ENSINO PROFISSIONAL CHEGA AO TOPO COM O SISTEMA “S”

Educação

Senai e Senac são pioneiros na formação técnica em larga escala e alcançam qualidade comparável à educação profissionalizante de países desenvolvidos

De São Paulo – Quando sai um ranking internacional sobre a qualidade da educação regular, é comum ver o Brasil no fim da lista de países. A posição vergonhosa vem acompanhada de constatações de que a criança brasileira em idade escolar não conhece rudimentos da língua portuguesa e apenas um entre dez alunos acima dos dez anos domina o mínimo necessário em matemática.

Mas chama a atenção quando a comparação do ensino no Brasil é feita no campo da educação profissionalizante. Nesse caso, em que pese a crítica e o fato de que esse tipo de ensino foi sempre voltado aos mais pobres para formação de mão de obra para o chamado “chão de fábrica”, os alunos brasileiros correm cabeça a cabeça com crianças da mesma idade de países como Alemanha, Estados Unidos e Coréia nas várias olimpíadas de conhecimento realizadas anualmente.

Sala de aula do Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil. Prática com alta tecnologia.
Sala de aula do Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil. Prática com alta tecnologia. (Foto: divulgação)

Mas por que vamos tão mal de um lado e aparentemente tão bem de outro?

O responsável por boa parte desse sucesso são os cursos profissionalizantes do hoje denominado "Sistema S", criados nos anos 40 por uma espécie de parceria entre o governo e iniciativa privada. Senai, em 1941, e Senac, em 1946, passaram a oferecer cursos em larga escala em praticamente todo o país para formar mão de obra para a indústria e o comércio.

A iniciativa foi resultado de uma mistura do interesse do governo de Getúlio Vargas de criar em curto prazo um volume grande de escolas industriais por todo o país e a necessidade das grandes fábricas de ter operários melhor qualificados.

O financiamento para a criação do Senai, em princípio comandado de forma híbrida por governo e lideranças do empresariado, vinha do percentual de 2% e – logo depois – de 1% extraído compulsoriamente dos holerites dos trabalhadores da indústria.

De forma parecida, surge cinco anos depois o Senac, voltado para a formação de mão de obra para o comércio. Nos dois casos, houve resistência tanto de parte do empresariado, que temia ter de elevar os salários devido à maior capacitação do operariado, quanto de sindicatos, que viam naquela formação massiva de novos técnicos, uma concorrência com os profissionais já no mercado.

Do ponto de vista de muitos estudiosos e críticos do desenvolvimento do capitalismo brasileiro, o Senai e as escolas profissionais em geral são criados como instrumento de perpetuação da distância social entre o trabalhador da classe operária e a elite empresarial. “No Brasil, não apenas o Senai, mas as demais iniciativas voltadas à educação profissionalizante mantiveram (...) o lado cruel da formação para o trabalho, um modelo preocupado em satisfazer interesses imediatos (...), acabando por se constituir num fator adicional de perpetuação e cristalização das diferenças sociais", como opina Meire Terezinha Müller em estudo acadêmico para a Faculdade de Americana (FAM). 

 

Felipe Morgado, gerente do Senai: conexão do ensino com as demandas de mão de obra da indústria
Felipe Morgado, gerente do Senai: conexão do ensino com as demandas de mão de obra da indústria (Foto: divulgação)

Discussões à parte, é fato já há pelo menos uma década o ensino técnico oferece mais oportunidades de colocação no mercado de trabalho do que a formação universitária ou o ensino médio regular. “Hoje funcionamos com observatórios das tecnologias mais difundidas pelo mundo e na indústria brasileira, para saber o perfil profissional que o mercado vai demandar nos próximos cinco anos. A partir dessa visão desenvolvemos cursos”, explica Felipe Morgado, gerente executivo de ensino profissional do Senai.

Além dos cursos de nível médio, o Senai oferece atualmente formação superior em tecnologia. “Temos desde os cursos mais simples, de qualificação em três meses, até os de nível universitário”, diz Morgado. A oferta começa para estudantes que ingressam no nível médio, a partir de 14 ou 15 anos. A maior parte dos estudantes dos cursos profissionalizantes de nível médio do Senai no país –  53% -- faz o curso em forma subsequente à conclusão do nível médio, em busca de um complemento de formação que o qualifique a um ofício profissional.

Hoje no Brasil, 17% dos jovens que concluem o ensino médio vão para a universidade; 11% são formados em cursos profissionalizantes. Na média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação Econômica), que reúne 34 nações signatárias de tratados em favor da livre iniciativa, 49,9% dos jovens concluem o ensino médio com formação profissionalizante.

Ana Luiza Kuller, do Senac: preconceito ainda existe contra os cursos profissionais
Ana Luiza Kuller, do Senac: preconceito ainda existe contra os cursos profissionais (Foto: divulgação)

“Os cursos profissionais sempre foram voltados para os pobres e desvalidos e essa visão se impregnou na sociedade. Mesmo hoje, muitos dizem que o curso técnico é bom e importante para o país, mas não para o próprio filho”, opina a coordenadora acadêmica de Educação do Senac-São Paulo, Ana Kuller. 

Ela explica que um dos países mais fortes na formação média profissional é a Alemanha, maior potência industrial da Europa, em que o adolescente já aos 12 ou 13 anos começa a definir suas preferências por áreas do conhecimento, que vão desaguar na sequência de estudos de nível profissionalizante nos cursos médios. “A educação alemã pensa sempre numa relação educação/trabalho”, completa Ana Luiza Kuller.

A exemplo do que faz o Senai, o Senac observa o mercado de trabalho e as demandas comerciais e de serviços para definir sua oferta de cursos, que se estendem hoje do médio profissionalizante ao universitário – incluindo pós-graduação em algumas áreas. “Nossos laboratórios são superatualizados, para prover o aluno do que existe no mercado de trabalho”, explica a coordenadora pedagógica do Senac-SP.

Os cursos tanto em Senai como em Senac são pagos, embora as duas instituições tenham  política de bolsas de estudos agressivas. No caso do Senac, um terço dos alunos são bolsistas. Há também grande volume de parcerias com empresas, entidades de classe e o próprio governo, para descontos nos valores dos vários cursos. O Pronatec, por exemplo, lançado pelo governo de Dilma Rousseff, agora em fase de reavaliação pelo novo governo, comprava lotes de vagas do Senac para aos inscritos do programa.