Educação

A crise atinge universidades e centros tecnológicos. E pesquisadores estão sendo obrigados a paralisar estudos ou seguir usando dinheiro próprio, como a professora que descobriu a ligação do Zika vírus com a microcefalia. (Atualizado em 5/04/2017) 

De São Paulo - O diagnóstico é da própria comunidade científica: há 25 anos não se vê uma crise tão grave na Ciência e Tecnologia do país, com falta de investimento em pesquisa e na infraestrutura necessária para realizá-la, como a manutenção de centros de pesquisas e universidades públicas.

Em um debate no Senado, no ano passado, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC, revelou, com um único dado, não apenas o grau de penúria que afeta a produção de conhecimento científico no Brasil, mas também o desprezo dos últimos governos com o tema: o investimento público em Ciência e Tecnologia é hoje o mesmo de 16 anos atrás.

Por isso a comunidade científica começou 2017 travando uma batalha no parlamento brasileiro para evitar que os minguados recursos previstos na Lei do Orçamento para a área não fossem transformados em miragem. Sim, porque na lei sancionada no início do ano pelo então presidente em exercício, Rodrigo Maia, do DEM, a maior parte das verbas para pesquisa – cerca de R$ 1,1 bilhão -- foram desvinculadas das receitas da União, ou seja, deixaram de ter destinação automática e passaram a ser condicionadas, sem fonte orçamentária definida.

Helena Nader, presidente da SBPC: "Dá até vontade de falar para os jovens irem embora do país"
Helena Nader, presidente da SBPC: "Dá até vontade de falar para os jovens irem embora do país" (Foto: gentileza SBPC)

A gritaria na mídia e um abaixo assinado com mais de 26 mil assinaturas convenceram os senadores a rever a lei. Hoje, o MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações) conta com um orçamento de R$ 1,7 bilhão, mas, ainda assim, esses recursos podem sofrer contingenciamento por causa da crise fiscal.

Enquanto isso, a China, por exemplo – o “C” dos chamados Brics, do qual o Brasil faz parte – anunciou no ano passado, em seu plano para o desenvolvimento econômico até 2020, o aumento nos investimentos em ciência para US$ 41 bilhões. A despeito das diferenças entre as economias dos dois países, a China parece indicar que o setor está no centro de seu sucesso econômico nas últimas décadas.

“Eu lutei muito para que esses dois ministérios, da Educação e da Ciência e Tecnologia, não fossem incluídos na PEC dos gastos, exatamente porque Educação e Ciência são investimentos, não gastos. Infelizmente perdemos”, lamenta a presidente da SBPC, Helena Nader, que fez um grave desabafo em janeiro, ao comentar a ameaça que a lei de orçamento significava, naquele momento, para a pesquisa no Brasil: “Dá até vontade de falar para os jovens que é para irem embora do país”, afirmou.

O pós-doutor em biologia, Bruno Masi, 37 anos, já foi embora para o exterior, mas voltou. Chegou a ganhar a vida na Colômbia como instrutor profissional de mergulho, mas retornou ao Brasil para se dedicar à carreira que havia escolhido.

Bolsista da Faperj, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, Bruno desenvolve nos bancos da UERJ, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, uma importante pesquisa sobre um fenômeno que vem ocorrendo há anos no nosso litoral, mas do qual poucos brasileiros têm conhecimento: a reprodução do coral sol, uma espécie invasora que diminui a biodiversidade e prejudica populações costeiras que sobrevivem da extração de mexilhões, por exemplo.

O pesquisador Bruno Masi (de barba): estudos sobre corais invasores prejudicados por falta de verba da Faperj
O pesquisador Bruno Masi (de barba): estudos sobre corais invasores prejudicados por falta de verba da Faperj (Foto: acervo pessoal)

Os vetores prováveis do crescimento dessa espécie são os navios e plataformas de petróleo, e já existe, inclusive, um questionamento na justiça sobre a eventual responsabilidade da Petrobras na introdução dessa praga típica das águas do Timor-Leste, no sudeste asiático.  

Bruno estuda modelos matemáticos sobre o desenvolvimento da espécie, em busca de formas eficazes de conter a sua proliferação. Para isso, precisa ir a campo mensalmente coletar amostras para a pesquisa. Esse trabalho, que depende do financiamento público, foi interrompido no final do ano porque os repasses da Faperj não foram realizados em novembro e dezembro.

“Como eu trabalho com uma pesquisa que exige continuidade, a partir do momento que eu não consigo fazer minha amostragem mensal, eu tenho que jogar minha pesquisa fora e começar tudo de novo”, explica Bruno. Trocando em miúdos, o atraso se transforma em desperdício de dinheiro público. Mesmo assim, Bruno não desanima: “Eu não pensei em desistir porque eu sou muito perseverante. Pesquisar é minha vocação e é isso que eu vou fazer”.

Foi também a perseverança de Adriana Melo que permitiu que a ciência brasileira – e não a de qualquer outro país com investimentos muito maiores no setor – estabelecesse o vínculo, reconhecido posteriormente pela Organização Mundial da Saúde, entre os crescentes casos de microcefalia no país e o vírus da zika.

Ao observar alterações atípicas nos fetos de suas pacientes, e os relatos das secretarias estaduais de saúde dando conta do avanço da zika, a pós-doutora e professora de medicina fetal da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, desconfiou que uma coisa pudesse explicar a outra. Quando levantou a hipótese, juntando, como se diz, “lé com cré”, foi reprovada por colegas, criticada por autoridades de saúde e acusada de alarmista.

Adriana Melo, da Universidade Federal de Campina Grande: pesquisa fundamental sobre a zika usando até o cheque especial
Adriana Melo, da Universidade Federal de Campina Grande: pesquisa fundamental sobre a zika usando até o cheque especial (Foto: acervo pessoal)

“Aquele era o primeiro indício científico de que a microcefalia poderia estar associada ao vírus. Talvez por se tratar de um achado do Nordeste, fui desacreditada”, conta. Sem apoio público, começou a pesquisar com recursos próprios, usando sua clínica particular. Um amigo médico deu o contato de outro pesquisador da Fiocruz, e ela pagou do próprio bolso a remessa das amostras de líquido amniótico que coletou de suas pacientes para o laboratório da Fundação, no Rio de Janeiro.

O reconhecimento da comunidade científica - e as verbas - só vieram com a repercussão internacional do resultado apresentado pela Fiocruz, que confirmou que as amostras recolhidas por Adriana tinham restos de vírus da zika, comprovando que os bebês microcefálicos tiveram contato com a doença.

A doutora não esconde que só foi possível chegar até aqui graças as diversas parcerias que conseguiu estabelecer e ao sacrifício do próprio patrimônio. “Não tenho nem ideia do que gastei, nem do quanto deixei de ganhar ao abandonar minhas atividades privadas para fazer pesquisa, até tive que entrar no cheque especial”, conta.

“É uma atitude quixotesca a gente ter conseguido trabalhar, ainda que de forma pouco estruturada, nesse tema ao longo de 2016”, diz o diretor do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rodrigo Brindeiro, um dos colaboradores de Adriana na pesquisa.

Ele conta que a colaboração de pesquisadores, de outros centros de pesquisa inclusive, e, na maioria das vezes, com recursos próprios, foram fundamentais para o nível de respostas conseguidas até agora não só no estudo da zika como também da dengue e da chikungunya, “mas logicamente isso não é sustentável”, conclui Rodrigo, que está com a própria pesquisa ameaçada pela falta de repasse de recursos para a UFRJ, a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

Dos R$ 2 milhões aprovados no ano passado pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, vinculada ao MCTIC), para a universidade aplicar no estudo da zika, parte deveria ter sido repassado ainda no terceiro quadrimestre de 2016, mas nenhum centavo chegou até agora.

(Resposta da Finep em 4/04/2017 - "Em relação à reportagem "A ciência brasileira pede socorro", publicada em 31 de março pela Gazeta Mercantil Experience, a Finep esclarece que os repasses ao convênio citado (01.16.0073.00) no 19º parágrafo da matéria foram realizados integralmente em 07/02/2017, totalizando R$ 2.120.405,00.")

As fontes de financiamento estaduais também secaram, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro. Em nota, a Faperj admite que a crise de caixa do Estado reduziu recursos para a Fundação, que tenta priorizar o pagamento de cerca de 5 mil bolsistas e confirma, como disse à reportagem o pesquisador Bruno Masi, que quitou em janeiro o repasse de novembro. Admite ainda que as demais pesquisas, pouco mais de 3,5 mil projetos desenvolvidos em instituições sediadas no Rio, continuam aguardando melhora na arrecadação para voltar a receber financiamento da Fundação.

Apesar de todas as dificuldades, a professora Helena Nader, presidente da SBPC, compara o cientista brasileiro ao personagem sertanejo Fabiano, do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que alimenta a expectativa de uma vida melhor ao primeiro sinal do inverno, como é chamada, no sertão, a época das chuvas e do renascimento da esperança de uma existência menos miserável. "O brasileiro é obstinado com o país. E isso ajuda muito porque o que a gente faz com os poucos recursos que tem, é algo formidável, é um dinheiro muito bem utilizado."