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Mesmo sem profissionalizar suas gestões financeiras, grandes clubes do futebol brasileiro começam 2017 com dinheiro na mão e faturamento em alta. Cresceram as cotas da TV, o volume de sócios-torcedores e receitas com a venda de jogadores.

De São Paulo - Os times começam a voltar a campo, depois das férias, e a máquina registradora do futebol brasileiro entra em operação como se não houvesse crise no país. Mesmo sem resolver seus graves problemas de endividamento e de gestão, os clubes da primeira divisão estão faturando mais e melhorando seus balanços, nos dois últimos anos, e tudo indica que 2017 será próspero. Há crescimento de receita com a venda de jogadores, da renda obtida com o público nos estádios, cada vez mais sustentável graças aos programas de sócio-torcedor, da receita publicitária e dos valores pagos pela Rede Globo e algumas outras emissoras, como o Esporte Interativo, pelos direitos de arena.

Desde o ano passado, quando passou a valer um novo contrato trienal de distribuição de cotas de TV, todos os times que disputam o Campeonato Brasileiro viram sua remuneração subir de 29% a 54%. Em 2016, a Globo desembolsou R$ 1,130 bilhão para os 20 participantes da primeira divisão e outros R$ 250 milhões para a “segundona”, mais do que o dobro do dinheiro pago no contrato anterior. As cotas anuais variam de R$ 170 milhões, caso de Flamengo e Corinthians, a R$ 20 milhões, valor recebido pela Chapecoense ou pela Ponte Preta.

A desvalorização do real é outro fator que tem contribuído para o aumento dos ganhos dos clubes, tanto pela venda de jogadores como por meio de patrocínios. A queda no câmbio barateou os craques brasileiros no exterior e grandes transações têm sido realizadas. Se em 2015, o aumento da receita dos clubes com venda de jogadores já foi expressivo, alcançando R$ 638 milhões, em 2016 pode ser ainda mais, graças às vendas de Gabriel Jesus, do Palmeiras, para o Manchester City, por R$ 121 milhões de reais, e de Gabriel, o Gabigol, do Santos, para o Inter de Milão, por R$ 97,5 milhões, duas das cinco maiores vendas da história do futebol brasileiro. 

Estádio do Palmeiras lotado: campeão brasileiro multiplicou suas receitas em 2016
Estádio do Palmeiras lotado: campeão brasileiro multiplicou suas receitas em 2016 (Foto: reprodução Youtube)

“Os investimentos em patrocínio no futebol, que tinham minguado, foram redimensionados e se tornaram mais atraentes para as empresas”, diz o professor de marketing esportivo da ESPM, Eduardo Muniz. “Os clubes, por sua vez, para fortalecer o vínculo, passaram a ir além da marca na camisa e dar mais retorno para os patrocinadores, criando áreas de relacionamento, por exemplo.”

 A fuga de patrocinadores derrubou o faturamento dos clubes nos anos que antecederam a Copa do Mundo. Receitas de patrocínio que poderiam chegar até a R$ 35 milhões por ano, no caso das maiores torcidas, desapareceram por meses a fio. O problema só foi estancado porque a Caixa Econômica Federal, em uma verdadeira operação de salvamento, assinou, em abril, contrato de patrocínio com 12 grandes clubes e injetou R$ 120 milhões no mercado.

Estudo anual realizado pelo consultor de marketing e de gestão esportiva Amir Somoggi, mostrou que o faturamento dos 20 maiores times brasileiros cresceu 23,75%, em 2015, e alcançou 3,7 bilhões de reais. Além do excelente desempenho com a venda de atletas, que avançou 55%, o que pesou foi o ganho com os direitos de TV, que aumentou 28% e superou R$ 1,39 bilhão. Os patrocínios subiram 7% e alcançaram R$ 489 bilhões, e a bilheteria dos estádios aumentou 14% e chegou a R$ 399 milhões.

Somoggi trata de consolidar os dados e prepara o estudo de 2016, que será lançado em abril, mas já sabe que o faturamento dos grandes clubes vai melhorar novamente, ainda que não se verifique nenhuma mudança expressiva na gestão do futebol. “Não há qualquer evolução estrutural no negócio e o aumento dos direitos de TV explica, em grande parte, a melhoria das contas dos clubes.”

Os direitos de transmissão têm crescido e vão crescer mais, a partir de 2019, por conta da concorrência entre a SporTV/Globo, Esporte Interativo/Turner e Fox na TV paga. O Esporte Interativo fechou um acordo, no ano passado com 14 equipes e informou que sua oferta é nove vezes melhor do que o contrato que ainda vigora. Fala-se em R$ 550 milhões.

Embora os clubes ainda não tenham divulgado seus números finais, informações isoladas apontam para um crescimento da receita e dos lucros da maioria deles, no ano passado. O caso do Palmeiras é o mais notável: teve R$ 296 milhões de receita, em 2015, e fechou 2016 com cerca de R$ 440 milhões. O faturamento do Flamengo, até outubro, cresceu 15%, de R$ 265 milhões para R$ 306 milhões. A diretoria do Santos anunciou lucro em 2016 de R$ 95 milhões, o maior da história do clube, segundo comunicado à imprensa -- o valor coincide com os ganhos com a venda de Gabriel para a Itália.

Muniz, da ESPM: crescimento das receitas dos grandes clubes não é resultado de melhor gestão e transparência
Muniz, da ESPM: crescimento das receitas dos grandes clubes não é resultado de melhor gestão e transparência (Foto: divulgação)

De acordo com informações do Torcedômetro, os programas de sócios-torcedores, que cobram mensalidades e oferecem benefícios na compra de ingressos e produtos licenciados, também estão crescendo. Alguns times como Grêmio, Flamengo e Atlético Mineiro conseguiram um importante aumento de adesões.

O Grêmio conquistou 20 mil sócios-torcedores nos últimos seis meses, chegando a 114 mil. O Flamengo teve 24 mil adesões e alcançou 76 mil. O Atlético teve um incremento de 8 mil. Há, atualmente, cinco times no Brasil – Corinthians, Palmeiras, Grêmio, Internacional e São Paulo -- com mais de 100 mil sócios-torcedores.

Quanto às dívidas, os clubes resolveram uma boa parte delas com a Lei de Responsabilidade Fiscal do Futebol (13.155/2015), o Profut, que facilitou e barateou a quitação das pendências tributárias. Aqueles que refinanciaram suas  dívidas pelo programa receberam R$ 685 milhões de descontos, que se converteram em receitas financeiras.

Segundo a pesquisa de Amir Somoggi, por conta disso, entre 2014 e 2015, os 20 maiores times converteram um déficit de R$ 626 milhões em um superávit de R$ 147 milhões nas suas contas. Mesmo assim, a maioria deles ainda paga juros e carrega altos custos financeiros por causa de endividamento bancário motivado por empréstimos. Somoggi detectou um aumento de 11% nas despesas dos times da primeira divisão, em 2015.

Para o professor Eduardo Muniz, há algumas sinalizações positivas no mercado de futebol, mas tudo deve ser encarado com parcimônia. “Apesar dos cofres mais cheios, os clubes ainda carecem de boas práticas de gestão e de governança”, afirma. “Percebem-se que alguns deles querem se organizar, mas a narrativa ainda é melhor do que a realidade e as vontades políticas ainda prevalecem sobre o equilíbrio econômico.”