O BRASIL E A GUERRA NOS EUA

Política

A disputa pela presidência da maior potência e uma das mais sólidas democracias mundiais nunca foi tão agressiva. A GME entrevistou especialistas em política e economia internacional para mostrar como ficaria o Brasil com Hillary ou Trump no poder.

De São Paulo -- Façam suas apostas: O que muda para o Brasil a partir da definição, neste início de novembro, do novo presidente da nação mais poderosa do mundo? A depender do resultado, a disputa entre a candidata do partido Democrata, Hillary Clinton, e o empresário-apresentador que se impôs como representante dos Republicanos, Donald Trump, pode impactar diferentemente as relações políticas e comerciais entre os dois países.

Sabe-se que o peso do Brasil no debate eleitoral americano é pouco relevante, embora o país seja “top 10” – justamente na 10ª posição – entre os maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos. Mas entender para que lado soprarão os ventos que moverão a maior economia do planeta nos próximos anos pode ser crucial para as empresas e setores estratégicos brasileiros.

A Gazeta Mercantil Experience foi a campo para ouvir especialistas sobre economia e relações internacionais para ajudar compreender como a eleição de Hillary ou Trump impactaria os nossos interesses. Segundo todos os entrevistados, Trump provavelmente não conseguiria implementar boa parte de suas propostas mais controversas, já que o Congresso americano tem muito poder. No caso de Hillary, acreditam que ela promoveria uma continuidade das políticas de Obama, o que em tese seria bom para o Brasil.

Poder de decisão

O cientista político Gunther Rudzit, doutor em Segurança Internacional especializado em política dos Estados Unidos e coordenador do curso de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco observa que, muito mais importante do que quem vai ocupar a Casa Branca, é acompanhar com mais atenção a composição do Congresso.

“A descentralização do poder nos Estados Unidos é muito grande, tendo como principal diferença em relação ao Brasil o poder final de decisão do Congresso. Ou seja, na prática, a capacidade de decisão do presidente norte-americano é limitada, ficando restrita à política externa e de defesa”. E mesmo nestes casos, explica Rudzit, os parlamentares podem delimitar a atuação do presidente com a manipulação de recursos no orçamento.

Rudzit, de Relações Institucionais da Rio Branco: poder de decisão do presidente dos EUA é limitado e Trump não conseguirá fazer o que quiser (Foto: Linkedin)

Para Heni Ozi Cukier, cientista político e professor de Relações Internacionais da ESPM, as propostas mais radicais da campanha de Trump enfrentariam obstáculos para a implementação, não apenas no Congresso. “Ele certamente esbarraria em questões práticas na hora, por exemplo, de expulsar imigrantes ou de construir o muro na fronteira com o México, como promete. Acredito que essas coisas não aconteceriam”, avalia.

Mas na visão de Cukier, uma vitória de Trump geraria problemas de outra magnitude para o cenário mundial. “Seria a demonstração de que a crise da representação partidária, a demagogia e o populismo, em alta pelo mundo, estaria corrompendo também a democracia mais sólida do planeta.”

“Os Estados Unidos têm uma relação de poder muito diferente daquela que nós temos aqui no Brasil”, concorda Antonio Carlos Alves dos Santos, professor-doutor do curso de economia da PUC São Paulo. “As negociações comerciais são acionadas pelo presidente, mas, naturalmente, dependem da aprovação do Congresso. E mesmo o Trump sendo uma pessoa complicada, a política nacional nos Estados Unidos é sempre pautada pelo interesse nacional e tem que gerar resultados de consenso entre os dois partidos”, lembra. 

Política Externa

Há um consenso entre os especialistas consultados pela GME de que uma hipotética vitória de Trump deva gerar uma maior preocupação no resto do mundo em relação à política externa americana do que se Hillary Clinton ocupar a Casa Branca. Em tese, os Democratas seriam mais abertos ao multilateralismo e, por isso, com Hillary, a tendência de manutenção das relações, sem mudanças bruscas, seria maior.

Heni Cukier, da ESPM: Hillary vai ter política externa mais favorável a parceiros como o Brasil (Foto: Twitter)

Embora o Brasil nunca tenha feito parte do centro das preocupações dos governos dos Estados Unidos, o professor Heni Cukier vê diferenças significativas no futuro das relações diplomáticas com Trump e Hillary na presidência, muito além do tom do discurso que vem sendo adotado por um e outro. “Trump é isolacionista e Hillary vai adotar postura mais forte e engajada em favor de parceiros como o Brasil”, avalia.

Cukier vê um esforço do novo governo brasileiro para se reaproximar dos EUA, após um período de distanciamento sobretudo a partir da presidente Dilma Rousseff. “A política brasileira está mudando e vai priorizar as relações com os Estados Unidos, o que é fundamental para o Brasil tanto politicamente quanto para ter acesso a tecnologias de ponta”, resume.

Mas o cientista político vê dificuldades nesse avanço em caso de vitória de Trump. “Ele não valorizaria essa reaproximação. A Hillary, por outro lado, sabe da importância estratégica de levar a segunda maior economia da América para perto”.  

Para Lucas Leite, professor de Relações Internacionais da FAAP e da Rio Branco, “não apenas o Brasil como provavelmente qualquer país tende a perder com uma vitória de Trump, se entendermos o multilateralismo como a utilização de organizações internacionais para que haja maior incentivo à cooperação e à criação de regras comuns”. Leite se apega às próprias manifestações de Trump para justificar suas preocupações. O candidato republicano já afirmou que os Estados Unidos “estarão sempre em primeiro lugar, mesmo que seja necessário sacrificar os interesses de seus aliados mais próximos.”

Donald Trump em campanha: para analistas, eventual vitória do Republicado prejudicaria Brasil (Foto: Youtube)

Especificamente sobre o Brasil, o candidato Republicano declarou durante a campanha que o nosso país “tira vantagem dos EUA”, mas, como não se aprofundou sobre a visão que tem das relações comerciais entre os países, mesmo os estudiosos da política americana têm dificuldade em prever o que mudaria de fato em um governo Trump.

“É muito difícil entender o que ele pensa”, afirma o economista Alves dos Santos da PUC. “O Brasil exporta aviões para os Estados Unidos, então ele pode estar falando da Embraer. Mas o Brasil também exporta aço, ferro, laranja. Mas como Trump não é alguém tão informado, pode ter sido apenas uma frase de efeito”, opina.

Já Lucas Leite credita essa afirmação de Trump muito mais ao preconceito do candidato Republicano em relação aos latino-americanos em geral já que, tradicionalmente, os dois países cooperam em diversas áreas. “Não acredito que a relação com o Brasil não seria fortemente afetada, uma vez que parte dos acordos bilaterais permanecem efetivos e o Congresso americano ainda teria poder de barganha nessa questão”.

Gunther Rudzit diverge. Para ele, dependendo das medidas nacionalistas que vierem a ser aprovadas pelo Congresso diante de uma presidência Trump, o acesso de alguns produtos brasileiros (no mercado americano) poderia ser afetado. “Acho que haveria uma pressão por uma maior abertura da nossa economia e, caso não o fizéssemos, aí sim retaliações seriam impostas”, acredita.

Já quanto à chegada de Hillary à presidência americana, os analistas consultados apostam em uma continuidade da política praticada por Barack Obama. “A tendência é esta, principalmente porque o Brasil é um dos poucos países com quem os EUA têm superávit comercial e onde há uma forte presença do setor privado americano com a facilidade de remessa de lucros”, diz Rudzit.

Imigrantes

A disposição de Donald Trump de expulsar todos os imigrantes ilegais parece improvável, na avaliação do professor Antonio Carlos Alves dos Santos, da PUC, embora ele acredite que tanto o Republicano quanto a Democrata devam promover “uma política mais clara sobre o tema, principalmente em relação aos mexicanos, devido ao aumento da violência na fronteira e ao tráfico de drogas”.

Os especialistas usam expressões como “demagogia pura” e “longe da realidade” para classificar os planos de Trump para os imigrantes.  Admitem, porém, que o retorno obrigatório dos cerca de 750 mil brasileiros que vivem ilegalmente nos Estados Unidos geraria impacto negativo em nossa economia.

“Em uma situação de crise econômica e desemprego, o envio de dinheiro ganho por brasileiros que trabalham nos EUA se torna um fator importante para muitas famílias, principalmente de algumas regiões que já ficaram conhecidas pela emigração para lá”, afirma Rudzit.

Segundo o professor Lucas Leite, da FAAP e Rio Branco, “a proposta de Hillary para os imigrantes seguiria a tendência do governo Obama de legalizar e transformar essas famílias em americanos ‘de fato’. O Brasil se beneficia disso por meio de recursos vindos do exterior, mas não é uma quantia que possa alterar o rumo da economia”, garante.  

Heni Cukier, da ESPM, acredita que o Brasil tem avançado na abertura dos EUA para os brasileiros, como a liberação de visto de turista que está em negociação. “Hoje o Brasil está muito mais próximo dos Estados Unidos e a tendência é evoluir com Hillary. Se Trump ganhar, isso pode ficar parado e recuar”, completa.

Energia

O plano de governo de Hillary Clinton é claro quanto às matrizes energéticas. Ela pretende reduzir a dependência americana do petróleo em um terço e apostar na energia solar. Segundo Rudzit, isso é ruim para o Brasil, que está ainda no início da exploração das reservas do pré-sal e já vem encolhendo no mercado do petróleo.

“Nós já estamos perdendo nesse setor devido à política adotada em relação ao pré-sal, que afastou as empresas americanas. Não se pode esquecer quando da visita de Obama ao Brasil, logo após a primeira posse da presidente Dilma, ele disse em discurso que os americanos gostariam de se tornar clientes compradores do nosso petróleo. Mas, devido à lentidão da exploração do pré-sal, e a entrada no mercado americano de derivados do gás de xisto, os EUA já deixaram de importar gás e se tornaram exportadores”.

Rudzit lembra que a quantidade de petróleo importado pelos Estados Unidos vem caindo ano a ano e que a política de diminuir a dependência do petróleo importado, especialmente do Golfo Arábico/Persa, que foi implementada no governo de George W. Bush, seria continuada no de governo de Hillary Clinton.

O professor Lucas Leite acha que o Brasil poderia competir por esse mercado de combustíveis não poluentes, que tende a crescer em um eventual governo Hillary, se tivesse investido mais em pesquisa. “O Brasil teve durante algum tempo um papel de destaque nas negociações do clima e na busca por políticas de desenvolvimento sustentável mas, nos últimos anos, viu sua posição recuar devido à falta de investimentos em pesquisa na área”.

Segundo ele, devido ao nosso potencial energético em matrizes renováveis como etanol, biomassa, energia solar e eólica, essa seria uma grande oportunidade para o país, se investimentos em pesquisas de tivessem sido feitos. Mas não foram.