CURSOS LIVRES, PARA APRENDER A FAZER DE TUDO

Educação

Para quem pretende dominar técnicas em alguma área específica, esses cursos, que não exigem formação universitária, são uma boa opção

De São Paulo - Depois de seis meses desempregada, a bacharel em moda Janine Pereira, 37 anos, decidiu: iria ocupar o tempo, que custava a passar, fazendo cursos online. Confiava que o mercado iria absorvê-la uma hora ou outra, por ter 15 anos de experiência liderando equipes, uma graduação e especialização em "jeanswear". Enquanto o novo emprego não vinha, descobriu a EduK, plataforma de educação que oferece cursos livres (que não exigem curso universitário) em diversas áreas, incluindo gastronomia, negócios, moda, artesanato e beleza. Janine se aventurou nos cursos de confeitaria, mas se encantou mesmo pelas aulas de artesanato.

O primeiro curso que fez foi um de três dias que ensinava a confeccionar bonecas conhecidas como "Tilda", que possuem um design todo especial inventado por uma artesã norueguesa. Ela pegou restos de tecido que tinha em casa e se aventurou na fabricação de sua primeira boneca. Orgulhosa, fotografou sua criação e postou no Facebook. E em poucos minutos vendeu até o que não estava a venda e os pedidos por novas bonecas não paravam de chegar.

"Eu não imaginei que ia me tornar uma empreendedora", conta. A artesã por acidente decidiu abrir uma lojinha virtual e, para isso, assistiu a mais um curso da EduK que ensinava o uso do Facebook nos negócios. Hoje Janine já tem CNPJ e vende cerca de 50 peças de artesanato por mês - entre bonecas, almofadas e guirlandas. Tudo, aprendeu a fazer online.

"Semana passada fiz um curso pela internet que ensinava como fazer sapatinhos de bebê", conta. Janine comemora e diz que já ganha o mesmo salário de quando era gerente de uma grande confecção, com algumas vantagens: é dona do próprio tempo e do próprio negócio. "Os cursos online mudaram minha trajetória profissional", conta. 

Bernardinho (ao centro) e seus sócios, Robson Catalan e Educardo Lima, na EduK: cursos curtos para ensinar o aluno a empreender
Bernardinho (ao centro) e seus sócios, Robson Catalan e Eduardo Lima, na EduK: cursos curtos para ensinar o aluno a empreender (Foto: divulgação)

O cursos da EduK são de curtíssima duração e não oferecem diploma. Quem os procura quer aprender coisas novas, conquistar uma outra profissão ou abrir e desenvolver seu próprio negócio. "O objetivo da escola é que o aluno aprenda a empreender. Não formamos um profissional para o mercado de confeitaria, por exemplo, e sim um candidato a empreendedor que vai conduzir o próprio negócio seja na cozinha de casa ou montando sua loja", afirmam os CEO´s  Eduardo Lima e Robson Catalan. Bernardo Rezende, o Bernardinho do vôlei, um dos sócios da EduK, é entusiasta do e-learning.

"Queremos promover o acesso à educação de qualidade, transformando a vida das pessoas para que elas vivam da sua paixão e ganhem dinheiro com isso", afirma. 

O estudante Wanderson Macedo, 21, começou a se valorizar na agência onde trabalha desde que descobriu a Alura, plataforma de cursos online de tecnologia, área que estuda na Faculdade de Juazeiro do Norte, Ceará. O estudante de Sistemas de Informação sentia falta de conteúdos mais atuais, que não estavam na "grade" do seu curso e que nenhuma escola da região oferecia. O estudante já fez 45 cursos livres online nos últimos meses nas áreas de programação, mobile, design, "front-end" e negócios, cada um deles com duas horas/aula em média. 

"Se eu fosse pagar por todos esses cursos separadamente, viajando para longe da minha cidade, não teria condições de fazer", conta. Com a expertise aprendida online, Wanderson se orgulha de ter crescido profissionalmente, conseguindo executar projetos mais elaborados.

As duas plataformas de cursos não são gratuitas, mas funcionam por sistema de assinatura. No caso da EduK, que se vendeu ao mercado como sendo a "Netflix da educação", o estudante pode assinar três pacotes diferentes: no plano básico, assistir a todos os cursos de uma mesma categoria pagando R$19,90 reais por mês; no "plano duplo", tem acesso a duas categorias por R$24,90, e no "premium" pode assistir aos 850 cursos disponíveis na plataforma, pagando R$29,90 mensais.

Já na Alura há dois pacotes, um de R$75,00 e outro de R$100,00/mês, que dão acesso a mais de 250 cursos de "mobile", programação, infraestrutura, design e negócios, que eram oferecidos no formato presencial, mas que ganharam o mundo quando foram para uma plataforma online.

"Havia uma parcela de alunos em potencial que podiam ser atendidos com aulas pela internet ", afirma Paulo Silveira, sócio-fundador e diretor de produtos da Alura. O passo foi certeiro: a Alura comemora um crescimento anual de 100% no número de estudantes. "Agora atingimos alunos no Acre, no Japão, em Moçambique e em Portugal", celebra Silveira.

Quem não tem dinheiro para assinar uma plataforma paga, também pode estudar. O Veduca oferece mais de 200 cursos on-line gratuitos, das melhores universidades do mundo, em 21 áreas do conhecimento. É possível, por exemplo, assistir a aulas livres que foram ministradas na USP, Universidade de São Paulo ou nas Universidades de Berkeley, Columbia e até no MIT, Massachusetts Institute of Technology.

Nem todas as aulas são legendadas, o que dificulta a compreensão para quem não é fluente no inglês mas, por outro lado, até pode ajudar quem busca uma proficiência na língua. A Unesp Aberta, plataforma da Universidade Estadual Paulista, também oferece cursos livres, assim com a FGV, a Faculdade Getúlio Vargas. "

A FGV é a primeira instituição brasileira a ser membro do OpenCourseWareConsortium, um consórcio de instituições de ensino de diversos países que oferecem conteúdos e materiais didáticos sem custo, pela internet", explica a Professora Mary Murashima, diretora da área de produção das soluções educacionais do Instituto de Desenvolvimento Educacional da FGV. 

Como os cursos não proporcionam titulação, crédito, certificação ou acesso a instrutores, os materiais estão disponíveis, gratuitamente, sob a forma de licenças livres para uso e adaptação por educadores e alunos ao redor do mundo. No total, 49 cursos estão disponíveis na FGV, em 11 áreas que vão da língua portuguesa à sociologia, passando pelo direito e finanças.  

Janine, nossa empreendedora do início da reportagem, migra de portal em portal e dia desses assistiu a um curso gratuito sobre propriedade intelectual oferecido pelo site da Fundação Getúlio Vargas. "Eu sou a maior 'curseira' que existe", brinca. "Em tempos de internet, só não aprende coisas novas quem não quer", sentencia.