EDUCAR É A PRIORIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS

Educação

Bradesco é o grupo privado que mais investe no país, com quase R$ 600 milhões neste ano. Oito em cada dez iniciativas privadas de sustentabilidade vão para a educação.

De São Paulo - O volume de ONGs (organizações não governamentais) e fundações que apoiam a educação no Brasil cresceu tanto nas duas últimas décadas que já há algum tempo elas precisam se entender para não sobrepor projetos que acabem se chocando. Não há uma contabilidade específica sobre o segmento de educação, mas segundo pesquisa recente do IBGE, o total de investimentos de ONGs, fundações e instituições privadas sem fins lucrativos no país chega a R$ 32 bilhões/ano em todas as áreas.

Um levantamento feito pelo Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas que apoiam investimentos sociais), organismo criado há 21 anos para ajudar a integrar as ações entre as ONGs, 85% das empresas associadas a ela destinam investimentos à área de educação. Hoje a Gife congrega 130 associados, que representam um investimento anual de R$ 3 bilhões, em torno de 10% do total mobilizado no país por instituições sem fins lucrativos.

É possível dizer, a partir desses parâmetros, que hoje praticamente todas grandes empresas privadas investem em sustentabilidade e a maioria absoluta em educação. Um dos exemplos disso são os três principais bancos privados no país – Itaú, Bradesco e Santanter –, que têm projetos importantes destinados à educação.

O Itaú, o maior banco privado brasileiro, investe na educação pública em três frentes. A Fundação Itaú Social se dedica principalmente à educação fundamental (1ª à 4ª séries), o Instituto Unibanco se volta ao ensino médio e a Fundação Social Itaú BBA (área do banco que cuida de seus principais clientes) apoia projetos de educação pública das secretarias de educação dos estados.

Denise Aguiar,,diretora da Fundação Bradesco: escolas próprias em período integral em todos os estados do país
Denise Aguiar,,diretora da Fundação Bradesco: escolas próprias em período integral em todos os estados do país (Foto: divulgação)

A Fundação Bradesco, criada há exatos 60 anos, passou a oferecer escola de educação básica para cerca de 300 crianças de famílias carentes na Cidade de Deus, sede do banco, em Osasco, no início dos anos 60. “A origem da Fundação foi motivada pela crença visionária de meu avô, Amador Aguiar, que sempre considerou a educação como um dos meios mais efetivos porá promover a igualdade e a justiça social”, diz a diretora da área educacional da Fundação, Denise Aguiar, neta do fundador do banco, Amador Aguiar.

Hoje, a Fundação Bradesco tem 40 escolas, distribuídas por todos os estados e no Distrito Federal e é considerada o principal projeto de educação de empresa privada no Brasil. Metade das unidades oferece também educação profissional de nível médio em agropecuária, eletrônica, informática, administração e logística.

No total, no ano passado, a Fundação Bradesco beneficiou 102 mil alunos presenciais, da educação infantil até os cursos técnicos oferecidos para jovens e adultos. Foram atendidos ainda 590 mil alunos de educação à distância (EAD), que concluíram ao menos um dos cursos oferecidos em seu portal Escola Virtual. Além de outros 22.990 beneficiados em projetos e ações em parceria, como os CIDs (Centros de Inclusão Digital), o Educa+Ação e em cursos de Tecnologia.

Para manter a rede de escolas e o sistema de cursos à distância com a qualidade desejada o Bradesco projeta investimentos de R$ 593,3 milhões neste ano, considerado o maior investimento entre todas as empresas privadas no país, recursos provenientes do patrimônio da Fundação.

“Nosso objetivo de estar em todos os estados do país foi alcançado em 2003, com a implantação da unidade de Boa Vista em Roraima. Atualmente, nosso esforço está em oferecer cada vez mais ensino de excelência a crianças, jovens e adultos. Neste momento nos dedicamos à consolidação de novas matrizes curriculares e o aumento da permanência dos alunos nas escolas, reafirmando nossa crença de que mais estudo resulta em mais aprendizagem”, completa Denise Aguiar.

O Santander tem a plataforma de cursos e relacionamento pela internet para a comunidade universitária, o Universia. O site produzido para o público brasileiro desde 2002 segue os princípios que nortearam o portal pioneiro, na Espanha, de promover e facilitar aos estudantes a busca por oportunidades de estudos e bolsas em universidades locais e no exterior.

Além disso, oferece cursos de línguas e, mais recentemente, cursinho preparatório para alunos do ensino médio que vão prestar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que qualifica o estudante a obter vagas em boa parte das escolas do ensino superior. (Veja entrevista completa do diretor do Universia no Brasil).

Estudantes de nível fundamental apoiados pela Natura: investimento no ensino público
Estudantes de nível fundamental apoiados pela Natura: investimento no ensino público (Foto: divulgação)

Outra grande empresa dedicada à melhoria do ensino público é a Natura, de produtos de higiene e cosméticos. Há seis anos foi criado o Instituto Natura, voltado ao apoio da melhoria do ensino público. “O trabalho educacional da Natura vem de bem antes, desde que foi criada a linha de produtos “Crer para Ver”, cujo lucro era todo revertido em investimentos a projetos educacionais sérios, como os da Abrinq”, diz David Saad, presidente do instituto.

Um dos projetos aos quais o Instituto Natura dá ênfase é o de aperfeiçoamento dos professores alfabetizadores, que atendem os primeiros anos do ensino fundamental, aos quais são oferecidos cursos digitais a partir de uma grande plataforma. Também via internet é oferecido uma escola digital aberta a quem se interessar.

Outra ação são as parcerias com secretariais estaduais de educação. Nela, o Instituto Natura participa com investimentos em equipes técnicas que colaboram para os projetos de expansão da carga horária dos alunos na escola, como em Pernambuco (estado em que mais de 50% das escolas já são em tempo integral), São Paulo, Maranhão, Paraíba e Espírito Santo, entre outros.

No total, os projetos educacionais ligados à Natura terão investimentos de R$ 23,5 milhões neste ano – desde a fundação do Instituto, foram investidos mais de R$ 100 milhões. “Buscamos nos associar a outras fundações, para que nossa atuação seja o mais produtiva possível, sem sobreposições”, completa Saad.

“Nosso papel é o que agregar essas várias iniciativas, ajudar na troca de experiências entre elas, na qualificação dos agentes e na produção de conhecimento para o aprimoramento ações da iniciativa privada no setor”, explica Iara Rolnik, gerente de conhecimento do Gife.

Para a presidente e fundadora do instituto Todos Pela Educação, Priscila Cruz, essa concentração dos investimentos sociais privados em educação não a surpreende e é positiva para o país. “A educação é fundamental, não tem nada mais importante para um país que quer ser mais justo, que quer crescer economicamente. Mas é difícil, é como plantar árvore, tem que se dedicar muito, demora, mas vale a pena”, conclui Priscila Cruz. (Veja entrevista completa da presidente da Todos Pela Educação)