Educação

O maior empresário do país se mete de corpo e alma entre os estudantes para melhorar a Educação. Leva universitários ao exterior, investe no ensino público e diz que só uma escola melhor diminuirá a desigualdade.

De São Paulo - Jorge Paulo Lemann, o maior empresário e homem mais rico do Brasil, tem se mantido fora da mídia principalmente nos últimos anos e suas aparições se restringem a palestras e entrevistas a ONGs com as quais colabora. E quando perguntado sobre que legado pretende deixar de seu império de empresas, o senhor magro de 77 anos e fala mansa, reitera que investe para melhorar a educação no Brasil para tornar o país mais justo.

A paixão dele pela educação vem de longe. Já em 1991, quando controlava o Banco Garantia, Cervejarias Brahma e Lojas Americanas, Lemann já deu sua primeira cartada na área educacional junto com seus dois inseparáveis sócios, Marcel Telles e Beto Sicupira. Criou a Fundação Estudar, com o objetivo de financiar estudantes brasileiros em universidades no exterior.

Jorge Paulo Lemann em palestra na Fundação Estudar: desde 1991, enviou mais de 600 estudantes a universidades do exterior.
Jorge Paulo Lemann em palestra na Fundação Estudar: desde 1991, enviou mais de 600 estudantes a universidades do exterior. (Foto: portal Na Prática)

Em 2002, já dono da Ambev (que reunia, além da Brahma, a linha Antárctica), abriu uma outra frente na mesma direção, a Fundação Lemann – uma instituição privada de sua família – com missão central de contribuir para aprimorar a educação pública como forma de reduzir a desigualdade social.

“Ultimamente tenho investido muito para tentar melhorar a educação no Brasil”, disse em entrevista ao próprio portal “Na Prática”, da Fundação Estudar. Lemann inspira-se um pouco na própria história. Embora fosse de família com recursos suficientes para estudar no exterior – seu pai era empresário, fundador da Leco --, sua ida para cursar negócios em Harvard, nos Estados Unidos, no final dos anos 50, foi algo ocasional. Mas decisiva no sucesso de suas empreitadas como empreendedor global nas décadas seguintes e até hoje.

Camila Pereira, da Fundação Lemann: foco no apoio a plataformas de estudos pela internet voltadas à educação pública
Camila Pereira, da Fundação Lemann: foco no apoio a plataformas de estudos pela internet voltadas à educação pública (Foto: divulgação Fundação Lemann)

“Um primo meu tinha ido para Harvard e a família achou legal a experiência dele. Eu me candidatei a uma vaga e entrei. Naquela época, era bem mais fácil entrar, hoje em dia tem milhares de candidatos e poucos conseguem. Acho que estudar fora (do país) abre os dois olhos, abre os horizontes, se aprende uma outra cultura. Eu não acho essencial não, mas acredito que soma.”

A Fundação Estudar centrou seu trabalho na oferta de bolsas de estudo de graduação no exterior. Depois, avançou em outras duas frentes: o apoio a alunos de pós-graduação e a preparação de terceiranistas do ensino médio para ingressar em universidades estrangeiras. Atualmente tem 100 alunos apoiados em cursos no exterior, um investimento de R$ 1,5 milhão/ano – sem contar os custos de gestão da Fundação.

O processo de seleção é anual e em 2016 foram inseridos 26 alunos – 15 em graduação e 11 em pós-graduação. A maior parte se destina a cursos de negócios e engenharia, mas há também alunos apoiados em faculdades de educação e medicina, por exemplo.

“O número de interessados é muito grande. Tivemos 60 mil inscrições nesta última seleção. São avaliados desde o histórico escolar, nível de inglês até o perfil de cada candidato, o que ele deseja para o próprio futuro, para o futuro do país. E todos os que são selecionados para bolsas no exterior têm como compromisso retornar e aplicar o conhecimento conquistado aqui no país”, explica  o diretor executivo da Fundação Estudar, Tiago Mitraud.

Desde a sua criação, há 25 anos, a Fundação Estudar acumula mais de 600 bolsistas em universidades no exterior – grande maioria nos Estados Unidos. A maior parte dos alunos do ensino médio selecionados para o programa nos últimos anos são egressos de escolas particulares, por estarem, segundo Mitraud, melhor preparados para as exigências dos exames das escolas estrangeiras.

Na Fundação, passam por processo de aperfeiçoamento para alcançar o objetivo de passar na rígida seleção das melhores universidades americanas. “E praticamente todos conseguem. Alguns passam em duas ou três universidades e podem escolher a que for mais interessante para eles”, conta Tiago Mitraud.

Mitraud, no comando da Fundação Estudar: busca e preparo de alunos do ensino médio para estudar no exterior
Mitraud, no comando da Fundação Estudar: busca e preparo de alunos do ensino médio para estudar no exterior (Foto: divulgação)

A Estudar oferece ainda cursos e palestras gratuitos sobre carreiras a estudantes de nível médio e superior em geral, por meio de plataformas na internet, como os sites “Na Prática” e “Estudar Fora”, e eventos presenciais, que neste ano devem beneficiar 18 mil jovens.

A Fundação Lemann, por outro lado, dedica-se especificamente à melhoria da educação pública, oferecendo programas de aprendizado de matemática e outras disciplinas do primeiro ano fundamental até o terceiro do ensino médio pela internet. “O objetivo é colaborar para aprimorar a educação, fazer a economia crescer e com isso ajudar na transformação social do país”, resume Camila Pereira, diretora de projetos da ONG.

Em entrevista recente dada em evento patrocinado por suas fundações, Lemann explicou que hoje tem nas plataformas educacionais da web um dos pilares para interferir na melhoria da qualidade do ensino. “O que eu posso fazer de melhor aí é tentar trazer novas tecnologias de educação para o Brasil. Nós esperamos com isso atrair muitos jovens para estudar à distância e professores a se engajar nesse esforço”. (Veja a entrevista de Lemann em vídeo)

O principal suporte oferecido hoje pela Fundação Lemann é o Khan Academy, que nasceu como escola à distância de matemática e hoje abrange outras matérias, disponíveis via internet para todos os níveis da educação regular. O Khan é usado intensivamente na educação dos Estados Unidos há cerca de dez anos e hoje, graças à Lemann, é traduzido integralmente para o português. (Veja em: https://pt.khanacademy.org/welcome)

Atualmente, as fundações Lemann e Bill & Melinda Gates são as principais financiadoras do Khan Academy. “É um sistema que permite personalizar a aprendizagem. Ele é capaz de diagnosticar o desenvolvimento do aluno. Por isso tornou-se nosso carro chefe entre as plataformas que oferecemos nos últimos quatro anos”, diz Camila Pereira..

O site tem hoje no Brasil 11 milhões de usuários únicos. Além disso, a Fundação formou 16 mil professores até o ano passado para acompanhamento de alunos de escolas públicas em sala de aula que se utilizam do método Khan.

A Fundação Lemann oferece ainda, além do Khan, outras quatro plataformas de aprendizado via internet desenvolvidas no Brasil. Como o Geekie, portal brasileiro que utiliza lógica parecida com o do americano, voltado para todas às disciplinas. E patrocina também bolsas de estudos de pós-graduação fora do país em cursos voltados para a formação de profissionais em áreas sociais. Hoje são 50 pós-graduandos apoiados pela Fundação. No acumulado, a rede de bolsistas financiados desde que o programa foi iniciado chega a 350 profissionais.

“Nosso foco é no impacto social. Temos parcerias com governos para que nossos recursos sejam aplicados tanto para ajudar os alunos como para o aperfeiçoamento de professores”, sintetiza a diretora da Fundação, Camila Pereira, que prefere não divulgar os valores investidos no conjunto de projetos. Para ela, mais do que as cifras, são fundamentais os resultados práticos, já bem visíveis, como o de trazer para a criança brasileira em geral métodos de ensino alta tecnologia, como o Khan. É nesse mundo que pretende ser encontrado Lemann, em meio à multidão que se esforça para mudar para melhor a educação no país.