Indústria

Tendo como pano de fundo a guerra entre a Amazon e a Walmart, Jeff Bezos faz a maior aquisição da empresa e manda um recado de US$ 13,7 bilhões: ele vai dominar todos os aspectos do varejo.

 

A Amazon adquiriu Whole Foods Market em um acordo recorde de US$ 13,7 bilhões, divulgado na última sexta-feira, 16/06. De acordo com especialistas de Wall Street, foi um movimento ousado que sacudiu a indústria de supermercados e deve colocar em alerta muitos dos concorrentes da Amazon, tanto os de e-commerce quanto os varejistas tradicionais. 

A disputa com a Walmart

Para se ter uma ideia da ambição da Amazon, esta aquisição é o terceiro negócio mais caro registrado para o setor supermercado no mundo, ficando atrás da aquisição de US$ 17,4 bilhões da Albertson por um consórcio de investidores em 2006 e da compra da Promodes, adquirida pelo Carrefour em 1999, por US$ 17,2 bilhões, segundo a Dealogic.

Mesmo para os padrões da Amazon, que é conhecida por manter um ritmo constante de aquisições para o complemento de suas operações, a compra da rede de supermercados Whole Foods saiu do padrão de volume financeiro despendido. A segunda maior aquisição feita sob o comando de Bezos foi a do site de e-commerce de roupas e sapatos Zappos.com, por US$ 1,2 bilhão, dez vezes menos do que o valor da Whole Foods. Outro dado importante, é o valor médio de US$ 396,2 milhões despendido pela Amazon em outras 17 aquisições desde de 1998. O mais impressionante é que o valor de todas estas aquisições somadas alcançaram US$ 6,7 bilhões, menos da metade do valor gasto na Whole Foods.

Fonte: Fortune

Com a aquisição da Whole Foods, a Amazon vai para o campo de batalha do varejo de ponto de venda, onde a sua real concorrência são empresas como Walmart, Sears, Costco, Home Depot e Target. No caso da Walmart, a rivalidade com a Amazon remonta o ano de 1998, quando ela processou a recém-criada empresa de e-commerce por roubo de segredos comerciais. A Amazon contratou vários ex-executivos da Walmart que foram afastados depois de um acordo extrajudicial entre as duas empresas. Nesta época a Walmart faturava US$ 130,5 bilhões e a Amazon apenas US$ 600 milhões, ou seja, 217 vezes menos que a gigante do varejo.    

O tempo passou, a Amazon insistiu em seu modelo de e-commerce e, em 2016, ela apresentou um faturamento de US$ 135,9 bilhões, o maior da história da empresa. Já a Walmart registrou uma receita anual de US$ 482.1 bilhões, uma redução de 0,6% em relação ao ano fiscal de 2015. A diferença entre o faturamento das duas empresas caiu para apenas 3,5 vezes em favor da Walmart, mas esta evolução frenética da Amazon dos últimos 15 anos, fez com que uma luz vermelha acendesse para todas as redes varejistas.

No caso da Walmart, o incremento de suas vendas em e-commerce é mais urgente do que para outras varejistas tradicionais. Em 2016, a empresa apresentou apenas 2,8% em vendas totais provenientes do e-commerce. Este resultado sofrível foi causado por um erro estratégico da empresa que, até 2010, não tinha nenhuma política eficiente para aumentar as vendas online. Outro motivo vem do atraso na implementação de sistemas de e-commerce confiáveis – o primeiro website de vendas entrou no ar em 2000, mas só em 2012 a empresa decidiu implementar uma estratégia mais agressiva. A Walmart fez duas aquisições para deslanchar o negócio digital. Em 2015, a empresa adquiriu 100% da Yihaodian (já detinha 51% desde 2012) e em 2016 adquiriu a Jet.com por US$ 3bilhões.

Por que a Whole Foods?

Certamente a Amazon está entrando em uma nova fase, na qual busca expertise no varejo físico. O desafio é entender como funciona o dia-a-dia dos 460 pontos de venda da Whole Foods (distribuídos entre Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha), especialmente sobre os aspectos de relacionamento com o cliente e sua experiência antes, durante e depois da compra. Além disto, a Amazon está herdando uma carteira de clientes que está disposta a pagar mais por alimentos e serviços. 

A Whole Foods é uma rede de supermercados reconhecida por priorizar a qualidade dos produtos, ofertando alimentos que seguem os padrões de qualidade criados pela própria empresa. A empresa apenas admite de seus fornecedores alimentos minimamente processados e livres de gorduras hidrogenadas. Em uma espécie de “lista negra” que a empresa divulga em seu website, ela veta produtos com sabores, cores, edulcorantes (adoçantes) e conservantes artificiais, que são classificados como "alimentos inaceitáveis".

Fundada em 1980, depois da fusão de duas lojas de alimentos orgânicos em Austin, Texas, a Whole Foods cresceu sob o comando de um dos seus fundadores, John Mackey, e faturou em 2016 US$ 15,7 bilhões. Como mais 87 mil empregados, a Whole Foods foi valorada em 2016 em US$ 9,9 bilhões, sendo considerada uma das 50 empresas mais inovadoras dos Estados Unidos, segundo a Forbes. Um grande reconhecimento para uma empresa que não está no setor de Tecnologia da Informação (TI).     

Mesmo sendo uma aquisição lógica, alguns analistas dizem que a Amazon provavelmente enfrentará desafios significativos, uma vez que se expande para um negócio notoriamente difícil em termos de logística, com uma competição capilarizada e que apresenta historicamente baixas margens de lucro. Outro fator a ser levado em consideração é que as duas empresas são simplesmente muito diferentes.

A Amazon é uma empresa de TI natural, que aplica uma combinação de algoritmos sofisticados, preços baixos e aposta na expansão do e-commerce para ganhar clientes online. Já a Whole Foods atua em um mercado no qual o relacionamento com o cliente é a chave para a crescimento da empresa. Para manter clientes com alto nível de satisfação, a empresa tem em seus quadros funcionários bem treinados e remunerados, investindo no atendimento e na qualidade dos produtos ofertados.

Segundo o Washington Post, um protótipo de uma nova loja da Whole Foods abriu este ano em Seattle – onde fica a sede da Amazon – demonstrando uma visão do futuro da nova operação. Ao entrar na loja, o cliente dá o check-in através de um aplicativo, que também fará a função de leitor do código de barras de produtos, registrando e liberando automaticamente as mercadorias. Quando o cliente tiver concluído suas compras, ele faz o check-out, e realiza o pagamento no próprio smartphone. Com o tempo, o aplicativo terá o histórico e a periodicidade das compras de cada cliente e, com esta informação, o próprio sistema passará a administrar os pedidos junto aos produtores, conforme a demanda de cada usuário. Uma visão bem interessante sobre um futuro não tão distante.