FALAR INGLÊS, DESAFIO PARA O PROFISSIONAL ADULTO

Educação

Já há tempos ela é a primeira língua internacional, imprescindível em funções executivas. Para especialistas, como Felipe Franco (foto), nunca é tarde para aprender. Apenas 1% dos brasileiros fala inglês.

De São Paulo - O engenheiro elétrico Valmir Corbacho, 50 anos, tem um curriculum invejável. Além da graduação em engenharia pela Fesp, formou-se também em estatística pela USP, fez duas pós-graduações, uma em marketing na ESPM e outra em administração de empresas no Mackenzie, universidade onde também cursou o mestrado em administração. Esteve tão ocupado com a vida acadêmica que demorou a perceber que havia um buraco em sua formação: Valmir não falava inglês. "Concentrei todos meus esforços na minha formação e não tive tempo de me dedicar a aprender uma língua. Na verdade, poderia ter aprendido mais de uma", lamenta.

O British Council, organização britânica que promove a cooperação entre Reino Unido e o Brasil, realizou uma pesquisa que ouviu brasileiros que vivem nos centros urbanos e descobriu que Valmir não é a exceção e sim, a regra. Apenas 1% dos entrevistados se declararam fluentes em inglês e somente 5% deles afirmaram ter algum conhecimento da língua.

Nina Coutinho, diretora para língua inglesa no Brasil do British Council, afirma que o profissional que não sabe inglês perde oportunidades profissionais e pessoais. "O inglês é a língua franca na internet, nos negócios, na diplomacia, na ciência. É o passaporte para duas pessoas que não falam a mesma língua poderem se comunicar", afirma.

Nina Coutinho, do British Council: não basta ao professor falar bem a língua, é preciso ter metodologia
Nina Coutinho, do British Council: não basta ao professor falar bem a língua, é preciso ter metodologia (Foto: British Council)

 "O inglês, gostem ou não os nativos da língua, deixou de pertencer a um grupo de nações. Ele passou a ser uma ferramenta de domínio público da humanidade", completa Nina.

Foi só quando trabalhou em uma empresa multinacional que Valmir percebeu que precisava compensar o tempo perdido. Ele sabia, contudo, que o aprendizado de uma língua estrangeira a partir do zero não seria algo rápido. Matriculou-se na Associação Alumni e, em em pouco mais de três anos, tinha cursado o ciclo básico e o intermediário. Interrompeu o curso quando achou que já tinha aprendido o suficiente.

Anos depois, arrependeu-se e tentou uma solução diferente: contratou um professor "nativo" que ia até à empresa onde então trabalhava para aulas particulares. Não deu certo. "Ele não tinha didática", conta.

Nina Coutinho, do British Council, afirma que o bom professor de inglês é aquele que domina metodologias adequadas de ensino. "Esse conhecimento independe do país onde o professor nasceu", afirma, desmistificando a teoria de alguns de que professores que têm o inglês como língua materna são melhores do que os que nasceram no Brasil.

Valmir decidiu voltar para a Alumni, mas para aulas individuais. "Não tenho mais tempo a perder e nem mais paciência para aulas em grupo, onde cada um têm um objetivo. Eu não vou para a escola fazer amigos e sim para corrigir erros do passado", conta Valmir, que confessa que o custo da exclusividade é alto. "Qualidade tem preço, não adianta se iludir", decreta.

Existem escolas de inglês que são especializadas no ensino de adultos. O Cel-lep, fundado há 60 anos, "nasceu" com esse DNA -- só de uns anos para cá abriu turmas de crianças e adolescentes, segundo Felipe Franco, diretor-geral da instituição. Mas, contudo, as faixas etárias não se misturam, mesmo se estiverem no mesmo nível de aprendizagem. "Adulto estuda com adulto, adolescente com adolescente", afirma Franco.

"O adulto tem mais filtro na hora de aprender, não quer se expor", justifica, e explica ainda que os professores têm um treinamento diferenciado para ensinar os mais maduros. Embora o Cel-lep ofereça aulas individuais para quem não quer enfrentar uma sala de aula com outros estudantes, mesmo sendo da mesma idade, a instituição acredita que a aprendizagem da língua é maior se houver troca de informações entre alunos. As turmas, porém, são pequenas. Cada classe de inglês do Cel-lep tem, no máximo, 10 alunos, segundo Franco.

A Alumni também nasceu para ensinar adultos e seis de cada dez alunos que se matriculam na instituição têm entre 25 e 40 anos. "São pessoas que não tiveram oportunidade de estudar inglês na infância e agora precisam aprender o idioma em caráter de urgência, para atuar no mercado de trabalho", afirma Silvia Helena Corrêa, diretora acadêmica da instituição. E esqueça o "The book is on the table”: o conteúdo para esses executivos não é nada tatibitate. "Levamos o mundo corporativo para dentro da sala, para tornar a aprendizagem mais concreta e prática”, garante Sílvia.

A primeira intérprete inglês-português do Brasil, Ângela Levy, 88 anos, uma das fundadoras da Alumni, afirma que qualquer pessoa pode aprender inglês, em qualquer momento da vida. "É mais difícil tirar o sotaque brasileiro dos adultos, mas a aprendizagem é perfeitamente possível", garante.

Nina Coutinho concorda. "Eu conheço adultos que foram aprender inglês muito tarde em relação àquela que é considerada pelos teóricos a idade ideal, e que falam com fluência e correção gramatical". Segundo ela, tudo depende do esforço e também da falta que a proficiência no inglês esteja fazendo na vida daquela pessoa.

"É mais fácil aprender quando se precisa daquele conhecimento", ressalta a diretora do British Council. Valmir que o diga. Aos 50 anos ele comemora ter chegado ao nível avançado do idioma. "Mas ainda não acho que está bom. A gente nunca acha, não é mesmo?", brinca.