VINHO NACIONAL DRIBLA CRISE E EXPORTA MAIS

Indústria

Setor vitivinícola sofre menos do que outros com os problemas da economia. A produção cresceu 15% no ano passado e as exportações deram sinal positivo no primeiro semestre.

De São Paulo - A produção e comercialização de vinhos brasileiros não galopa como em outros tempos. Mas também já não registra queda. “É claro que gostaríamos de estar comemorando uma evolução mais significativa de mercado. Mas se levarmos em consideração o cenário de crise econômica, mesmo não crescendo muito rapidamente, estamos bem”, avalia Dirceu Scottá, presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin).

Embora tenha havido queda de 14,2% na produção dos vinhos finos (varietais, considerados de melhor qualidade), praticamente todos os outros produtos, incluindo vinhos de mesa e suco de uva, por exemplo, registraram crescimento em 2015. Considerando os vinhos em todas suas variedades e outros derivados da produção vitivinícola, houve um crescimento de 15% no volume de litros produzidos pela indústria brasileira no ano passado -- de 505,3 milhões de litros para 583 milhões de litros. E levando-se em conta os resultados do primeiro semestre deste ano, a expectativa é de manutenção de pequeno crescimento em 2016.

Outros fatores como uma quebra de 60% na safra da uva e o aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), no ano passado, poderiam ter causado um impacto muito maior no desempenho do setor. A venda de vinhos finos e espumantes, no entanto, cresceu 1,70% no país durante o primeiro semestre de 2016, em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados do Ibravin.

E, apesar de 90% da produção nacional de vinhos finos e espumantes ainda estar concentrada no Rio Grande do Sul, novas vinícolas vêm surgindo no Sul e nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Entre essas novas regiões produtoras, a que está em atividade há mais tempo e ganha cada vez mais destaque, principalmente pela produção de espumantes, é o Vale do São Francisco.

Dirceu Scottá, presidente do Ibravin: resultado dos últimos anos comemorado pelo setor, apesar da crise na economia
Dirceu Scottá, presidente do Ibravin: resultado dos últimos anos comemorado pelo setor, apesar da crise na economia (Foto: divulgação Ibravin)

Tanto o Ibravin como as tradicionais vinícolas do Rio Grande do Sul, como a Salton e a Miolo, veem com bons olhos essa expansão. Isso porque, em cada região são produzidos vinhos de características diferentes – devido aos climas, altitudes e características de terra diversos --, o que enriquece a oferta, tanto para o consumidor brasileiro como o estrangeiro. E isso fortalece a indústria nacional. “Não podemos pensar pequeno, quanto maior o número de regiões produtoras, mais estará se difundindo a cultura do consumo de vinhos finos e espumantes e mais representativo será o setor”, diz Scottá.

As vinícolas tradicionais também estão expandindo sua atuação no Rio Grande do Sul e marcando presença fora do Estado. No Vale do São Francisco, a Miolo tem a vinícola Ouro Verde, que já é responsável por 90% da produção de espumantes da empresa.

“Desde 1999, a Salton mantém projetos na fronteira com o Uruguai, com parceiros em Livramento e Bagé. Os resultados, acompanhados pelos agrônomos e a equipe de enologia da vinícola, sempre foram bons e de qualidade crescente”, conta Daniel Salton, presidente da vinícola. 

A produção mais pulverizada é uma grande aliada para o aumento do consumo interno, que ainda é muito baixo se comparado ao de outros países: são 2 litros per capita ao ano – na Argentina, por exemplo, é de 20 litros. E se trata de uma questão cultural, já que o consumo per capita de cerveja ao ano é de 50 litros.

Adriano Miolo, de uma das principais vinícolas do sul do país: 90% dos espumantes produzidos no Nordeste
Adriano Miolo, de uma das principais vinícolas do sul do país: 90% dos espumantes produzidos no Nordeste (Foto: Miolo - divulgalção)

“O orgulho de prestigiar a produção local leva as pessoas a consumirem mais vinho. Percebemos claramente isso no nosso projeto no Vale do São Francisco. Os moradores da região valorizam muito o vinho de lá. Assim como aqui [no Rio Grande do Sul]”, comenta Adriano Miolo, presidente da Vinícola Miolo.

Além de ainda não haver uma cultura forte do consumo de vinhos finos e espumantes no país, a produção nacional ainda enfrenta o peso da carga tributária – que chega a 60% do preço final do produto – para concorrer com os importados. Mesmo com a alta do dólar, a importação de vinhos e espumantes registrou alta de 3,61% no primeiro semestre de 2016, em relação ao mesmo período do ano passado.

No mercado internacional, o desempenho da indústria vinícola brasileira não é ruim, mas ainda há bastante espaço para crescer. O volume de exportação deu um salto de 74% em 2014, chegando a 2,6 milhões de litros, influenciado pelo aumento do interesse estrangeiro no Brasil em decorrência da Copa do Mundo. Em 2015, as vendas ao exterior caíram 8,3%. Mas no primeiro semestre deste ano, voltaram a subir 34,2% em relação a igual período do ano anterior.

“Apesar de os espumantes brasileiros já serem reconhecidos por sua qualidade, a referência que se tem do Brasil ainda é o samba, o futebol, as mulatas e a Amazônia. Vai demorar alguns anos ainda para sermos reconhecidos como produtores de vinhos. Mas gradualmente o produto ganha visibilidade lá fora, mostrando que temos um produto de boa qualidade e custo”, comenta Scottá.

Daniel Salton: investimentos na produção de vinhos na fronteira com o Uruguai
Daniel Salton: investimentos na produção de vinhos na fronteira com o Uruguai (Foto: Salton - divulgação)

Porém, para que a produção de vinhos ganhe mais força no Brasil, o consumo interno e as exportações cresçam, há alguns obstáculos a superar. “Em outros países produtores, o vinho é considerado um complemento alimentar. E essa diferença na classificação compromete a competitividade, pois os vinhos desses países são produzidos e comercializados com uma carga tributária muito inferior à nossa. Essa mudança de perspectiva ajudaria a equalizar o mercado de vinhos”, avalia Salton.

Ele lembra ainda que a instabilidade econômica e cambial brasileira é responsável pelos altos custos de produção. “Boa parte dos insumos do setor é importada, como rolhas e cápsulas para o envase, sofrendo reajustes de acordo com a valorização das moedas estrangeiras. Seguindo essa lógica, os insumos de origem nacional são precificados de acordo com preços internacionais, refletindo também no custo de produção”, conclui o produtor.