MAÇÃ, UM DOCE SUCESSO NACIONAL

Agronegócios

Em cerca de 30 anos, produção doméstica saltou de zero para a autosuficiência. Hoje, a alta qualidade do produto brasileiro permite exportar para a Europa.

De São Paulo - A maçã, fruta mais consumida do mundo, era, no passado, um produto escasso e caro no Brasil, por causa das condições climáticas desfavoráveis e do pouco interesse no seu plantio. Nos anos 1970, havia míseros 74 hectares de área plantada por aqui e o mercado interno era totalmente suprido por importações, principalmente da Argentina. De lá para cá, porém, ela tornou-se um dos melhores exemplos da organização do agronegócio nacional, tanto em termos de produtividade, como de impacto ambiental e qualidade.

A área ocupada por pomares cresceu 540 vezes, para 40 mil hectares, ocupada basicamente com as variedades Gala e Fuji. Com alta tecnologia e investimentos constantes de grandes grupos empresariais o Brasil se tornou um dos dez maiores produtores globais de maçã, superando até aquela que era sua grande fornecedora, a Argentina, e rivalizando com o Chile, tradicionais no cultivo da fruta.

Adalécio Kovaleski, pesquisador da Embrapa: maçãs nacionais substituem importações
Adalécio Kovaleski, pesquisador da Embrapa: maçãs nacionais substituem importações (Foto: divulgação)

“Ao longo da evolução da cultura, o Brasil passou de total importador para a condição de pequeno exportador”, afirma Adalécio Kovaleski, pesquisador entomologista da Empresa Brasileira Agropecuária (Embrapa), dedicado às frutas de clima temperado. “Mas o foco da produção nacional é o mercado interno, que está muito bem abastecido.”

Os pomares nacionais produzem, atualmente, 1,2 milhão de toneladas de maçãs, o que garante quase a autosuficiência, e exporta entre 12% e 15% desse total para 25 países europeus, principalmente Inglaterra, Alemanha e Holanda. A maçã exportada, 100% da variedade Gala, é idêntica à consumida internamente. Na entressafra, no segundo semestre, importa mais ou menos o mesmo volume que exporta para suprir a demanda local.  

A região Sul do país, de clima subtropical, se situa no limite da zona climática propícia para o plantio da fruta, típica de áreas temperadas. A maça necessita de baixas temperaturas no outono, quando a planta entra em estado de dormência, que se estende durante o inverno. Em setembro, ela brota, floresce e frutifica. O excesso de chuvas e o frio insuficiente no inverno exigem soluções tecnológicas e cuidados especiais.

As variedades Gala (esq.) e Fuji, os tipos mais produzidos e exportados pelo país
As variedades Gala (esq.) e Fuji, os tipos mais produzidos e exportados pelo país (Foto: divulgação)

Para proteger os frutos das chuvas, em especial, de eventuais tempestades de granizo, os agricultores são obrigados a investir em telas de proteção para preservar a safra. Em compensação, como acontece, em geral, em regiões favoráveis à maça de clima mais árido, não precisam gastar com irrigação. De um modo geral, o custo do plantio se tornou bastante competitivo no Brasil. Cerca de 90% da produção está concentrada nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. As duas principais regiões produtoras estão em torno da cidade gaúcha de Vacaria e de São Joaquim, município catarinense.  

As variedades Gala e a Fuji foram introduzidas no país e passaram por algumas adaptações para cair no gosto local. Foram desenvolvidos clones pela Embrapa que garantem mais cor no fruto - o brasileiro só quer maça vermelha, nada de verde, além de mais crocância e doçura. A Gala representa 60% da produção e tem os seus excedentes exportados. A Fuji fica com  outros 30% e é totalmente consumida no mercado interno.

Kovaleski explica que a Gala é colhida em fevereiro e é comercializada nos meses de setembro e outubro. A Fuji, colhida em março, supre o mercado até janeiro. A maça suporta mais de seis meses de conservação se mantida em câmaras a frio, com baixíssimos índices de oxigênio e com controle do CO2, e a Fuji resiste alguns meses mais do que a Gala. Nas condições da câmara fria, a respiração da fruta diminui e sua maturação é interrompida para impedir que a fruta perca suas características positivas.

A produção de maça começou a se desenvolver no Brasil a partir de 1980, quando o plantio da fruta passou a ser enquadrado como projeto de reflorestamento e receber incentivos fiscais. Na época, para aproveitar os benefícios oficiais, várias empresas entraram no negócio, inclusive muitas multinacionais que investiram na implantação de pomares. Ao longo do tempo, os estrangeiros perderam interesse no plantio e o controle dos ativos passou para empresas nacionais e para pessoas físicas.

“Neste momento, o mercado nacional vive o problema da forte competição entre os produtores”, afirma Kovaleski. “E é preciso evitar uma superoferta para não diminuir os preços.” Há uma estabilidade da área plantada no Brasil e os níveis de produtividade dos melhores pomares atingiram a zona de excelência, em torno de 70 a 80 toneladas por hectare, equiparável às áreas de excelência do Chile, da França ou dos Estados Unidos.

Um notável avanço nos pomares brasileiros foi a erradicação de sua principal praga, a mariposa da maçã (Cydia Pomonella), de origem européia, cuja larva destrói a polpa da fruta. A praga afeta plantações de todo o mundo e entrou no Brasil com os frutos importados. Em novembro de 2011, foi capturado o último deste insetos no Brasil e, e 2014, o Ministério da Agricultura declarou sua erradicação total. Atualmente, há uma avaliação minuciosa de toda maçã que entra no país para impedir o seu retorno.

Nos últimos dois anos, com apoio do Ministério da Agricultura, um novo salto de controle vem sendo dado, desta vez de um mal local, a mosca da fruta (Anastrepha Fraterculu), principal praga da fruticultura brasileira, com a instalação do Centro de Controle Biológico da Mosca das Frutas, em Vacaria, para buscar alternativas de combate que substituam o uso de inseticidas. O setor de maçã sofre prejuízos de cerca de R$ 25 milhões por causa da mosca.