Agronegócios

Depois de depender por décadas dos portos do Sul e Sudeste, soja e milho usam cada vez mais os rios amazônicos, que já escoam 20% do total exportado pelo país. A Cargill, uma das gigantes da rota, tem em Santarém seu principal porto de transbordo (foto).

De São Paulo – Há menos de 20 anos, os exportadores de grãos do Centro-Oeste e Norte do país apenas cogitavam utilizar as hidrovias da Bacia Amazônica e portos da região para chegar ao Atlântico. Até que, em 1997, uma das maiores produtoras e exportadoras brasileiras de soja e milho, a Amaggi, sediada em Cuiabá, no Mato Grosso, criou a chamada Rota Noroeste para escoamento da produção principalmente do norte mato-grossense e de Rondônia. Hoje, segundo dados da Conab, cerca de 20% das exportações brasileiras de soja e milho já saem navegando pelos rios Madeira, Tapajós, Amazonas e pelo Porto de Itaqui, no Maranhão, no chamado Arco Norte, maneira mais curta e barata para alcançar o Canal do Panamá rumo à Ásia, Estados Unidos e Europa, em comparação aos distantes portos de Santos e Paranaguá, em média 1 mil km mais distantes por terra.

O caminho pioneiro fundado pela Amaggi se utiliza de rodovias até Porto Velho, principalmente a BR 364, que liga Cuiabá à capital do estado de Rondônia, onde se localiza o principal porto de transbordo de grãos do noroeste do país. A partir dali, os carregamentos seguem em comboios de chatas pelo Rio Madeira até o porto graneleiro de Itacoatiara, na região de Manaus, às margens do Rio Amazonas, de onde são exportados em navios transatlânticos para a Europa e a Ásia.

Há dois anos foi inaugurado um segundo grande trajeto, numa parceria entre a Amaggi e outra gigante internacional, a Bunge. A joint venture faz uso de carretas pelas rodovias BR 163 e depois a BR 230 até Miritituba, distrito de Itaituba (PA), às margens do Rio Tapajós. Dali os comboios de chatas seguem em direção ao Amazonas para navios do tipo Panamax, os maiores a passar pelo Canal do Panamá, no Porto de Barcarena, na região metropolitana de Belém (PA).

Comboio de barcaças com grãos pelo Rio Madeira: volume de exportação pela Bacia Amazônica chega a 20%
Comboio de barcaças com grãos pelo Rio Madeira: volume de exportação pela Bacia Amazônica chega a 20% (Foto: Amaggi/divulgação)

As duas rotas, cada vez mais utilizadas, formam junto com a saída pelo Porto de Itaqui, o conjunto de alternativas logísticas que encurtou o caminho e os custos da produção de soja – o principal produto de exportação brasileira – e milho, do Centro-Oeste, Noroeste e Nordeste brasileiros.

O Porto de Itaqui recebeu a partir de 2012 investimentos para acessos asfaltados e um terminal graneleiro, o que o tornou também capaz de receber por rodovias a produção de grãos de estados como Tocantins, Pará, Mato Grosso, Bahia e Piauí, que em boa parte ainda se utilizavam dos portos do Sudeste, em percurso de mais de 2 mil km. E o resultado foi imediato: em 2012, o total de milho e soja exportado não chegava a 400 mil toneladas, disparando para 4,5 milhões de toneladas entre milho e soja até setembro de 2016, um salto de mais de dez vezes em apenas quatro anos.

Com as melhorias ainda em curso, a Empresa Maranhense de Administração Portuária, que administra o porto, acredita que os produtores e exportadores da região obtenham uma economia média de US$ 25,00 para cada tonelada de grãos embarcada, em comparação com os custos de logística até Santos ou Paranaguá. E a previsão é de que Itaqui chegue em 2019 com total de exportações 15 milhões de toneladas/ano, o equivalente a 10% a 15% das exportações totais de grãos do país.

“A tendência é que esse crescimento forte de utilização do Arco Norte continue nos próximos anos, porque a vantagem de custos, embora variável de região para região, é muito grande em relação à logística até o Sudeste”, projeta Thomé Luiz Gucci, gerente de produtos agropecuários da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento, do Ministério da Agricultura).

Porto de transbordo para navios da Amaggi, em Itacoatiara: saída pelo Norte facilita saída pelo Canal do Panamá
Porto de transbordo para navios da Amaggi, em Itacoatiara: saída pelo Norte facilita saída pelo Canal do Panamá (Foto: Amaggi/divulgação)

Ele se refere às ampliações nas estruturas das três rotas de escoamento do Arco. Porto Velho está recebendo melhorias, a rota por Itaituba/Miritituba também recebe investimentos de gigantes como do consórcio Amaggi/Bunge e Cargill, bem como os portos de Barcarena e Vila do Conde, próximo ao desague do Amazonas no mar, na região de Belém, e o de Itaqui, no Maranhão.

Nas contas da Conab, o Arco Norte somou em 2010 apenas 520 mil toneladas em exportações de grãos. Cinco anos depois, em 2015, o volume de soja e milho pelos mesmos caminhos foi multiplicado por 30 e chegou a 15,3 milhões de toneladas exportadas – ao redor de 20% do total vendido pelo país ao exterior.

O município de Sorriso, conhecido como o maior produtor de soja do mundo, está a 1 mil km de Itaituba (ou a 1,3 mil km de Santarém). Campos Lindos, o maior produtor em Tocantins, está também a 1 mil km de Itaqui. E Sapezal e a vizinha Campo Novo do Parecis, no extremo noroeste do Mato Grosso, outras cidades com produções gigantes de soja, estão a menos de 1 mil km de Porto Velho. Em direção ao sul, estão a mais de 2 mil quilômetros de Santos e Paranaguá.

A pioneira no uso em larga escala das hidrovias da Bacia Amazônica para o escoamento de grãos, a Amaggi, que há dois anos tem parceria com a Bunge na utilização dos portos em Miritituba e no terminal de Barcarena, continua sendo a maior usuária das rotas. E deixa claro que pretende priorizar cada vez mais o Arco Norte para suas exportações. “O corredor desafoga o sistema logístico Sudeste e contribui para o desenvolvimento da região Norte”, afirmou a empresa em comunicado sobre a joint venture.

No ano passado, a receita com exportações da Amaggi, a maior parte com soja, foi de R$ 2,9 bilhões. A trilha via Porto Velho pelo Rio Madeira continua sendo a principal da Amaggi, com 3,5 milhões de toneladas transportadas no ano passado, enquanto a rota por Itaituba, pelo Tapajós, transportou 1,5 milhão de toneladas.

A segunda maior exportadora do país pelo Arco Norte é a Cargill, que também utiliza principalmente o trajeto de Porto Velho até Santarém. Há dois anos passou a usar também o caminho BR 163-Miritituba, com transporte por barcaças terceirizado até Santarém. Mas está prevista para os próximos meses a inauguração do porto próprio em Miritituba (PA), que vai ampliar a capacidade logística no trajeto.

“Além do terminal de Santarém, onde foram investidos R$ 240 milhões para aumentar a capacidade de 2 milhões/t para 5,5 milhões/t ao ano, a Cargill investe R$ 180 milhões na frota de empurradores e barcaças no trecho Miritituba-Santarém”, contabiliza Clythio Buggenhout, diretor de Portos da empresa, que dobrou seu volume de exortações pela rota Norte, de 2 milhões de toneladas em 2014 para 4 milhões em 2015.

A empresa acredita que é possível aproveitar a viabilidade dos caminhos hidroviários da Bacia Amazônica sem agredir a natureza. “O objetivo da Cargill é contribuir com o agronegócio brasileiro e com o desenvolvimento sustentável da região de Santarém, colaborando para que o município seja reconhecido como uma da principais rotas para o escoamento de grãos do Brasil”, completa Buggenhout.