comenta a representante dos usineiros.

Como forma de contornar pelo menos a cenário interno, a representante dos usineiros tem conversado com os Ministérios de Minas e Energia, da Agricultura, da Fazenda e de Relações Internacionais e apresentado uma proposta de agenda.

Luz no fim do túnel

No horizonte, no entanto, não há apenas obstáculos. A ratificação do Acordo de Paris, em que o Brasil se compromete a reduzir a emissão de gases de efeito estufa até 2030, traz perspectivas positivas porque pode garantir a retomada sustentável do crescimento não apenas do etanol, mas de toda a cadeia de produção da cana-de-açúcar.

O etanol tem capacidade de reduzir em 90% a emissão de CO² em relação à gasolina. E o bagaço da cana, que já tornou 100% das usinas autossuficientes em energia elétrica, vem ganhando destaque na matriz energética brasileira. Em 2015, sua participação foi de 16,9% contra 15,7% do ano anterior, segundo o último Balanço Energético Nacional. Esse é o melhor resultado desde 2009, quando esse percentual atingiu 18,1%.

Além disso, pelo 8º ano consecutivo a cana e seus subprodutos lideram o ranking das fontes renováveis usadas no Brasil, ficando à frente das hidrelétricas (11,3%); lenha e carvão vegetal (8,2%); solar, eólica e outras fontes alternativas (4,7%). E, analisando os dados históricos publicados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) desde 1970, observa-se que a biomassa da cana alternou o posto de 1º lugar entre as fontes limpas com a hidroeletricidade.

“O pico da produção de energia por biomassa de cana acontece justamente no período de seca, quando a produção de hidroeletricidade é menor. E essa produção pode crescer ainda mais porque 50% das usinas têm excedente de energia para oferecer à rede”, lembra Elizabeth.

Há ainda, no médio prazo, a possibilidade do etanol ganhar mercado como combustível para aviões, também como forma de reduzir emissões de CO². E a exportação aparece como uma possibilidade no longo prazo. “Temos como vantagem a qualidade superior do etanol de cana em relação ao etanol de milho. Mas, para se ter fôlego para conquistar o mercado externo, é preciso consolidar o mercado interno primeiro. E, para isso, o Brasil precisa abandonar a política que chamamos de stop and go, uma hora avança no incentivo à produção de etano e outra retrocede”, conclui Pires.