Educação

Os homens representam quase 80% dos alunos nos cursos de informática no país. Mas no PrograMaria eles não entram.

De São Paulo - A cineasta Carol Rodrigues, 32 anos, é chamada a apresentar seu trabalho de conclusão de curso para todas as colegas de classe. Levanta-se tímida, porém feliz, sabendo que o que fez foi grande: depois de apenas oito aulas em período integral, programou e colocou no ar um site. Ela é uma das 30 primeiras alunas formadas pelo PrograMaria, curso de introdução à programação dedicado exclusivamente ao público feminino.

O número de mulheres que querem entrar nesse mercado é grande, 970 se inscreveram para lutar pelas primeiras vagas, “derrubando a ideia pré-concebida de que mulheres não se interessam por programação”, provoca a jornalista Iana Chan, 27, uma das idealizadoras do projeto.

Carol Rodrigues, cineasta, da primeira turma do curso, apresenta seu trabalho de conclusão: após oito aulas, construiu e pôs no ar
Carol Rodrigues, cineasta, da primeira turma do curso, apresenta seu trabalho de conclusão: após oito aulas, construiu e pôs no ar (Foto: Alex Costa)

Como a oferta foi muito superior à demanda, Iana e as outras organizadoras do curso fizeram uma seleção que, além de analisar o curriculum da candidata, também avaliavam a relação delas com a tecnologia. "Mulheres com pouco ou nenhum conhecimento na área foram priorizadas", revela a designer e programadora Luciana Heuko, 27, outra fundadora do PrograMaria. 

Segundo o IBGE, apenas 22% dos alunos de ciências da computação no Brasil são mulheres, apesar de o público feminino ser a maioria no ensino superior. Em pesquisa internacional (veja gráfico), alunos masculinos representaram mais de 90%. Segundo Iana há um forte fator cultural que as afastam da área.

 

Gráfico mostrando a distribuição de programadores de computadores por gênero 2015

 

“Desde cedo é propagada uma falsa ideia de que não somos boas em matemática, que exatas não é a área onde as mulheres se dão muito bem”, afirma. A designer Luciana Heuko afirma que atmosfera no mundo da tecnologia é hostil. “É um ambiente predominantemente masculino e preconceituoso”, conta, lembrando ainda que em uma das empresas onde trabalhou sequer havia banheiro exclusivo para as mulheres.

O ambiente tóxico é comprovado em números. Segundo a Harvard Business Review, 41% das mulheres que trabalham com tecnologia acabam deixando a área, em comparação com apenas 17% dos homens. A formanda Carol, que colocou no ar um site que reuniu o trabalho de mulheres negras no mercado audiovisual, conta que tinha desistido da área antes mesmo de começar para valer.

A arquitera Rafaella Basille: decidiu aprender programação para atender as necessidades de sua própria ONG
A arquitera Rafaella Basille: decidiu aprender programação para atender as necessidades de sua própria ONG (Foto: Alex Costa)

“No tempo da internet discada eu tentava aprender os caminhos da programação sozinha, lendo apostilas e frequentando fóruns de discussão. Lá as mulheres são massacradas. Era chamada de estúpida, sempre me desmoralizavam", lembra, revelando ainda que chegou a trocar seu avatar por um masculino, para poder participar das discussões e tirar dúvidas sem ser incomodada por ser mulher.

Comprar peças de computador na rua Santa Ifigênia, em São Paulo, famosa pelas lojas de informática, também sempre foi uma tortura. "Eu escalava um amigo para ir junto, porque os caras tentavam me enganar", lembra. Desistiu da programação por quase quinze anos, até descobrir o PrograMaria, um curso onde mulheres ensinam mulheres. “Foi maravilhoso. Eu me senti segura para ter dúvidas e dar os primeiros passos, sabendo que aqui não precisava provar nada pra ninguém”, comemora. 

O PrograMaria saiu do papel quando ganhou o projeto "Prêmio Mulheres Tech em Sampa", oferecido pela Google For Entrepreneurs e pela Prefeitura de São Paulo. Com o dinheiro recebido e as parcerias fechadas com a Intel, Caelum e Fiap, que cedeu as salas de aula, a primeira turma foi possível e o segundo grupo já está garantido - as inscrições abrem no final de agosto e as aulas começam em outubro.

O valor cobrado pelo curso é simbólico, cerca de R$160,00, e há dez bolsas de estudos distribuídas às alunas de baixa renda. São oito sábados aprendendo, em tempo integral, HTML, CSS, Lógica de Programação e Java Script com professoras voluntárias.

A jornalista Iana Chan, uma das criadoras do PrograMaria: quase mil interessadas para 30 vagas
A jornalista Iana Chan, uma das criadoras do PrograMaria: quase mil interessadas para 30 vagas (Foto: Alex Costa)

A falta de mulheres no mercado tem outro viés: os homens formados na área não têm sido suficientes para ocupar todas as vagas disponíveis no mercado. De acordo com o Code.org, uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é divulgar e ensinar programação a pessoas de todas as idades, os empregos na área de computação irão mais do que dobrar até 2020, chegando a 1, 4 milhão de vagas e só um terço delas deve ser preenchida porque falta mão de obra qualificada.

A designer de produto Fernanda Vaz, 23 anos, matriculou-se no PrograMaria pensando em ampliar suas oportunidades profissionais. As questões feministas, presentes em todo o curso, fizeram um bem danado a ela, confessa. “Vi que programação não é um bicho de sete cabeças e me enchi de coragem para me colocar nesse mundo tão masculino”, afirma.

Fernanda conta também que na startup de tecnologia onde trabalha há apenas três mulheres e quinze homens. Já a arquiteta e urbanista Rafaella Basile, 26, procurou o PrograMaria porque a ONG que dirige, a Cidade Ativa, precisa de serviços de programação e não tem como pagar um profissional para fazer o serviço.

Ela já planeja avançar mais nos estudos, fazendo um curso de desenvolvedor de back-end, e assim criar sites ainda mais dinâmicos para a ONG. Ela confessa, contudo, que participar do curso também a amadureceu. “Eu nunca tinha tido essa experiência de aprender só com mulheres, todas tão diferentes. Pela primeira vez na vida estudo em uma sala que a maioria das meninas é negra. Aqui há meninas que já são mães, outras que ainda estão no colégio. Estou levando vários aprendizados de códigos, mas o que mais vou levar do curso vai ser o que aprendi no convívio com essas meninas”, conta, emocionada.

Informações sobre o PrograMaria no site www.programaria.org.br