Agronegócios

Aumenta a oferta de alimentos sem agroquímicos e os preços caem. Parte da classe média adere a esses produtos e grandes empresas como a Korin, que produz frango orgânico, aproveitam a onda.

De São Paulo - Há uns 10 ou 15 anos, para conseguir comprar alimentos orgânicos você tinha que pesquisar e muito até encontrar o supermercado que vendesse esses legumes, verduras e frutas produzidos sem agroquímicos. Quando, finalmente, encontrava, muitas vezes desistia de comprar, porque os preços eram proibitivos, quase o dobro do alimento 'tradicional'. A solução era bater na porteira do produtor, sempre com um precinho um pouco mais camarada.

Mas agora está tudo mais fácil e mais barato e a classe média já sentiu isso. Já é possível comprar orgânicos muitas vezes sem sair de casa, porque alguns produtores entregam diretamente para os clientes ou promovem feiras livres dentro de prédios, como no edifício onde mora a diretora comercial Luiza Macedo, 39 anos, na zona norte de São Paulo.

Todas as segundas-feiras, uma barraquinha com frutas, verduras e legumes orgânicos é montada na área comum do prédio por produtores vindos direto da cidade Cotia, na grande São Paulo.  Os preços são atraentes, mostrando que consumir alimentos produzidos sem agrotóxico está cada vez mais ao alcance de um maior número de pessoas.

Na feirinha do prédio de Luiza a alface orgânica - lisa, crespa, roxa, mimosa ou americana é oferecida a R$ 2,50 o pé. O maço de rúcula, a R$4,50. Brócolis e couve-flor custam R$ 5,00 cada. A variedade de verduras e legumes oferecida é grande: Há cenoura, beterraba, pepino, mandioquinha, abobrinha, berinjela, ervilha, inhame, jiló, quiabo, vagem, pimentão.

A opção de frutas orgânicas também é grande: ameixa, mamão papaia, manga, abacate, abacaxi, melão, banana, maracujá, limão, maçã e laranja. A diretora comercial Luiza Macedo conta, ainda, que compra orgânicos pensando não só na saúde da família.

Sylvia Wachsner, do Centro de Inteligência em Orgânicos: aposta no barateamento, com o ganho de escala
Sylvia Wachsner, do Centro de Inteligência em Orgânicos: aposta no barateamento, com o ganho de escala (Foto: divulgação)

“Gosto de saber que estou ajudando os pequenos produtores a gerar renda, em uma produção que se preocupa com o meio-ambiente”, completa, enquanto enche a sacola, comemorando preços mais acessíveis. “Os produtos aqui da feirinha do prédio são um pouco mais baratos que o do supermercado. Vale a pena”, afirma.

“A tendência é de que, com a ampliação da oferta, os preços possam baixar ainda mais e mais pessoas possam consumir mais produtos orgânicos”, afirma Sylvia Wachsner, coordenadora do Centro de Inteligência em Orgânicos da SNA, Sociedade Nacional de Agricultura. Ela explica que as feiras municipais estão se multiplicando nos diversos municípios, assim como o número de produtores rurais que entregam seus produtos diretamente ao consumidor.

Segundo ela, o setor de orgânicos deve continuar a crescer cerca de 20% a 25% ao ano.  “As pessoas associam que a boa saúde está relacionada aos alimentos que ingerem. Produtos menos processados e mais saudáveis caíram nas graças dos consumidores no Brasil e no exterior”, garante.

Grandes empresas já perceberam esse movimento e estão começando a se mexer e fazer aquisições. A indústria francesa Nutrition et Santé, pertencente ao grupo japonês Otsula Pharmaceutical comprou em 2014 a paranaense Jasmine, que produz alimentos orgânicos integrais e funcionais. A tradicional e icônica Campbell Soup, aquela da latinha eternizada em uma obra do rei da pop art Andy Warhol, lançou seis linhas de sopas orgânicas, depois que comprou algumas pequenas marcas de alimentos nos Estados Unidos.

Mas se o mercado mundial está se mexendo e se reorganizando com o aumento do consumo e da produção de orgânicos, o Brasil ainda não consegue nem mensurar o quanto produz e quem produz. O Ministério da Agricultura informou à Gazeta Mercantil Experience que “não existem dados oficiais sobre a produção e a exportação de orgânicos no Brasil”.

O país sabe apenas quanto produz de alimentos como frutas, verduras e legumes, mas não tem dados para separar o joio do trigo, ou melhor, o orgânico do convencional. O Ministério afirma, contudo, que a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Agricultura Orgânica, ligada à pasta, criou uma força-tarefa para apurar esses números junto às empresas certificadoras - aquelas que são contratadas pelo produtor para assegurar ao mercado que seus produtos não são produzidos apenas sem o uso de agrotóxicos e adubos químicos, mas também respeitam uma série de boas práticas ambientais, trabalhistas e sanitárias.

“As entidades certificadoras são as que atestam que todos os padrões da legislação de orgânicos foram seguidos”, explica Sylvia Wachsner. Esse “selo de qualidade” é colocado no rótulo ou na embalagem do produto e, no caso dos agricultores familiares que vendem direto do sítio para o consumidor, a garantia é o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos do Ministério da Agricultura.

A Korin Agropecuária produz, desde 1955, uma agricultura conhecida como “natural”, com uma produção baseada na filosofia do japonês Mokiti Okada. Os brócolis da agricultura orgânica, por exemplo, permitem que haja uma adubação com esterco. “Nos brócolis plantados sob a filosofia da agricultura natural, a gente não cruza o mundo animal e o mundo vegetal. Adubamos a terra apenas com folhas verdes”, explica o CEO da empresa, Reginaldo Morikawa.

Morikawa, da Korin: defesa da alimentação natural, o que inclui até "frango vegetariano"
Morikawa, da Korin: defesa da alimentação natural, o que inclui até "frango vegetariano" (Foto: Korin - divulgação)

Embora o conceito de orgânico e natural seja levemente diferente na essência, há muitas semelhanças entre os dois manejos e a Korin surfa na onda de crescimento dos orgânicos como ninguém. Em 2007, a empresa vendia R$ 20 milhões de reais por ano. Em 2015, faturou R$ 108 milhões. “Um crescimento de 440% em 8 anos”, calcula Morikawa. O crescimento médio anual foi, portanto, de 23%, bem acima da inflação. “E esse ano já crescemos 28%”, comemora.

A empresa, que começou produzindo e vendendo frutas, verduras, legumes, ovos, frango e suínos, deixou os hortifrútis de lado em 2010, porque os pequenos produtores ganharam força, e começaram a negociar diretamente com os supermercados, enfraquecendo as comercializadoras de orgânicos.

“A Korin não ficou triste de sair desse mercado. Migramos para o setor de arroz e feijão orgânicos e estamos produzindo cerca de 1200 toneladas de grãos por ano”, conta. O setor de proteína animal da empresa também é forte. A Korin produz por ano 10 mil toneladas de "frango sustentável". Os animais são criados sem o uso de antibióticos, não comem farinhas de carne (alimentação feita com resíduos de animais abatidos que as granjas normalmente fornecem ao animal) e sim vegetais, como milho e soja.

"O frango da Korin é vegetariano", brinca Morikawa. Os "frangos sustentáveis", contudo, são alimentados com grãos transgênicos e, por isso, não levam o carimbo de orgânico, chegando com um preço mais em conta nas gôndolas.

A empresa também produz outros tipos de frango, como o 'caipira livre de antibióticos' e o frango branco orgânico - esse sim, alimentando apenas por grãos não transgênicos e, que, por isso, que chega a custar 40 reais a unidade. A empresa também vende carne bovina "sustentável" e orgânica - os bois comem capim nos primeiros três anos e grãos nos últimos três meses antes de ser abatidos, porque se descolocam 150 km durante 12 dias antes de irem para o abate, perdendo peso.

"O rebanho é criado sem o uso de antibióticos, hormônios e quimioterápicos", garante o CEO. Os preços de carnes e laticínios orgânicos, contudo, ainda são altos. Segundo Sylvia Wachsner, da SNA, porque a produção ainda é pequena.

"A alimentação dos animais deve ser à base de ingredientes orgânicos, e a produção da soja e milho orgânicos ainda é reduzida, o que faz com que essa produção seja, especificamente, um desafio." Se está mais fácil colocar verduras, legumes, frutas e grãos orgânicos no prato, a carne e o frango até aparecem na mesa, mas só de vez em quando.