Educação

Encolhimento do Fies faz crescer ação de financiadoras particulares, que muitas vezes conseguem isentar alunos de juros. Só uma das empresas, a Ideal Invest, representou neste ano 15% de todo o crédito universitário no país.

De São Paulo - As mudança nos critérios do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) do governo Federal, a partir de 2015, limitaram o acesso ao crédito universitário oficial e, consequentemente, o ingresso de alunos de menor renda no ensino superior. Além disso, a frequência no repasse de verbas mudou. A consequência foi o desequilíbrio financeiro das instituições particulares de ensino superior, que já reclamavam de dificuldade para conseguir novos alunos por causa da crise econômica, por concorrência ou por restrições de mercado. A consequência nos últimos dois anos tem sido o avanço da oferta de crédito particular, oferecido quase sempre pelas próprias universidades.

De acordo com o relatório de análise setorial de 2016, da consultoria Hoper Educação, a quantidade de alunos potencialmente pagantes caiu 2,6% ao ano entre 2011 e 2014. Em contrapartida, a porcentagem de alunos vinculados ao Fies cresceu 87,6% no mesmo período pré-crise financeira. O salto do financiamento oficial no período sustentou um aumento de 8,4% no número de matriculados no ensino superior presencial. Assim, quando as mudanças nas regras do financiamento estudantil público foram anunciadas, em dezembro de 2014, o Fies era responsável por quase um terço do mercado de graduação privada no Brasil.

Segundo William Klein, CEO da Hoper Educação, duas alternativas encontradas pelas instituições de ensino foram a oferta bolsas para alunos de baixa renda com grande potencial acadêmico - o que não traz lucro, mas traz prestígio - e aumentar o parcelamento das mensalidades, via financiamento próprio ou em parceria com empresas financiadoras, para reduzir o desembolso dos que não conseguem mais o Fies.

Klein, da Hoper Educação: encolhimento do financiamento oficial levou universidades a buscar alternativas
Klein, da Hoper Educação: encolhimento do financiamento oficial levou universidades a buscar alternativas (Foto: reprodução Youtube)

A Kroton, maior grupo de educação do país (dona da Anhanguera, Pitágoras e Unopar, entre outras), criou para os calouros o Parcelamento Estudantil Privado (PEP). “No PEP 30, o aluno pode iniciar o curso pagando 30% da mensalidade. No PEP 50, o estudante paga 50% da mensalidade durante todo o curso e período de amortização. Especificamente, em relação ao período de amortização, tanto alunos com PEP 30 como acadêmicos com PEP 50 têm, depois de formados, o mesmo período do curso para quitar o débito acumulado, sem juros”, conta Guilherme Franco, vice-presidente de marketing e vendas.

No final do terceiro trimestre de 2016, 49,1 mil alunos estavam matriculados em programas do PEP, 34,5 mil vinculados ao PEP30 e 14,6 mil ao PEP50. Para minimizar o risco de inadimplência, a Kroton adotou a postura de provisionamento de 50% sobre a parte parcelada de todos os alunos do PEP em seu orçamento.

A confiança na empregabilidade de seus alunos também está na base da estratégia da Kroton. Franco afirma que a pesquisa realiza bienalmente pelo grupo para avaliar a evolução de renda dos seus alunos apontou um aumento de renda real de 81%, após a conclusão da graduação.

“Em breve, a Kroton anunciará uma parceria com uma instituição financeira. Essa é uma forma de complementar as formas parcelamento estudantil privado no mercado, para garantir aos estudantes o sonho do ensino superior”, diz o vice-presidente de marketing e vendas .

Barros, da Kroton, o maior grupo universitário do país: duas modalidades próprias de financiamento
Franco, da Kroton, o maior grupo universitário do país: duas modalidades próprias de financiamento (Foto: divulgação Kroton)

Klein, da Hoper Educação, lembra que as instituições de ensino são proibidas por lei de oferecer financiamento nos mesmos moldes do Fies. Mesmo no modelo de parceria com bancos, as universidades não podem assumir nenhuma parte do risco financeiro da transação de empréstimo. Por isso, essa estratégia ainda não é efetivamente adotada por nenhum grupo de educação.

Enquanto isso, a Ideal Invest, responsável pela linha de crédito estudantil Pra Valer, principal alternativa ao Fies disponível no mercado, absorve parte da demanda de alunos que não consegue mais o financiamento público. “De 2014 para 2015 crescemos cerca de cinco vezes mais do que de 2013 para 2014 [antes das restrições no FIES]. De 2015 para 2016, o crescimento foi de 60%. E de 2016 para 2017, cerca de 20%”, contabiliza Rafael Baddini, diretor de marketing e vendas da Ideal Invest.

O Pra Valer tem parceria com 400 instituições de ensino superior que representam mais de 50% da totalidade dos alunos de graduação do país. Em 2017, os financiamentos da Ideal representaram 15% de todo o financiamento estudantil universitário no país.

Tendo como contrapartida a maior atração e retenção de alunos, essas instituições de ensino parceiras arcam com todo o juro do financiamento estudantil ou com parte dele. O dinheiro para financiar os estudantes é captado no mercado pela Ideal Invest, que reverte o juro pago pelas instituições de ensino em rentabilidade para os investidores, ficando com uma parte. E o mercado está atento à oportunidade de lucro no financiamento estudantil. Em novembro do ano passado, o Banco Votorantim investiu R$ 70 milhões no Pra Valer, com a perspectiva de ampliar os recursos futuramente.

Klein, da Hoper Educação, alerta, no entanto, que o financiamento privado, mesmo com a possibilidade de entrada de novos players no mercado, não dá conta de atender à necessidade de financiamento da graduação do público de menor renda, que é o que mais necessita do apoio. “Principalmente no Nordeste, onde a renda é menor, os estudantes não conseguem atender aos critérios de seleção do financiamento estudantil privado, que demanda fiador com renda mínima”, ressalta ele. São os mais carentes também que têm mais dificuldade de conseguir o Fies, devido ao aumento da nota de corte no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), como critério de elegibilidade.

“Esse cenário torna muito difícil para o Brasil cumprir a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) de inserir no ensino superior 32% dos jovens com idade entre 18 e 24 anos até 2014. Hoje esse percentual está em 18%. Para se ter uma ideia do atraso, o Chile já atingiu o dobro desse número”, ressalta. Para Klein, somente uma parceria entre o poder público e o setor privado, em que o governo subsidiasse parte do juro para que ele ficasse mais acessível aos jovens de baixa renda, melhoraria esse cenário. Mas ele também vê essa possibilidade como remota.

Outra alternativa seria a aposta do financiamento público no ensino superior a distância, que é mais barato e tem sido a alternativa para muitos dos que não conseguem mais o Fies. Em média, seria possível financiar três vezes mais estudantes nesse modelo do que no modelo presencial.