ETANOL, REAÇÃO NA ESTEIRA DO MEIO AMBIENTE

Agronegócios

Debate entre setor privado e governo encaminha crescimento da produção de álcool combustível na mistura com a gasolina, para motores flex e como alimentador de novos motores híbridos

De São Paulo - O setor sucroenergético prepara as bases para entrar em um novo ciclo de expansão produtiva da cana-de-açúcar na próxima década. E o principal impulso para essa arrancada é o compromisso de aumento do uso de biocombustíveis assumido pelo Brasil na Conferência do Clima (COP-21), no final do ano passado, em Paris, para conter as emissões dos gases do efeito estufa e o aquecimento global.

Pelo acordo, assinado por 175 países, o governo brasileiro se comprometeu a chegar em 2030 com níveis de emissões de gás carbônico (CO2) 43% inferiores aos de 2005. Para isso, entre outras medidas, como a contenção dos desmatamentos, a participação dos biocombustíveis na matriz energética deverá subir para 18%, o que implicará no aumento da produção de etanol dos atuais 28 bilhões de litros, para 50 bilhões de litros por ano. Para isso, serão necessários investimentos de cerca de US$ 40 bilhões para a construção de 75 novas usinas.

O híbrido da Nissan, que anda com eletricidade gerada a etanol: custo por quilômetro idêntico ao elétrico carregado por tomada
O híbrido da Nissan, que anda com eletricidade gerada a etanol: custo por quilômetro idêntico ao elétrico carregado por tomada (Foto: divulgação Nissan)

O Unica Fórum, evento realizado pela União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica), no dia 28 de outubro, no World Trade Center (WTC), em São Paulo, com participação da iniciativa privada e do governo, tratou especificamente do desafio e das dificuldades de atingir essas metas num futuro próximo.

Depois de uma fase de grande prosperidade, a partir de 2003, com o lançamento dos motores flex (gasolina e álcool) e o rápido crescimento das vendas de carros no país, que elevou a demanda de etanol hidratado de 4,8 bilhões de litros para 16,5 bilhões de litros por ano, os negócios se estagnaram e o setor entrou em um período de dificuldades.

Os investimentos cessaram, usinas ociosas foram fechadas e houve perda de produção. O problema se intensificou nesta década por causa da crise econômica, que reduziu pela metade as vendas de veículos no país, e da queda dos preços do petróleo, que deu vantagens competitivas para a gasolina em relação ao álcool. Atualmente, 20 milhões de carros ou 60% da frota circulante do país utilizam motores flex.

 “Apesar dos problemas, devemos olhar para a frente, com um visão positiva”, afirmou a presidente da Unica, Elizabeth Farina, ao fazer um balanço do evento. “Os compromissos da COP-21 geraram um ambiente favorável para o crescimento da indústria sucroenergética, que tem como atributos principais a redução das emissões e a sustentabilidade.”

Para aproveitar o embalo, o setor busca uma maior aproximação com o governo para a definição de uma política de estímulo ao uso de biocombustíveis – durante a presidência de Dilma Rousseff, essa relação esfriou – e também mais soluções tecnológicas sustentáveis, que contribuam para a mudança da matriz energética. Entre as tecnologias promissoras, está a produção do etanol de segunda geração, extraído da celulose e de resíduos agrícolas, que elimina o conflito entre segurança alimentar e energética, fator de crítica e de limitação do uso global do etanol.

O secretário de petróleo, gás e energias renováveis do Ministério das Minas e Energia, Márcio Felix, anunciou o lançamento imediato de um programa de estímulo ao setor, batizado de Renova Bio, que será conhecido em detalhes na primeira quinzena de novembro e irá para consulta pública em março de 2017. Sua premissa, segundo Felix, é desenvolver a produção de biocombustíveis de uma forma tranquila e previsível. Um de seus objetivos é dar segurança aos investidores para destravar os investimentos em novas usinas de etanol a médio prazo.

“O que queremos é construir uma nova política para o setor por meio do diálogo e do consenso”, afirmou Felix. Dois ministros participaram do Unica Forum, Fernando Coelho Filho, das Minas e Energia, e José Serra, das Relações Exteriores, além do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

 “Embora se diga que o futuro da propulsão é o carro elétrico, cada país está buscando uma solução de eficiência energética e encontrará sua própria rota tecnológica”, disse o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Antonio Megale. “A rota principal no Brasil é a ampliação do uso do etanol, nos veículos flex e nos veículos híbridos.”

O Inovar Auto, programa de incentivo à inovação tecnológica no setor automotivo, lançado em 2012, trouxe contribuições importantes para o aumento da eficiência energética dos motores, mas ele se encerra no final do ano que vem e Megale defende que uma nova política industrial seja ainda incisiva nessa determinação de uso de combustíveis limpos para que o país alcance suas metas de controle de emissões.

Elizabeth Farina, presidente da Unica: confiança na retomada da relação com o governo para cumprir metas da COP-21
Elizabeth Farina, presidente da Unica: confiança na retomada da relação com o governo para cumprir metas da COP-21 (Foto: reprodução GMEHub)

Um exemplo de inovação de mercado possível a curto prazo foi dado pela montadora japonesa Nissan, que apresentou no evento um veículo com a tecnologia e-biofuel cell systems, nova célula de combustível desenvolvida pela empresa que usa 100% de etanol para alimentar a bateria do motor elétrico. Dois protótipos do modelo híbrido, que foi desenvolvido na Espanha, estão sendo testados no Brasil.

O veículo, um utilitário tem um tanque de 30 litros e  autonomia de rodagem de 600 quilômetros. Seu custo por quilômetro rodado, segundo Ricardo Abe, gerente de tecnologia de produto da Nissan, é de 10 centavos, próximo ao de um carro elétrico, 9 centavos e, 60% inferior ao de um motor a gasolina - 30 centavos. Abe estima que o modelo chegue ao mercado em 2020.

De um modo geral, um obstáculo para o crescimento do uso do etanol tem sido a cotação do petróleo no mercado internacional, por conta da demanda inferior à oferta. Em fevereiro deste ano, o preço do barril caiu para 26 dólares e, atualmente, está próximo dos 55 dólares. Segundo Brad Addington, especialista da Oil Price Information Service (Opis), esses valores não devem mudar muito a curto prazo e, antes de 2022, a não ser que haja uma guerra, as cotações não devem voltar a patamares superiores a 80 dólares o barril.

No Brasil, por outro lado, apesar da gasolina continuar cara em comparação com outros países, o etanol permanece pouco competitivo e com preços em alta, por causa da queda da produção e dos estoques baixos da entressafra. Produz-se menos etanol, atualmente, porque muitas usinas optam pela produção do açúcar devido às vantagens comerciais e a maior rentabilidade. As exportações brasileiras de açúcar atingiram níveis recordes, em 2016, e o preço do produto no mercado interno é o mais alto dos últimos 13 anos.