Economia

O Japão está criando as bases para um programa de educação gratuita, cujo objetivo é cobrir os custos de alunos da pré-escola até a faculdade, garantido que no futuro o país mantenha o crescimento econômico através de uma força de trabalho altamente qualificada.

A educação como um complemento da estratégia de crescimento

O programa de investimentos em educação, ainda em estágios iniciais, deverá fazer parte da estratégia do “Abenomics”, como é chamado o programa de crescimento econômico do governo do primeiro-ministro Shinzo Abe.

Desde a sua reeleição com primeiro ministro em 2012 (primeiro mandato foi de 2006 a 2007), Abe, implementou sua estratégia econômica baseada em três pilares, que no Japão é chamada de política das "três setas" (uma alusão a uma velha história japonesa), são elas:

(1) a expansão monetária destinada a alcançar um objetivo de inflação de 2%, lembrando que o pais viveu por décadas o fenômeno da desinflação e recessão econômica;

(2) uma política fiscal flexível, na qual, em um primeiro memento o Governo aumenta seus investimentos de curto-prazo gerando déficit com o objetivo de ativar a economia e, no médio-prazo, reverte a tendência, buscando o superávit orçamentário; e

(3) aplicação de uma estratégia de crescimento com foco na reforma estrutural e no incentivo de Investimentos privados setoriais para alcançar crescimento sustentável de longo prazo.

Em março deste ano, o governo japonês convidou o professor da universidade de Columbia Joseph Stiglitz, economista e prêmio Nobel em economia, para falar no principal painel consultivo sobre o aumento de investimentos em educação. Uma das bandeiras de Stiglitz é a participação intensa de governos nos investimentos para elevar o acesso da população a educação universal, desde a alfabetização até universidade. Ele acredita que este é o caminho necessário de inclusão social mais rápido para fortalecer populações menos favorecidas, mesmo em países com a economia bastante desenvolvida.

O painel, patrocinado pelo Partido Democrata Liberal, no qual Abe e o líder, também debateu o escopo do plano educacional e como financiá-lo no longo-prazo. O objetivo do governo é ousado, e pretende alcançar todas as famílias de baixa renda ou de regiões subdesenvolvidas do Japão.

Abe após o painel, declarou em nota oficial: "Stiglitz tem muitas ideias que concordam com algumas das coisas que estamos tentando fazer na segunda etapa do “Abenomics".

Esta sintonia ficou clara em uma das recomendações de Stiglitz que vai de encontro ao que Abe vem aplicando na economia nos últimos anos. Stiglitz recomenda que o Japão execute um plano de elevação dos salários mínimos em várias categorias, especialmente, para os profissionais ligados à educação e saúde. O objetivo é atrair mão-de-obra mais qualificada para dois setores fundamentais para a formação e o bem-estar da população.

Abe vem executando a política de aumento de salários, mas ainda não atingiu todas as classes e setores. Para Stiglitz, o aumento salários, deve ser a mais ampla possível, englobando inclusive os servidores públicos e deve ter como objetivo primordial a melhoria da distribuição de riqueza do país. Para reforçar a eficácia desta política, o governo também deve patrocinar um novo programa para aumento da produtividade, que bem aplicado deve trazer resultados de curto e médio-prazo.

Joseph Stiglitz, economista e prêmio Nobel (foto: divulgação)

 

No “Abenomics”, o PIB se mantem em alta e o déficit fiscal também

O PIB do Japão vem crescendo constantemente desde o primeiro semestre de 2016, que é um bom indicador que a política de Abe vem dando resultados. Mas, para Stiglitz, a política monetária do Japão atingiu seu limite e o próximo ciclo de crescimento econômico deve ter a educação como centro de todos os esforços.

Os dados divulgados em maio de 2017 pelo governo japonês, mostram que entre janeiro e março, a economia do país cresceu a uma taxa anualizada de 2,2 %, registrando o quinto trimestre consecutivo de expansão. As exportações permanecem sólidas liderando a composição do Produto Interno Bruto (PIB). Em relação ao trimestre anterior, o PIB cresceu 0,5 %, superando a previsão de economistas de 0,4 %.

Outro fator importante é o aumento do consumo privado, em especial, o das famílias, que é uma clara consequência das mudanças implementadas pela agenda econômica de Abe. Em 2016, Abe passou a concentrar seus esforços na política de aumento do salário mínimo, na redistribuição da riqueza e na restrição de horas e jornada de trabalho. Desta forma, um número maior pessoas passaram ter aumento de renda, e, consequentemente, passaram a consumir mais, ajudando a economia em diversos setores. Mesmo com estes resultados, Abe vem sendo criticado por diversos economistas pela falta de arrojo e alegam que o ritmo de melhoria dos salários tem sido muito lento.  

 

Fonte: World Bank 

Abe deve atrasar a redução da dívida para financiar a implementação da política de educação gratuita e continuar a elevação dos salários de diversos setores. Por certo, o déficit fiscal será mantido e, segundo Andbank, a meta do governo de alcançar o superávit primário não será alcançada até 2020. Segundo estimativas, a proposta de educação gratuita exigirá uma emenda constitucional, e quando regulamentada, custará ao Governo, anualmente, cerca de 5 trilhões de ienes ou, US$ 44 bilhões.