NESTA ESCOLA, A CRIANÇA APRENDE NEGÓCIOS

Educação

O Grupo JBS criou a Germinare, onde mais de 500 alunos recebem educação em período integral voltada para o mercado de trabalho. Como Alexander, de 11 anos.

De São Paulo - Ao chegar à escola Germinare, um mergulho no tempo. Pelo pátio, salas de aula e refeitório, meninos e meninas elegantes com seus blaiseres, que algumas garotas combinam elegantemente com saias plissadas. Mas essa a única conexão possível de se fazer dessa escola jovem, que funciona há apenas seis anos, com uma instituição de ensino do passado. Por aqui não há o tradicional “sinal”, para indicar o início e o final das aulas, as lousas são todas digitais (o conteúdo trabalhado em sala de aula fica arquivado na “nuvem”, para acesso dos alunos) e é comum encontrar meninos e meninas alegres, em seus laptops pelos corredores, brincando e rindo enquanto tiram dúvidas com os professores de finanças. Finanças? Sim. A Germinare é uma escola de negócios e as crianças que são admitidas na instituição a partir do 6º ano do ensino fundamental aprendem, além das matérias do curriculum tradicional, mais de trinta disciplinas específicas ligadas ao mundo corporativo, como gestão, fundamentos da administração, lógica, estatística, contabilidade e direito.

A escola "nasceu" em 2010 de uma vontade da família Batista, do grupo J&F Investimentos, dona de empresas como a JBS, Vigor e Alpagartas. “Eles não queriam contribuir apenas financeiramente, mas sim ter uma participação mais efetiva na educação dos jovens brasileiros, em uma área que têm expertise, a administração”, conta o professor Francisco Antônio Serralvo, diretor-executivo da Germinare, que também dirige a Faculdade de Economia e Administração da PUC-SP.

Germinare tem equipamentos de ponta para preparar crianças para o trabalho
Germinare tem equipamentos de ponta para preparar crianças para o trabalho (Foto: Alex Costa)

A Germinare foi construída no terreno onde fica parte das empresas do grupo, no Parque Anhanguera, zona oeste de São Paulo. Apenas um muro separa a ampla estrutura da escola - salas de aula, refeitórios, quadras e piscina - dos prédios modernos da Friboi.

O grupo investe, por ano, R$ 15 milhões de reais na escola, aproximadamente R$ 29 mil por aluno. Algumas empresas como a Microsoft e a Volkswagen, por exemplo, fazem parcerias pontuais com a Germinare, que não cobra nenhum real dos seus 520 alunos. Eles estudam em período integral e assistem a 10 aulas por dia.

As turmas da Germinare começam no 6º ano do ensino fundamental e só as crianças dessa série são admitidas. O processo de seleção também não é tradicional, assim como a escola. Os candidatos fazem uma prova de português e matemática que, segundo Serralvo, é uma avaliação simples, de raciocínio lógico.

Meninos e meninas, que passam na primeira parte da seleção, são avaliados em uma espécie de dinâmica de grupo. “Fazemos algumas atividades voltadas para área de negócios para ver quais crianças mais se encaixam na vocação da escola”, explica Serralvo.

Serralvo, diretor da Germinare: investimento de R$ 15 milhões/ano para preparar alunos para trabalhar
Serralvo, diretor da Germinare: investimento de R$ 15 milhões/ano para preparar alunos para trabalhar (Foto: Alex Costa)

Alexander da Silva Barbosa, 11 anos, entrou em 2016 na Germinare, depois de anos estudando na Escola Municipal Silvio Portugal em Pirituba, zona noroeste de São Paulo. Tímido, porém articulado, conta que sonha ser “presidente de uma empresa” e que não foi difícil começar aprender disciplinas tão diferentes das que são ensinadas nas escolas tradicionais.

Para ele, as aulas de finanças pessoais são as mais fáceis. “A gente aprende a montar planilhas colocando o valor do salário, os gastos fixos, os gastos que não precisamos ter, o quanto temos que separar para uma emergência, para poupar e para aposentadoria”, conta, do alto da sua primeira e única década de vida.

Ele confessa que até já deu dicas para o pai, que vez ou outra “estoura” o cartão de crédito. “Ele tem que começar a anotar o valor das coisas que compra. Às vezes uma coisa não é tão cara, mas quando soma tudo e fica caro”, explica.

Mas crianças e adolescentes têm maturidade para aprender um conteúdo tão específico? - pergunto.  A professora de Planejamento Empresarial e Gestão Estratégica, Ana Valéria Barbosa da Silva, diz que esse é um questionamento comum, mas a maioria dos seus alunos dá conta do recado e aprende, por exemplo, a fazer planos de negócios ainda no 9º ano do ensino fundamental.

“Mas é um desafio, porque é tudo completamente novo para eles”, afirma. Letícia Macedo, 17 anos, que cursa o 3º ano do ensino médio da Germinare, conta as aulas de gestão não a assustaram.  “O aprendizado é fácil porque os ‘cases’ que os professores trazem à sala de aula são muito práticos”, conta.

Mas a pressão é grande, como no mercado de negócios. Além dos trabalhos e das provas, esses alunos também são avaliados da mesma forma que os funcionários do grupo JBS e recebem feedbacks constantes. “Assim ficam sabendo quais pontos precisam desenvolver e onde não atenderam às expectativas”, conta. 

Durante os sete anos que passam na Germinare, os alunos leem cerca de 28 livros em português e em inglês, a maioria deles de negócios como “Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes”, “Mentes que lideram”, “Descobrindo o valor das coisas”, “Steve Jobs”, “Os axiomas e Zurique”, entre outros.

Ao visitar a biblioteca da escola, é possível ver pacotes e mais pacotes de livros - todos são distribuídos gratuitamente. Entre eles também há clássicos da literatura mundial, como “The adventures of Tom Sawyer”, de Mark Twain e “Tales of Mystery and Imagination” de Edgar Allan Poe.

Como os alunos assistem a aulas de inglês diariamente, leem vários títulos na língua original. “Quando se formam, nossos alunos já estão fluentes em um segundo idioma”, afirma, orgulhosa, a diretora da Germinare, que antes de assumir a instituição trabalhou por 17 anos no tradicional colégio Pueri Domus, em São Paulo.

Quem repete de ano está fora. Segundo Serralvo, a taxa média de reprovação por ano é de 3%. “Quando isso acontece é uma choradeira, principalmente dos pais dos alunos”, conta a diretora Maria Odete Perroni Lopes. “Mas eu explico para eles que o filho não tem de estudar aqui só porque a escola é gratuita. Nosso objetivo é muito específico e não são todos os alunos que se encaixam”, explica. 

Embora a Germinare não tenha como meta preparar seus alunos para o vestibular e sim para o mercado de trabalho, a taxa de aprovação dos primeiros formandos da escola da JBS nos vestibulares das principais faculdades do país foi alta. Dos primeiros 72 meninos e meninas que se formaram ano passado, 59 passaram no vestibular de faculdades importantes como da USP, PUC, Unicamp, e universidades federais, como a de Santa Catarina, São Carlos e de São Paulo, a Unifesp.

“Praticamente só os alunos que querem fazer a faculdade de medicina não entraram ‘direto’ na faculdade", afirma Maria Odete. Mas essa não foi a única conquista da primeira turma, formada ano passado: 30 já conquistaram seu primeiro emprego dentro do próprio grupo JBS.

“Eles passaram pelo mesmo processo seletivo que os candidatos vindos de fora”, garante Serralvo.  Enzo Toledo, 17, é um desses ex-alunos que agora são universitários e funcionários da empresa. Está no primeiro ano do curso de relações internacionais da PUC-SP e trabalha desde abril no departamento de Relações com Investidores. Com o dinheiro que ganha como estagiário, paga parte da mensalidade da faculdade. E sonha em ser efetivado. “Já me sinto parte do time”, brinca.