Finanças

A XP Investimentos vive o pós-aquisição mantendo o discurso de independência, afirmando que no curto-prazo nada muda e que as insatisfações são pontuais e passageiras.  

 Quando o Banco Itaú e a XP Investimentos anunciaram em 15 de maio de 2017, que o banco havia comprado por R$ 6,3 bilhões uma parte minoritária de 49,9% da empresa de investimentos que pregava a “desbancarização”, muitos clientes, se sentido traídos, foram às redes sociais demonstrar seu descontentamento com o negócio.

 Desde então, a XP está contornando esta primeira onda de notícias negativas e vem mantendo o discurso de independência. Em nota, Guilherme Benchimol, CEO da XP, garantiu que não haveria mudanças, pois, o controle ainda continua em suas mãos. De fato, Benchimol não está preocupado com a entrada do novo sócio. Depois da comemoração entusiasmada, com banho de Champagne gravado em vídeo, ele mantém a rotina da operação sem nenhuma alteração significativa na agenda dos principais executivos. Outro sinal de regularidade é que as campanhas de publicidade continuam a todo vapor com foco na personalização dos serviços, deixando um pouco de lado o mote de “desbancarização”.

Imagem de Benchimol capturada do vídeo da comemoração após a aquisição pelo Itaú       

Desde o anúncio do negócio, um mês se passou e ainda não está totalmente claro como vai ser a transição. Mesmo com o discurso de manutenção das atividades sem alterações, a situação ficou desconfortável especialmente para os ex-clientes do Itaú que saíram do banco e foram para a XP, levados pela expectativa de ter um tratamento mais personificado e taxas menores. Eles acreditaram na mensagem da XP “invista de uma forma diferente”, ou no poder da “desbancarização”, conceito que defende a exclusão do banco comercial na relação entre às corretoras independentes e os clientes. A consequência deste approach direto é a redução dos custos dos serviços financeiros e bancários, que, no limite, tira parte dos lucros da carteira dos clientes.

O mal-estar inevitável também se estendeu para as corretoras parceiras, agentes autônomos e colaboradores, que investiram pesado para se adaptarem às demandas do modelo de negócios proposto pela plataforma aberta da XP. Neste modelo, as corretoras podem oferecer aos seus clientes uma gama de produtos financeiros provenientes de várias instituições do mercado, inclusive do Itaú e seus principais concorrentes. Não há cobrança de taxa de administração. O controle de oferta feito pela plataforma cobra uma porcentagem por transação, que é dividida entre a XP, as corretoras e os agentes autônomos.

O que preocupa clientes e corretoras não é necessariamente o curto-prazo, mas o que pode acontecer em alguns anos. Em comunicado divulgado logo após a transação, o banco Itaú informou: “a partir de 2024, a XP Controle poderá exercer uma opção de venda da totalidade de sua participação no capital social da XP ao Itaú Unibanco. Já a partir de 2033, o banco tem a opção de compra da totalidade da participação. Somente mediante o exercício de qualquer dessas opções ocorrerá a aquisição de controle e da totalidade do capital social da XP pelo Itaú Unibanco”. Está claro que no curto-prazo, provavelmente, não haverá mudanças significativas. Um indicativo disto é que Benchimol garantiu em contrato os 51% das ações com direito a voto e forma o bloco de controle com os outros sócios pessoas físicas.

Cenários possíveis pós-aquisição 

Em campanha para aliviar o impacto negativo inicial, a XP afirmou em nota: “Continuamos independentes, oferecendo assessoria personalizada, plataforma aberta e taxa zero”. A empresa também vem rebatendo ativamente às críticas recebidas nas redes sociais, publicando respostas nos comentários dos seguidores de sua página do Facebook: “Continuamos com a mesma visão de que os clientes podem investir melhor com uma instituição especializada. Mantemos nosso posicionamento baseado na assessoria personalizada, taxa zero e a diversidade de produtos de diferentes instituições. Importante lembrar que a gestão e o controle da companhia permanecem com os atuais sócios e executivos da XP.”. Fica claro que os clientes desconfiados temem que haja o aumento das taxas e a perda de qualidade dos serviços, que são os diferenciais da XP e seus agentes autônomos.

Alguns analistas de mercados afirmam que, apesar do Banco Itaú costumar cumprir os seus acordos de aquisição, existe o risco do bloco de controle da XP ceder à pressão que pode ser imposta pelos concorrentes, que já adotaram o discurso da “real desbancarização” em contraposição a aquisição da XP. Obviamente, eles estão mirando nos clientes que não ficaram contentes com a presença do Itaú na sociedade. Outra probabilidade de desmonte da XP, é o próprio Itaú se sentir compelido a apressar as próximas etapas, motivado pela continuidade de crescimento da XP em detrimento da sua própria carteira de clientes. Esta situação obrigaria o banco a tirá-la do mercado.

A situação atual da XP remete ao que aconteceu com a Corretora Ágora, que foi comprada pelo Bradesco em março de 2008 por R$ 800 milhões e desapareceu do mercado. A Ágora era a maior corretora do país em transações de compra e venda de ações por pessoas físicas pela internet (sistema home broker), com cerca de 29 mil clientes ativos. A intenção do Bradesco era assumir a liderança em um segmento que à época vinha apresentando elevadas taxas de crescimento e grande concorrência. No comunicado de aquisição, o banco afirmou que a Ágora seria uma unidade de negócios do BBI, com gestão e funcionamento independentes, com a manutenção das estruturas operacionais e de atendimento. A Ágora sumiu do mercado e o BBI não assumiu a liderança pretendida.

Por outro lado, também há os que apostam nos benefícios da manutenção de independência, mesmo após a aquisição completa da sociedade em 2033. Neste canário, especialistas afirmam que se o Itaú for inteligente em suas escolhas, poderá ter o melhor dos dois mundos: continua a ser o maior banco do pais, com forte presença e atuação como banco comercial e adicionalmente oferecer uma plataforma aberta com serviços personalizados e custos reduzidos. Para isto acontecer, basta o Itaú manter a XP exatamente como ela é, não podar a sua independência e aumentar os investimentos no seu desenvolvimento.