ENSINO MÉDIO, QUANDO O PAÍS TODO É REPROVADO

Educação

É na ponte entre a escola fundamental e a universidade que a educação brasileira tem um de seus principais limites

De São Paulo – O estudante brasileiro tem como um de seus principais desafios no percurso escolar e desenvolvimento os três anos do denominado “ensino médio”. São os últimos anos da educação básica, que configuram uma ponte que pode levá-lo à universidade ou ser a própria opção pela formação profissional técnica. Mas para 43,3% (IBGE/Pnad 2014), quase a metade dos jovens brasileiros até 19 anos, essa travessia é interrompida antes do final. O problema se chama “evasão” e se dá principalmente nas parcelas pobres da população, principalmente no ensino médio não profissionalizante. Os jovens abandonam a escola para buscar trabalho e ajudar no sustento da família ou simplesmente por não enxergar nas aulas algum sentido prático para a vida.

Mesmo antes de chegar ao ensino médio, 21% dos alunos desistem da travessia – ou porque já desistiram durante o próprio ensino fundamental ou porque decidiram terminar o 9º ano fundamental e tentar diretamente a busca de algum emprego. 

Segundo um estudo do Instituto Unibanco denominado “Aprendizagem em Foco”, sobre dados de pesquisa do IBGE, apenas 19% dos estudantes concluem o ensino médio na idade correta (até 17 anos) e a maioria das desistências se dá por necessidade ou opção pelo trabalho e gravidez precoce.

O mesmo estudo mostra que quanto maior a renda familiar, mais os adolescentes avançam nos estudos. Entre os que concluíram o ensino médio na idade considerada correta, a média de renda familiar per capita em 2014 era de R$ 885, contra R$ 436 médios por pessoa para os alunos que não completaram sequer o ensino fundamental.

“São jovens de baixa renda, em sua maioria negros, que trocam com frequência os estudos por um trabalho precário ou que ficam grávidas já na adolescência”, diz o texto do estudo. Muitos dos alunos fora da escola ouvidos pelas pesquisas do MEC e IBGE apontaram também como motivo pela desistência a falta de interesse pelo que é apresentado na escola.

Professor Roberto da Silva: ensino médio recebe problemas que nascem no fundamental
Professor Roberto da Silva: ensino médio recebe problemas que nascem no fundamental (Foto: divulgação)

Para o professor Roberto da Silva, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, o ensino médio padece de uma série de problemas que nascem no ensino fundamental e acabam desaguando numa evasão na última etapa da educação regular. “Houve mudanças na sociedade que não foram compreendidas. O próprio horário de início das aulas no fundamental ocorre muito cedo. Isso é inapropriado, derruba o rendimento dos alunos. Há uma certa obsessão pela pedagogização precoce da criança que vai contra a natureza do aprendizado. E quando chega no ensino médio, a família já está desencantada com o estudo como forma de ascensão social. Jovem sai para o mercado de trabalho, o que acaba gerando a evasão”, resume.

O ex-secretário de Educação do estado do Rio de Janeiro, Wilson Risolia, atualmente diretor para a área na Falconi Consultoria, acredita que o ensino médio brasileiro padece de um mal crônico: “Não consegue conectar educação e economia”. Para ele, a solução não é a criação de um sistema em que o ensino profissionalizante predomine. “O adolescente tem que ver sentido naquilo que está sendo ensinado na escola e para que isso ocorra é preciso que os governos compreendam o que o jovem deseja e precisa aprender”, diz.

Risolia conta que no período em que atuou como secretário da Educação do Rio promoveu uma pesquisa com os alunos para saber sobre os interesses deles. “Uma coisa que saltou foi que a maioria se interessava por aprender uma segunda língua, porque estávamos às vésperas da Copa e Olimpíadas e a escola pública não oferecia a elas a oportunidade de dialogar com os visitantes que estavam por chegar”, conta.

Wilson Risolia, ex-secretário de Educação do Rio: é preciso saber o que interessa ao estudante
Wilson Risolia, ex-secretário de Educação do Rio: é preciso saber o que interessa ao estudante (Foto: Falconi)

A partir daí, o projeto educacional do estado buscou atender demandas dos alunos, do próprio mercado de trabalho e somou a isso a ampliação da carga horária. “Deixei a secretaria em 2014 com 47 escolas com carga horária ampliada e força na segunda língua, muitas delas com ensino médio e profissionalizante ao mesmo tempo”. Risolia explica que uma das escolas, em Niterói, passou a oferecer mandarim. E na área profissional, foram criados cursos de panificação até de mídias digitais. O resultado foi um recuo abrupto na evasão.

“A formação não precisa ser técnica. Mas o conjunto de disciplinas tem que fazer sentido para o aluno, motivá-lo, para que ele acredite no próprio futuro”, avalia o ex-secretário.

O professor Roberto da Silva é igualmente crítico da tese de que o ensino profissionalizante é a saída para todos os problemas do ensino médio. “Não entendo os cursos técnicos como educação de massa, para todos. Serve para atender parte da população e nichos de mercado”, diz o especialista em Educação da USP, embora concorde que os alunos desses cursos acabam hoje melhor formados devido ao interesse gerado pelas disciplinas práticas. “Temos muitas escolas boas na área profissionalizante, como o Centro Paula Souza – Etecs – em São Paulo”.

Os dois especialistas concordam que as discussões promovidas pelo governo para a criação da denominada “base nacional comum” dentro do Plano Nacional de Educação (PNE) podem ajudar a melhorar a educação brasileira de maneira geral. Mas defendem que as boas intenções sejam praticadas. "Os recursos investidos na educação não chegam à sala de aula. Não se trata de abolir o que está no papel. Mas fazer com que as coisas funcionem”, diz Silva, para quem o país já tem um bom corpo docente, diferentemente do que muitos imaginam. “Os professores são muito dedicados, têm se aperfeiçoado e hoje são os maiores responsáveis pelo funcionamento de muitas escolas em regiões periféricas das grandes cidades”, conclui.