REMÉDIO TIRO E QUEDA CONTRA A CRISE

Marketing

Envelhecimento da população brasileira e estratégia de ampliação de venda de cosméticos faz setor de farmácias superar com folga a recessão. Raia Drogasil, a maior rede nacional, abriu 200 lojas em 2016 e quer repetir o feito neste ano.

De São Paulo - No deserto da crise econômica, há alguns poucos oásis. No varejo brasileiro, as farmácias não sentiram a recessão dos últimos anos. As grandes redes colecionam, há pelo menos duas décadas, índices de expansão anuais acima de dois dígitos. “Ao longo dos 25 anos de existência da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), as 27 redes associadas aumentaram mais de 14 vezes o faturamento e ganharam expressividade”, comemora Sérgio Mena Barreto, presidente executivo da Abrafarma. 

De acordo com ele, em 2016, as associadas movimentaram quase R$ 40 bilhões e ampliaram suas lojas, chegando próximo de sete mil unidades espalhadas pelo país. “Isso consolida nossa condição de canal preferencial do consumidor. Chegamos a este êxito perseguindo incansavelmente o aperfeiçoamento da experiência de compra por parte do consumidor e do modelo de gestão, baseado nas tendências do varejo internacional”, analisa. 

Mena Barreto, da Abrafarma: setor segue modelo internacional de ampliar oferta de cosméticos
Mena Barreto, da Abrafarma: setor segue modelo internacional de ampliar oferta de cosméticos (Foto: divulgação Abrafarma)

Barreto explica que o bom desempenho é fruto de um planejamento de longo prazo das grandes redes, atentas às tendências internacionais e ao crescente grau de exigência do consumidor brasileiro. “Elas continuaram a adotar a mesma estratégia de antes da crise: inaugurando lojas, ampliando as existentes, diversificando a oferta de produtos nos pontos de venda e incorporando o conceito de drugstores”, conta. 

O modelo está consagrado em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, e em outros mercados mais modernos na Europa e na Ásia. “O consumo de produtos de higiene e beleza vem crescendo. Os homens passaram a cuidar mais da aparência e as pessoas vêm dando preferência a comprar esse tipo de produto nas farmácias. Esse é um fenômeno mundial”, diz Alexandre Horta, diretor de Retail e Consumo, da PwC. 

Para ele, as farmácias foram muito hábeis em aumentar a oferta de produtos de beleza. “A indústria de dermocosméticos também passou a apoiar o crescimento das vendas de seus produtos nas farmácias. Além de verem a prescrição dos dermatologistas aumentar, perceberam ser o canal adequado para uma exposição mais refinada de seu portfólio”, explica o especialista. 

Horta destaca ainda que a redução do consumo gerada pela crise impactou de maneira inversa as farmácias, em relação à maior parte do varejo. “Se não posso comprar um carro novo, pelo menos um creme antirrugas eu posso”, interpreta. 

A visão do diretor da PwC é ratificada por Marcílio D'Amico Pousada, CEO da Raia Drogasil, maior rede de farmácias entre as associadas à Abrafarma, tanto em número de lojas como em faturamento. “Percebemos uma mudança no comportamento do cliente em relação aos itens básicos mais caros e uma mudança nos lançamentos da indústria de produtos de ponta.” 

Mas o faturamento das grandes redes não é impulsionado apenas por esse tipo de produto. Dados da IMS Health, compilados pela Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), apontam que, de janeiro a outubro de 2016, a venda de medicamentos nas farmácias brasileiras cresceu 10,4%, atingindo os R$ 37 bilhões. Em número de doses, a alta foi de 4,9%, chegando a 109 bilhões.

Vendas 

Jan a Out/2015

Jan a Out/2016

Variação (%)

Total

R$ 29.184.212.992

R$ 32.561.896.777

11,57%

Vendas de medicamentos

R$ 19.504.695.010

R$ 22.025.245.113

10,47%

Vendas de não medicamentos

R$ 9.679.517.982

R$ 10.536.651.664

8,86%

Vendas de genéricos

R$ 3.392.537.152

R$ 3.861.092.078

13,81%

Unidades vendidas (Total)

1.753.474.523

1.785.574.162

1,83%

Total de lojas

5.778

6.344

9,79%

 Fonte: Abrafarma

O aumento da venda de medicamentos tem entre principais motivos o envelhecimento da população. A fatia de idosos na população brasileira chegou a 14,3% em 2015, segundo dados divulgados pelo IBGE, no final de 2016. O número representa um crescimento de 46% em apenas dez anos (eram 9,8% em 2005). 

Apoiada nessas variáveis positivas, a rede Raia Drogasil registrou um lucro líquido de R$ 116,9 milhões no terceiro trimestre de 2016, o que representa um crescimento de 39,1% em relação ao mesmo período no ano anterior. “O maior drive de crescimento do nosso negócio é, com certeza, o envelhecimento das pessoas”, observa o CEO da empresa. 

D'Amico Pousada pondera, no entanto, que apesar das tendências de consumo terem influenciado positivamente o resultado nos últimos anos, a gestão afinada tem grande responsabilidade no desempenho superlativo.  Barreto, presidente da Abrafarma, concorda. E isso não se aplica apenas à Raia Drogasil. “O processo de gestão é um componente importante no crescimento acima de dois dígitos de todo o setor”, avalia. 

Segundo o executivo da Raia Drogasil, 2016 foi o terceiro ano muito bom pelo foco dado à eficiência operacional pela empresa, que em 2011 nasceu da fusão entre as já então gigantes, Droga Raia e a Drogasil. Esse foi a maior negócio do movimento de fusões e aquisições que ocorre no setor há pelo menos dez anos e continua ativo.

Loja da rede Big Ben, a maior do Norte e Nordeste: estaria em negociação com o Grupo Ultra
Loja da rede Big Ben, a maior do Norte e Nordeste: estaria em negociação com o Grupo Ultra (Foto: divulgação)

Outro grande grupo, o DPSP, surgiu da união entre a Drogaria São Paulo e as Drogarias Pacheco, hoje terceira e quarta maiores redes brasileiras respectivamente, tanto em número de lojas como em faturamento no ranking da Abrafarma.

O promissor mercado brasileiro também atraiu a atenção da grande rede americana GVS, que comprou a Onofre. E os últimos rumores de movimentação do setor dão conta de que o Grupo Ultra, que já é dono da Extrafarma, está de olho na rede de farmácias Big Ben, da Brasil Pharma, gigante no Norte e Nordeste do país.

Marcílio Pousada, da Raia Drogasil, a maior do setor: previsão de abrir 200 novas lojas neste ano
Marcílio Pousada, da Raia Drogasil, a maior do setor: previsão de abrir 200 novas lojas neste ano (Foto: divulgação)

“Há um investimento constante em sistemas e abertura de novos centros de distribuição próprios para evitar rupturas (falta de estoque)”, conta Barreto, da Abrafarma. Sem citar nomes, ele garante que somente uma das empresas associadas tem nada menos que oito centros de distribuição instalados em todo o País para facilitar sua logística de abastecimento. Assim, essas empresas não dependem tanto dos estoques dos fabricantes, como as farmácias independentes. O que seria um risco porque se o estabelecimento não tiver todos os itens de uma prescrição médica, o cliente simplesmente vai comprar em outro lugar.

Outra estratégia de gestão das grandes redes brasileiras é a expansão da capilaridade, que faz crescer rapidamente o número de lojas das principais cadeias. Isso tem ampliado a participação no mercado sobre as farmácias independentes. “Sem isso, as vendas estariam num ritmo de crescimento de 3%”, afirma o executivo da Abrafarma. 

Ainda usando a Raia Drogasil como exemplo, em 2016, a rede abriu 200 novas lojas pelo Brasil. A empresa, com origem em São Paulo, tem hoje 1400 unidades distribuídas em 18 Estados, em todas as regiões do país. “Em 2017 abriremos mais 200 lojas”, projeta Pousada, CEO da empresa. E esse deve ser o ritmo de todo o setor, que tem tudo para continuar cruzando a tempestade econômica sem turbulências.