AS MARCAS VENCEDORAS DO ANO RUIM

Indústria

A coreana Hyundai é a que mais avançou, ao saltar para o top 3 no ranking nacional. General Motors assumiu a liderança, Toyota ganhou espaço e a Volkswagen deve fechar 2016 em sua pior posição histórica.

Nem tudo é crise no negócio brasileiro de carros. Há sinais de prosperidade. Num ano complicado, em que houve uma alucinante mudança de posições, três marcas conseguiram ganhar volumes e, ao mesmo tempo, ampliar sua participação no mercado. Despontaram, no meio das dificuldades, Hyundai, Toyota e Jeep, do grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA). Além de crescerem, mantiveram uma boa escala produtiva e equilíbrio financeiro, inclusive altas margens com seus modelos mais demandados.

O caso de destaque em 2016 é o da Hyundai, que vende um veículo de grande escala, o HB20, e conseguiu crescer 0,6% quando os licenciamentos caem, em média, 22,6%, até outubro, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Por conta disso, a marca coreana atingiu o terceiro lugar em vendas de carros no Brasil, com acumulado no ano de 158 mil unidades, superando a Volkswagen, com 151,3 mil, e ficando atrás da GM, com 243,8 mil, e da Fiat (FCA), com 201,0 mil. GM e FCA, porém, perderam volumes em relação a 2015. A tendência é que essa parcial seja confirmada no ano, considerando que números ainda não consolidados de 2016 indicam o salto da Hyundai para terceiro lugar.

HB20, vice líder em vendas no ano e responsável por elevar a Hyundai ao 3º lugar no ano
HB20, vice líder em vendas no ano e responsável por elevar a Hyundai ao 3º lugar no ano (Foto: divulgação Hyundai)

Os motivos para o bom desempenho de algumas marcas em um momento de baixa são diferentes, embora, de um modo geral, estejam associados à atratividade dos produtos. No caso da Hyundai, a virtude principal que garantiu a arrancada foi o sucesso de seu modelo compacto, que cresceu no varejo e nas vendas diretas para frotistas e locadoras. O HB20 se firmou como segundo carro popular mais vendido do país, com 97,2 mil unidades licenciadas, até outubro, atrás apenas do Onix, da GM, primeiro lugar no varejo e em vendas diretas, com 119,2 mil, e à frente do Ford Ka, com 61,5 mil.

A marca coreana conta com uma fábrica própria em Piracicaba (SP) dedicada a produzir apenas o compacto em suas várias versões, e com outra unidade, do grupo CAOA, em Catalão (GO), de onde saem modelos comerciais leves e os utilitários esportivos (SUVs) Tucson e ix35. A partir de março, um novo modelo será produzido em Piracicaba, o Creta, SUV compacto que compartilhará a plataforma do HB20. O presidente da Hyundai no Brasil, William Lee, disse, em entrevista coletiva no Salão do Automóvel, que 130 milhões de dólares foram investidos na produção do Creta.

A Toyota deve sua boa posição a um sistema de produção e comercialização de veículos altamente enxuto e eficiente. Ela só cresce de maneira orgânica e vem sustentando uma venda média de 175 mil carros por ano neste triênio. “A Toyota odeia estoque, desperdício e produção parada”, afirma Ricardo Bastos, diretor adjunto de relações públicas e governamentais da montadora. Segundo ele, cerca de 60% dos compradores do modelo Corolla, o mais vendido da marca e o quinto carro mais licenciado no país, voltam a comprá-lo.

“O consumidor repete a compra por causa da boa experiência de pós-venda e da condições vantajosas que damos para a troca”, diz Ricardo Bastos. A empresa conseguiu elevar os negócios com seu compacto Etios, que, somadas as versões hatch e sedã, já alcança volumes de venda semelhantes ao do Corolla.

Jeep Renegade, fabricado no Brasil: fenômeno de vendas em plena crise foi diferencial do ano para o Grupo Fiat
Jeep Renegade, fabricado no Brasil: fenômeno de vendas em plena crise foi diferencial do ano para o Grupo Fiat (Foto: divulgação FCA)

Outro destaque da Toyota é sua marca de luxo, a Lexus, que vem crescendo 2,6% neste ano. Uma das razões para o crescimento é o aumento da rede de concessionárias. Há três anos, havia apenas uma revenda própria da Lexus no Brasil, em São Paulo, e, atualmente, sete lojas vendem a marca em lojas da Toyota.

No caso da Jeep, que garantiu um volume de vendas adicional de 43,3 mil unidades emplacadas para o grupo FCA (liderado pela Fiat), há um forte efeito aspiracional que aproxima o consumidor da marca. “O consumidor pensa em Jeep e volta para a infância”, afirma Alexandre Clemes, gerente de marketing da Jeep Latin America. Há também uma importante expansão da rede que permitiu ao consumidor de todos os cantos do país chegar até o produto.

Segundo Clemes, a rede de concessionárias da marca cresceu de 45 lojas para 170 nos últimos dois anos e para 200, em 2016. Ou seja, quadruplicou. Graças à Jeep, a Fiat manteve a segunda posição no mercado e não viu a GM se distanciar ainda mais. Dois modelos são produzidos no Brasil, na fábrica da FCA em Goiana (PE): Renegade, que, até o momento, imperou sozinho, e o Compass, recém-lançado e com início promissor. Isoladamente, porém, sem a Jeep, a marca Fiat vendeu 154,9 mil, volume abaixo da Hyundai.

Newcomers

Do ano passado para cá houve uma completa mudança de posições entre as marcas líderes do mercado. O Grupo FCA perdeu o primeiro lugar para a GM, a Volkswagen passou a amargar um incômodo quarto lugar, a Ford pulou para a quinta posição e a Toyota superou a Renault e a Honda para assumir o sexto lugar. De um modo geral, houve uma aproximação entre as oito maiores montadoras do país.

A líder, a GM, ficou, até outubro, com 17,9% de market share, e a oitava colocada, a Honda, tem 7,5%. Quem mais perdeu, certamente, foi a Volkswagen, outrora líder absoluta de vendas e, nos últimos dois meses, sem qualquer modelo entre os dez mais vendidos do país. Entre janeiro e outubro, as vendas do Gol, outrora imbatível, lhe deixaram num discreto nono lugar no ranking. O Fox deixou a lista de mais vendidos. E o Up!, embora tenha se destacado, ficou abaixo do concorrente Mobi, da Fiat, nos últimos meses.

Onix, o campeão de vendas de 2016: sucesso ajudou GM a pular para a liderança do mercado
Onix, o campeão de vendas de 2016: sucesso ajudou GM a pular para a liderança do mercado (Foto: divulgação GM)

 Chama atenção nesse novo contexto o desempenho das chamadas “newcomers”, empresas que instalaram suas fábricas aqui, na segunda metade dos anos 1990, caso da Toyota, Honda e Renault. As três marcas, junto com a Hyundai e a Nissan, associada à Renault, se consolidaram entre as dez maiores montadoras do país e não param de fustigar as fabricantes tradicionais, GM, Fiat, Volkswagen e Ford.

Verifica-se, em especial, um crescimento sustentável das montadoras asiáticas no Brasil, que se mostram mais eficientes e focadas no crescimento, assim como uma tendência ao equilíbrio de participação entre os maiores fabricantes. Em um novo ciclo de prosperidade, essa situação tende a se manter.

O mercado brasileiro atingiu um novo patamar de concorrência e já não conta com marcas hegemônicas nem com líderes absolutos. Nos tempos atuais, nenhuma montadora tem uma posição de conforto e qualquer vacilo pode significar uma imediata queda no ranking.