Agronegócios

O setor tem 7 dos 10 principais produtos de exportação do país, foi o único que cresceu nos últimos anos de crise econômica, mas já sente com o clima e a queda acentuada do consumo interno

De São Paulo -- Comparado com a cambaleante indústria, o agronegócio nacional parece um furacão. Enquanto o PIB cai 4%, ele avança 2%. Na crise atual é uma luz que mantém algum brilho. Os efeitos da retração econômica são menos perceptíveis no campo do que nas áreas metropolitanas. E culturas vertebrais, como o café e a cana de açúcar, estão em alta. Mas essa é só metade da história. Depois de seis recordes anuais consecutivos, houve, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), uma queda na produção de grãos de 11,2%, embora a soja, principal produto do agronegócio, tenha sofrido menos, com uma redução de 0,8%.

A maior quebra se deu na produção de milho, por razões climáticas, na segunda safra, o que fez o volume total colhido baixar 20,9% e os preços subirem. Isso aumentou a rentabilidade dos produtores que conseguiram colher e complicou a vida dos criadores de frango, por exemplo, que gastaram mais em ração. De um modo geral, com altas de um lado e baixas do outro, o agronegócio tem mantido um certo equilíbrio. O problema é que a mente dos produtores não está tão aprumada assim. 

Há uma crise de confiança no setor constatada, há pelo menos três anos, que inibe investimentos. Quando se olha além da fazenda e se avista toda a cadeia produtiva da agricultura é mais fácil perceber que ela passa por um período de incertezas. Quem mede o sentimento do mercado e estabelece o Índice de Confiança do Agronegócio é uma pesquisa trimestral feita pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) com 700 empresas líderes, que inclui produtores rurais, fornecedores de insumos, como defensivos, fertilizantes e equipamentos e fabricantes de alimentos.

Mais tecnologia no campo: em 40 anos, área plantada cresceu 50% e produção, 300%. Mas crise de confiança inibe investimentos
Mais tecnologia no campo: em 40 anos, área plantada cresceu 50% e produção, 300%. Mas crise de confiança inibe investimentos (Foto: Mapa/divulgação)

Desde sua criação, em 2013, quando alcançou 104 pontos de um total de 200, até o início deste ano, o índice, só piorou. No segundo trimestre, deu sinais de reação – subiu quase 20 pontos, de 82,6 para 102,1, número próximo do registrado no começo da medição. Apesar dos sinais positivos, ainda é cedo para esperar uma retomada firme de investimentos. 

“O setor é diversificado e complexo e, ainda que alguns segmentos estejam bem, outros estão enfrentando dificuldades”, afirma Antonio Carlos Costa, gerente do departamento de Agronegócio da Fiesp. “Há incerteza em relação ao dólar, ao câmbio, ao crédito rural e, evidentemente, sobre a recuperação econômica.”

No ano passado, houve, por exemplo, uma queda de 6% nas entregas de fertilizantes, de 20% do faturamento em dólar da indústria de defensivos e de 30% nas vendas de máquinas e implementos agrícolas.

Do outro lado da porteira, a indústria de alimentos fechou o ano com queda de 2,5% nas vendas, algo que não acontecia desde 2003, e o consumo per capita de carne, que chegou a 40 quilos por habitante/ano, baixou, no primeiro trimestre de 2016, para 28 quilos, o que representa uma perda importante no consumo de proteína. Desde então, houve uma tímida reação e o comércio de insumos melhorou um pouco em relação ao ano passado, mas é cedo para falar em recuperação.

O principal entrave atual para o agronegócio é o mercado interno, para onde se destina a maior parte da produção do setor. As exportações se mantêm em um ótimo nível e o que preocupa é a atitude receosa do consumidor local. Produtos básicos estão sendo afetados pela queda das vendas.

Gado de corte no Pará: exportação de carne bovina cresceu 6% no 1° semestre, mas consumo interno despencou
Gado de corte no Pará: exportação de carne bovina cresceu 6% no 1° semestre, mas consumo interno despencou (Foto: Governo do Pará)

No caso do frango, por exemplo, não houve a esperada migração verificada em outros tempos dos compradores de carne bovina. Os preços dos insumos estão subindo mês a mês e muitos produtores da ave estão operando com margens negativas.

Vários itens da cesta básica também ficaram mais caros, com destaque para o arroz e o feijão. Em doze meses, até julho deste ano, esses dois itens aumentaram 64,85%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), da FGV. O maior aumento foi do feijão, que só em julho subiu 21,54%. Em agosto, com o início da terceira safra, a pressão de preço sobre o grão diminuiu e o aumento foi de 1,26%. Em agosto, finalmente, houve queda de 1,51% no preço da combinação preferida no prato dos brasileiros.  

A produção de grãos, segundo os levantamentos da Conab, caiu de 201,5 milhões na safra 2014/2015 para 179 milhões de toneladas em 2015/2016, a maior queda em 20 anos. Apesar da principal contribuição para a quebra ter sido do milho, cujo volume colhido diminuiu de 84,672 milhões para 66,979 milhões de toneladas, a colheita de arroz e feijão também ficou muito abaixo das metas, por causa de problemas climáticos.

A safra de arroz teve perda de 14,8%, de 12,4 milhões para 10,6 milhões de toneladas. E a de feijão foi ainda mais expressiva, de 21,6%, de 3,2 milhões para 2,5 milhões de toneladas. Já a produção de soja caiu de 96,2 milhões para 95,4 milhões de toneladas. Embora marginal, essa diferença negativa indica a existência de limites para novos ganhos de produtividade sem a necessidade de avanços territoriais.

No ritmo que vinha crescendo, a produção de soja avançava rápido para a superação da barreira psicológica das 100 milhões de toneladas, um número que virou um sonho distante. O Brasil cumpriu brilhantemente as quatro etapas do desenvolvimento produtivo do grão, desde a rotação de culturas, principalmente com o milho, que renova o solo, passando pelo plantio direto, adoção de transgênicos (OGM) e, hoje, está em pleno estágio da agricultura de precisão, que envolve um rigoroso controle de todos os processos.

Nos últimos 40 anos, a produção cresceu 300%, enquanto a área plantada avançou 50%, destaca Renato Conchon, coordenador do núcleo econômico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). “Evoluímos muito nas últimas décadas, mas, em termos de produtividade da soja acredito que alcançamos o ápice”, diz. “Não há muitas outras tecnologias disponíveis e, daqui para frente, o aumento da produção se dará em cima de áreas de pasto degradadas.”

Dos dez produtos que encabeçam a pauta de exportações brasileira, sete são do agronegócio – soja, açúcar, carne de frango, celulose, farelo de soja, milho, carne bovina e café. Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MICS), quase todos apresentaram desempenho positivo no primeiro semestre deste ano e trouxeram uma receita total de US$ 29,9 bilhões, equivalente a 33,2% do faturamento total com exportações no período.

Em relação ao primeiro semestre de 2015, as vendas externas de soja em grão, primeiro produto da pauta, subiram 11%, para US$ 13,9 bilhões. Já o comércio de açúcar bruto, que está altamente valorizado no mercado internacional, aumentou 19%, para US$ 3,1 bilhões; o de celulose cresceu 7%, para US$ 2,7 bilhões, e o de carne bovina, 6%, para US$ 2,2 bilhões.

O café, outro produto de grande destaque, que teve uma das melhores safras de sua história e vai de vento em popa no mercado interno, registrou, nos sete primeiros meses do ano, uma queda de 25,1% na receita de exportação, que diminuiu de US$ 3,6 bilhões para US$ 2,7 bilhões.