NA CRISE, EXECUTIVOS VOLTAM ÀS AULAS

Educação

Em períodos difíceis, como os atuais, escolas de negócios, como o Insper, registram aumento da procura por cursos de formação e aprimoramento de gestores de grandes e pequenas empresas

De São Paulo - A educação continuada para o desenvolvimento de profissionais de gestão e de lideranças corporativas entrou no roteiro de empresas brasileiras de todos os portes. Se as grandes companhias de capital aberto exibem um longo histórico de formação de executivos, como os notórios casos da Ambev ou da Vale, inclusive facilitando cursos no exterior e criando universidades corporativas para resolver boa parte dos desafios de capacitação dentro de casa, as pequenas e médias estão cada vez mais empenhadas em formar seus jovens profissionais, contratando consultorias e cursos de gestão regulares ou customizados em escolas de negócios para alcançar o conhecimento que procuram.

Além disso, em momentos de crise, como os atuais, o interesse por programas de formação de gestores e cursos de Master e MBA tende a aumentar, tanto por iniciativa das empresas, como dos próprios profissionais, preocupados com a empregabilidade. É o que se verifica em centros prestigiados como o Insper, a FGV-SP  ou no Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que estão com as salas bem ocupadas e registram crescimento das matrículas, principalmente neste segundo semestre.

Marcelo Aidar, coordenador de educação continuada da FGV: funcionário precisa estar engajado aos objetivos do curso
Marcelo Aidar, coordenador de educação continuada da FGV: funcionário precisa estar engajado aos objetivos do curso (Foto: divulgação)

“Nos últimos 50 dias, tivemos um aumento enorme da procura por nossos cursos”, afirma Rodrigo Amantea, coordenador de educação executiva do Insper. “Algumas temáticas, como reestruturação de empresas, compliance, responsabilidade jurídica e cláusulas anticorrupção e relações governamentais, por exemplo, se tornaram muito relevantes na atual conjuntura e atraem mais alunos”.

O que se busca na formação continuada de gestores, além de capacidade de reação, é preencher lacunas de conhecimento e desenvolver profissionais completos, capazes de entender sua posição, encontrar soluções anticíclicas em situações difíceis e contribuir estrategicamente para o negócio, melhorando o que está ruim e aperfeiçoando o que está bom. Além disso, para as companhias, benefícios educacionais são uma forma de reter talentos e se organizar para um planejamento de longo prazo, que prolongue seu ciclo de vida.

O ideal é que isso seja feito de maneira estratégica, como faz a Votorantim Cimentos, que tem cerca de 9 mil funcionário e vem reforçando seus investimentos em educação continuada em todos os níveis de gestão. Há dois anos, em parceira com o Insper, a empresa iniciou um programa para seus gerentes sêniores, o MBA Leadership Program (MLP), com duração de 15 a 18 meses, que está formando sua nova geração de dirigentes.

E, nos próximos meses, utilizando seus próprios executivos como multiplicadores, começam os programas de primeira liderança, o Essencial Leadership Program (ELP), dirigido para chefes e supervisores, e de liderança avançada, o Advanced Leadership Program (ALP), com roupagem mais estratégica e orientado para coordenadores e gerentes juniores.

“Praticamente 10% de nossos funcionários estarão participando de programas de formação contínua de líderes”, afirma Maria de Fátima Peixoto Nascimento, gerente de treinamento e desenvolvimento global da Votorantim Cimentos.

Maria de Fátima Nascimento, da Votorantim: programa de formação de líderes
Maria de Fátima Nascimento, da Votorantim: programa de formação de líderes (Foto: divulgação)

A velha visão de educação em geral como um ônus ainda é forte entre as empresas nacionais, mas vem sendo minada por exemplos de grupos como o Votorantim, de multinacionais e também de jovens empresas da internet e dando lugar a um ponto de vista mais estratégico, que considera a capacitação de gestores como investimento e uma clara vantagem competitiva.

“Algumas empresas querem prover todo o treinamento, acabam sendo cobradas por horas extras e ainda percebem pouco engajamento”, afirma Marcelo Aidar, professor e coordenador do Programa de Educação Continuada de Gestão de Empresas Familiares da FGV-SP. “É possível observar melhor resultado quando os funcionários pagam, pelo menos em parte, pelos cursos de educação corporativa.”

Ele cita o exemplo da Papéis Piza, de São Paulo, onde foi dar um curso em pleno sábado , às 8h30, e encontrou a sala cheia, com todo mundo interessado e perguntando. A contratação do curso foi uma iniciativa dos funcionários, que estão pagando metade da conta. Aidar também teve, recentemente, uma experiência com profissionais do setor ceramista de Santa Bárbara do Oeste, na qual constatou um alto nível de comprometimento.

Nos esforços de medição da eficácia da educação continuada e do seu impacto a curto e médio prazo sobre o desempenho e os resultados das empresas que crescem mais e se perpetuam, professores e pesquisadores do mundo dos negócios, com frequência, se deparam com o chamado “efeito Tostines”. Afinal, elas crescem mais porque investem ou investem porque crescem mais e tem dinheiro para isso?

A ideia de que só as grandes e fortes tem recursos para formar seus gestores e líderes acaba criando uma visão equivocada, como se benefícios de educação corporativa para os seus talentos não fossem coisa para pequenos. O fato, porém, segundo Aidar, é que as empresas mais organizadas, inovadoras e vencedoras investem na formação de seus gestores.

“Nossos estudos de impacto da formação contínua de líderes mostram melhoria de clima operacional, maior alinhamento com a gestão, mais lealdade e orgulho de pertencer à empresa, além de mais envolvimento com o trabalho”, afirma Maria de Fátima.

Segundo ele, não existe uma relação causa-efeito tão direta e nem estudos que mapeiem essa relação de forma eficiente, mas existem diversos níveis de acompanhamento do retorno do investimento em educação executiva que mostram que o quadro final é positivo. Se tiver gestores bem formados e comprometidos, a empresa tenderá a se sair melhor das armadilhas de uma crise.

Aumentará sua capacidade de reação e terá mais chances de encontrar oportunidades, se renovar e redirecionar seus negócios quando necessário. E o ponto principal: quem não investe em capacitação profissional e não tem a inovação como prioridade corre o risco de não crescer nunca ou de parar de crescer muito em breve.