KROTON, DEVORADORA DE CONCORRENTES, SEGUE COM FOME

Educação

Maior rede de ensino superior do mundo se reforça na oferta de cursos à distância e já vale mais de R$ 30 bilhões ao abocanhar a Estácio

De São Paulo - O mercado nacional de cursos universitários tem desde 2014 um líder isolado: a Kroton Educacional. A dianteira, definida quando as duas maiores da educação no país, a própria Kroton e a Faculdades Anhanguera, fundiram-se, fica agora ainda mais folgada com um novo lance bilionário. A compra pela líder do segundo maior conglomerado universitário do país neste momento, a Estácio de Sá, vai resultar, caso receba o “ok” do Cade, num grupo de R$ 31 bilhões em valores de bolsa, provavelmente a maior rede universitária do mundo. Juntas, terão mais de 1,5 milhão de alunos entre cursos de graduação, pós-graduação e cursos livres, presenciais e à distância.

Se para quem vê de fora parece o bastante, o diretor financeiro da gigante educacional já avisa: “Continuamos interessados em bons negócios. Vamos olhar desde as pequenas instituições presenciais, os bons ativos entre as médias ou grandes universidades e pretendemos agora entrar forte na aquisição de escolas de educação básica”, resume sem rodeios Frederico Abreu, CFO do grupo.

Sala de controle e edição de aulas de cursos de ensino à distância de unidade da Unopar, adquirida pela Kroton
Sala de controle e edição de aulas de cursos de ensino à distância de unidade da Unopar, adquirida pela Kroton (Foto: divulgação)

O germinal do colosso Kroton está completando 50 anos. Nasceu da despretensiosa ideia de cinco amigos que criaram em 1966 o cursinho preparatório para vestibulares Pitágoras, em Belo Horizonte, com 35 alunos. Um dos pioneiros era Waldrido dos Mares Guia, ex-ministro do Turismo e secretário de Relações Institucionais do governo Lula, hoje ainda um dos principais acionistas do grupo, com assento no conselho de administração da empresa.

Os fundadores daquele cursinho contam que o sucesso deu-se já na primeira turma de vestibulandos: 33 dos 35 estudantes conseguiram entrar na faculdade. Desde então cresceu a boa fama da escola pré-vestibular, que só dois anos depois contava com 600 alunos. No início dos anos 70, foi criado o Colégio Pitágoras. Nos 90, a metodologia e material de apoio da Pitágoras eram adotados por mais de 100 colégios associados.

O grupo estreou no ensino superior apenas 16 anos atrás, no ano de 2000, com uma primeira faculdade de administração e cerca de 300 alunos. No ano seguinte, a Pitágoras dá um salto no segmento a partir da parceria com um grande grupo universitário dos Estados Unidos, o Apollo International, dono, entre outras, da Universidade de Phoenix, no Estado do Arizona.

Em 2007, já sem a Apollo, que decidiu deixar seus investimentos fora do EUA, a Pitágoras abre o capital na bolsa e adota o nome Kroton para a holding – em referência à cidade onde Pitágoras teria se iniciado como professor, hoje Crotone, na Itália.

Mas foi a partir de 2009, com o aporte de R$ 400 milhões do grupo norte-americano de investimentos Advent, que a Kroton passa a devorar concorrentes. O controle da empresa foi dividido em partes iguais, entre acionistas da Pitágoras e os americanos recém-chegados. A direção foi substituída, num misto de nomes de consenso entre as duas partes, e foi e foi criado um departamento de “fusões e aquisições”, a partir do diagnóstico de que o mercado brasileiro de ensino superior era muito fragmentado, permitia ganhos de escala e havia boas compras a fazer.

No início do ano seguinte a Kroton faz seu primeiro grande lance: abocanha por R$ 420 milhões a Iuni, rede de faculdades no Mato Grosso, Amapá e Bahia, com um tamanho, na época, parecido com o da Kroton, com total de 45 mil alunos. Dali sairia o futuro presidente do grupo, Rodrigo Galindo, com só 34 anos, filho do fundador da Iuni e que assumiu meses depois o comando geral das operações como CEO.

Sala de aula de educação à distância de uma das unidades da Kroton pelo país
Sala de aula de educação à distância de uma das unidades da Kroton pelo país (Foto: divulgação)

Em 2011 é incorporada a maranhense Fama, com 5 mil alunos, a União de Ponta Grossa, com 1.500 alunos e a Fais, da cidade de Sorriso, no Mato Grosso, com 1.300 alunos. Mas a jogada mais ousada do ano viria em dezembro, com a compra da Unopar, de Londrina, no Paraná, já então a maior escola de ensino superior à distância do país, com 146 mil alunos, pela qual a Kroton desembolsou R$ 1,3 bilhão – o maior negócio do setor até aquele momento.

“A inclusão da Unopar foi mais do que uma boa aquisição na área de EAD. Significou nossa entrada na educação de uso intensivo de tecnologia, que é a educação à distância. Ali a Kroton agregou uma capacidade e competência tecnológica que ainda não possuía”, observa Frederico Abreu.

Antes da compra da Unopar, a Kroton já era grande, mas ainda estava em quarto no ranking dos maiores grupos universitários do país, atrás de Anhanguera, Estácio e Unip. Com ela, o grupo de origem em Belo Horizonte aproximou-se da liderança. E mais ainda quando logo em seguida incorporou a UniRondon, de Cuiabá (5.500 alunos) e a Uniasselvi de Santa Catarina (76 mil alunos de EAD).

Veio então o mega e surpreendente negócio de 2013, quando a Kroton simplesmente incorporou a líder do mercado: as Faculdades Anhanguera, numa operação de troca de ações calculada em R$ 5 bilhões – novo recorde no setor educacional do país. Embora o negócio tenha sido apresentado como uma fusão, o grupo mineiro ficou nitidamente com maior poder, ao manter no topo do poder seu CEO, Galindo, e ocupar sete das cadeiras do conselho de administração, enquanto a Anhanguera ficou com três.

“Foi uma junção de forças. E isso fica claro quando se observa a proporção de funcionários. No momento da fusão, eram 52% da Anhanguera e 48% da Kroton. Hoje a proporção é praticamente a mesma, 51% a 49%”, calcula o CFO Frederico Abreu.

A associação entre as gigantes foi aprovada pelo Cade no ano seguinte e desde então a fúria compradora da Kroton acalmou-se por dois ano. “Paramos porque não queremos trazer para o grupo escolas de baixa qualidade ou pagar mais do que a instituição vale de fato. Nossa avaliação acadêmica e financeira dos ativos é muito rigorosa. No período, nada interessante surgiu. Não é porque somos grandes compradores que vamos comprar qualquer coisa”, diz Abreu.

Frederico Abreu, diretor financeiro do grupo: compra da Estácio é a última tacada
Frederico Abreu, diretor financeiro do grupo: compra da Estácio é a última tacada (Foto: divulgação)

O retorno ao mercado foi em grande estilo, com a aquisição daquela que hoje é a segundo colocada, a Estácio de Sá, por R$ 5,8 bilhões. São 500 mil alunos a mais para a Kroton, 380 mil presenciais. A expansão chegou apesar de o negócio das universidades privadas ter sofrido um baque a partir de 2015, quando o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) foi enxugado pelo governo, baixando o total de novos alunos financiados de 732 mil em 2014 para 300 mil em 2015. Além disso, logo no início do segundo governo de Dilma Rousseff foram suspensos pagamentos às universidades.

“Concordamos com a inclusão de critérios de notas do Enem para o aluno ter direito ao financiamento do Fies, mas isso deveria ter sido avisado com antecedência. Mas houve também a postergação de pagamentos, o que impactou fortemente todo o setor”, explica o diretor financeiro da Kroton.

Como entre 35% e 40% do faturamento da grupo vem dos pagamentos do Fies, houve queda abrupta nas expectativas do mercado para Kroton. O resultado foi a queda de 36% nos valores das ações na Bovespa em 2015. Mas o grupo conta agora com a retomada do crescimento dos financiamentos universitários a partir do ano que vem, com base nas declarações recentes do ministro da Educação, Mendonça Filho.

A direção da Kroton apega-se ainda no baixo percentual de jovens entre 18 a 24 anos que ingressam no ensino superior no país, hoje de apenas 17,7%. Em países como a Coréia do Sul e Estados Unidos, o índice sobe para a faixa entre 60% e 70%. Mesmo em relação a vizinhos, como Peru e Colômbia, a inserção no Brasil chega a cerca da metade. “O plano do governo brasileiro é alcançar 33% -- um terço dos jovens – até 2024. E sem um apoio forte por meio do Fies esse volume será impossível”, projeta Frederico Abreu.

Segundo o chefe financeiro da Kroton, os ganhos obtidos com escala a partir do programa de aquisições, que permite a redução das estruturas administrativas das escolas incorporadas, garantiu um aumento significativo de rentabilidade do grupo. Ele cita o exemplo da fusão com a Anhanguera. No momento da incorporação, em 2013/14, a Kroton tinha margem de 36% e a Anhanguera, de 19% -- média de 28%, considerando que as duas tinham praticamente o mesmo tamanho. “No ano passado a margem média entre elas alcançou 41,4% e, neste ano, está em 43,5%”, diz Abreu.

Ao dedicar-se de corpo e alma às compras de concorrentes pequenas, médias e grandes, a Kroton, assegura jogar em favor da qualidade do ensino, ao contrário do que dizem críticos da postura agressiva da organização. “Praticamente todas as faculdades e universidades que adquirimos melhoraram na avaliação de qualidade educacional feita pelo governo, medida pelo IGC (Índice Geral de Cursos) do Ministério da Educação. Antes de pertencerem ao nosso grupo, 60% tinham índices satisfatórios – notas entre 3 e 5. Neste momento, 90% de nossos cursos estão aprovados como satisfatórios pelo MEC, um forte salto de qualidade”, conclui Abreu.