Indústria

A edição 2016 da feira automotiva de São Paulo, que está entre as quatro maiores do mundo, sai pela primeira vez do Anhembi. E promete ser o marco para a recuperação do setor em meio a sua pior crise.

De São Paulo - O Salão do Automóvel de São Paulo, o maior da América Latina, abre suas portas, nesta semana (de 10 a 20 de novembro), esperando injetar ânimo no mercado brasileiro, que enfrenta um dos maiores revertérios de sua história. Chega com as armas comerciais de sempre -- modelos compactos e utilitários esportivos (SUV) com mudanças superficiais --, mas também com alguns importantes anúncios de fabricação local e de lançamentos regionais, além da convicção de que o fundo do poço está chegando ao fim para as montadoras.

Um ingrediente fundamental contribui para o espírito de retomada: pela primeira vez, em 46 anos de existência, o evento deixa o Parque Anhembi para se instalar no São Paulo Expo, na Rodovia dos Imigrantes, na porta do ABC, principal polo industrial do setor. As vantagens logísticas, como o fácil acesso ao Aeroporto de Congonhas, e a qualidade das instalações, que têm um bom sistema de ar condicionado e, na área externa, mais espaço para testes de direção, foram decisivas para a escolha do novo espaço e devem estimular o salão.

“Será o melhor Salão do Automóvel da história” aposta o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Antonio Megale. “Será realizado num local totalmente renovado e moderno e o público terá a oportunidade de conhecer de perto os veículos da geração Inovar-Auto, resultado de grande investimento que as montadoras realizaram para aumentar a eficiência energética.”

Chery Tiggo 2: lançamento do SUV reestilizado da marca chinesa no Brasil
Chery Tiggo 2: lançamento do SUV reestilizado da marca chinesa no Brasil (Foto: divulgação Chery)

Seis marcas importantes já confirmaram testes de direção durante a semana do evento - Chevrolet, Jaguar, Land Rover, Peugeot, Volkswagen e Nissan. “Devemos sempre levar em conta a importância deste salão paulista para a indústria, já que ele está entre os quatro maiores do mundo”, diz Milad Kalume, gerente de desenvolvimento de negócios da consultoria Jato. “Embora sem o lançamento de produtos globais, como no passado, o número de produtos novos vai ser expressivo e mostrará que o setor tem grande vitalidade”, completa.

A participação das montadoras é generalizada e as únicas baixas são a chinesa JAC, que passa por uma reestruturação profunda e revisou todas suas verbas de marketing, e a sueca Volvo, por conta de sua estratégia internacional de abandonar grandes exposições e investir em eventos próprios, em especial na Ocean Volvo Race. 

Todas as outras marcas estarão ali com um discurso otimista, entregando novos modelos de mercado e oferecendo aos olhos produtos inovadores, de desejo estético ou tecnológico, que são vendidos em outras partes do mundo, eventualmente comercializados aqui por preços para poucos, ou estão em fase de projeto.

GT-R da Nissan: superesportivo à venda no país por quase R$ 1 milhão
GT-R da Nissan: superesportivo à venda no país por quase R$ 1 milhão (Foto: divulgação Nissan)

O exemplo mais notável de marcas que buscam ampliar seu espaço no mercado superpremium e exibirão seus bólidos no salão de uma forma realista vem da Nissan, que mostrará seu GT-R, que começou a ser vendido no Brasil por preços que beiram um milhão de reais. Haverá também o Espaço dos Sonhos, onde modelos Ferrari, Lamborguini e Maserati, por exemplo, ficarão expostos.

Das marcas populares, a que vem mais animada é a Volkswagen, que anuncia cinco surpresas de um total de 12 atrações. Uma delas é a apresentação do Up! Track, mudança impulsionada pelo recente sucesso do concorrente Mobi, da Fiat. De um modo geral, as montadoras continuam apostando forte nos SUVs compactos, que tendem a engolir parte do mercado dos sedãs e hatchs no próximo ciclo de crescimento.

Up! Track, novidade da VW: compacto ganha versão com retoques esportivos
Up! Track, novidade da VW: compacto ganha versão com retoques esportivos (Foto: gentileza VW)

A GM vem com o novo Tracker, a Honda com o WR-V, baseado no Fit, a Jeep, do grupo Fiat, com o cobiçado Renegade, a Audi com o Q2, a BMW com o X2 Concept e a Hyundai com o Creta, que será fabricado em Piracicaba (SP) e compartilhará plataforma com o HB20, único caso de sucesso popular no mercado brasileiro atual. A chinesa Chery apresenta seu Tiggo 2, que será fabricado no Brasil, em Jacareí (SP).

Das marcas de grande escala vendidas no país, neste ano, a Hyundai é a única que cresce – 0,6%, puxada pelo HB20. Além dela, só mostram taxas positivas no mercado brasileiro a Jeep, do grupo Fiat, que avançou 76,8%, a Jaguar, 65,8% e a Lexus, da Toyota, 6,4%. No segmento de comerciais leves, a Toyota e a Renault também estão ganhando mercado.

O impacto de queda nas vendas tende a ser menor nos veículos de maior valor do que nos populares. O emplacamento de produtos de luxo, como os da BMW, Porsche, Land Rover, Mini e Volvo está crescendo, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa). O maior destaque é a Land Rover, que avançou 19%.

Chevrolet Tracker: SUV médio reestilizado, com a cara de seu similar nos EUA
Chevrolet Tracker: SUV médio reestilizado, com a cara de seu similar nos EUA (Foto: divulgação)

As vendas internas, segundo a Anfavea, caem, em 2016, aos níveis de dez anos atrás, quando 1,927 milhão de carros foram comercializados. Podem cair abaixo da metade do melhor momento do mercado, em 2012, quando foram licenciados mais de 3,8 milhões de automóveis e comerciais leves no país.

Até outubro, as vendas totalizaram 1,66 milhão de unidades, 22% menos do que no ano passado. E continuam apresentando pequenos altos e baixos mês a mês (houve um suave crescimento de 1,4% em relação a setembro) e a sensação, até por conta do contexto político e das definições de poder no país, é de que o abismo das vendas chegou, ou está próximo de chegar, no nível máximo.

Creta, da Hyundai: novo SUV médio da marca coreada para competir no país
Creta, da Hyundai: novo SUV médio da marca coreada para competir no país (Foto: divulgação)

Fora do mercado de luxo, não se espere muitos modelos elétricos e híbridos e nem grande evolução na autonomia. Nesses dois aspectos, por conta da crise, o mercado brasileiro está praticamente paralisado, quase andando para trás. No caso das novas alternativas de impulsão, o negócio local é insignificante. Várias marcas apresentarão seus produtos no salão, como a Tesla, cujo modelo S começa a ser vendido no Brasil pela empresa Elektra por preços que variam de R$ 650 mil a R$ 785 mil.

Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), que tem sua própria feira, foram vendidos, em dez anos, cerca de três mil híbridos e elétricos no Brasil, a maioria modelos Toyota Prius e Nissan Leaf. Esse tipo de carro não está no foco das montadoras locais, principalmente num momento em que penam para vender produtos convencionais.

WR-V, mini SUV da Honda, sobre plataforma do Fit, um dos sucessos da marca japonesa
WR-V, mini SUV da Honda, sobre plataforma do Fit, um dos sucessos da marca japonesa (Foto: gentileza Honda)

Quanto à autonomia, embora esteja evoluindo nos mercados de países desenvolvidos, foi derrubada nos projetos brasileiros por causa do generalizado esforço de redução do custos, entre os quais se inclui simplificar o produto, principalmente deixando de colocar componentes importados de alta tecnologia.

Seja como for, a Indústria automobilística está apostando alto no salão, que vai engrenar uma agenda positiva para o setor, neste mês, que inclui a realização do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, em Interlagos, no próximo fim de semana, e promete criar um ambiente mais favorável para a retomada. A expectativa dos organizadores é que o evento receba 750 mil visitantes, mais ou menos o mesmo número de 2014. A previsão de faturamento é de R$ 320 milhões, cerca de 15% mais do que há dois anos.