DECIFRANDO TRUMP

Política

Sete importantes analistas em política internacional, economia e negócios tentam revelar quem é e o que pode fazer aquele que passa a ser o homem mais poderoso do planeta (atualizado em 19/01/2017)

De São Paulo e Rio - O mundo acordou assustado no dia 9 de novembro, ao saber que o próximo presidente dos Estados Unidos seria o polêmico empresário de topete alaranjado, Donald Trump. Aos 70 anos, ele assume agora a presidência de fato reiterando a maior parte dos discursos de campanha. Nunca foi levado muito a sério pela mídia americana e mundial e era tratado habitualmente como personagem de entretenimento público. Mas, de repente, despencou sobre as cabeças incrédulas da opinião pública internacional trazendo na bagagem dúvidas a respeito de sua capacidade de governar a maior potência mundial e de respeitar o resto do planeta. Já empossado presidente, resta a países como o Brasil tentar diagnosticar o que virá de fato com Trump e como isso, na prática, pode interferir em nossas vidas.

Para a difícil tarefa de desvendar esse homem enigmático, a Gazeta Mercantil Experience (GME Hub) reuniu nesta reportagem as visões de sete analistas importantes a respeito de seis temas que concentram a preocupação global. Para quase todos, Trump não vai conseguir fazer tudo o que quiser e o Congresso tende a barrar boa parte das ideias de campanha. Será difícil, por exemplo, cumprir a promessa de levar de volta para os Estados Unidos fábricas que saíram para produzir barato no exterior, levantar o muro na fronteira com o México ou fazer caça policial a imigrantes clandestinos pelo país.

Mas acreditam num endurecimento com a imigração em geral e numa política comercial mais protecionista do que a de Obama -- ambas as situações com impactos para o Brasil. Questões de segurança, como a aproximação com a Russia de Putin e possíveis ações militares no Oriente Médio, além de sanções comerciais contra a China, também estão no caldeirão de temores. Confira as análises, que desenham um futuro complexo e ainda nebuloso, mas que também pode trazer até alguns reflexos positivos para o Brasil.

PREOCUPAÇÃO 1

BRASIL – COMÉRCIO BILATERAL E RELAÇÃO COM GOVERNO TEMER

Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Investimentos -- O diálogo entre Trump e Dilma seria mais complicado do que com Temer. Não deveremos sofrer muito na relação comercial com os Estados Unidos, porque também somos muito protecionistas. O endurecimento nas relações com a China e o México poderia, eventualmente, até desviar algum fluxo de investimento para cá.

Ricardo Sennes - Sócio diretor da Consultoria Prospectiva e especialista em cenários políticos e econômicos - Não existe agenda bilateral Brasil-Estados Unidos e a eleição de Trump não muda a lógica da relação. Se Hillary fosse eleita, talvez se montasse alguma coisa politicamente relevante na agenda. Trump não deve fazer nada nesse sentido e o que podem existir são mudanças burocráticas na relação. 

Roberto Abdenur – Ex-embaixador do Brasil nos EUA (2004-2006) e estudioso de assuntos americanos - O Brasil tem uma relação bilateral madura com os Estados Unidos, que não comporta saltos espetaculares. Ela progride gradualmente. O fato de o Brasil não ter sido tema dos debates presidenciais americanos não é negativo, é neutro. Talvez com Hillary, as relações progredissem mais facilmente, mas certamente não vão degenerar com Trump.

Marc Burbridge – Professor da FGV da disciplina Negociação e Gestão de Conflitos e consultor de fusões e aquisições – O Brasil tem uma oportunidade de melhorar o comércio com os EUA, se o Trump de fato reduzir relação com México e China, como prometeu.  Além disso, a moralização do mercado de grandes construções no país com a Lava Jato tende a ampliar investimentos de empresas americanas, que antes se intimidavam a entrar no jogo da propina.

Pedro Costa Junior - Professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco - As relações entre Brasil e Estados Unidos são muito sólidas, independentemente de governo. É difícil haver uma alteração muito brusca nisso, embora ele fale em taxar produtos importados em até 45% e proteger ainda mais o mercado interno. Na relação com o governo Temer, a saia justa foi criada pelo chanceler José Serra, que disse em entrevista que não queria nem pensar na vitória do republicano. Vamos ver como a equipe de Trump vai lidar com isso.

João Ildebrando Bocchi -Professor de Economia Brasileira da Faculdade de Economia e Administração da PUC-SP - Trump é um político novo. Na verdade, é empresário. Não dá para ter uma ideia precisa de como será a relação dele com Temer. Deve ser uma relação neutra, sem grandes aproximações. Como nossa exportações para os EUA são mais de agroindústria e minerais, isso não deve sofrer grande alteração.

José Luiz Pimenta Jr - Professor de Relações internacionais da ESPM - Não acho que ocorrerá qualquer mudança estrutural. Brasil e Estados Unidos têm uma relação muito forte, que se dá por via do setor privado e de trocas comerciais. O governo pouco pode interferir nisso.

Celson Plácido, da XP Investimentos: hipotético fechamento dos EUA para a América Latina não deve afetar o Brasil (Foto: divulgação)

PREOCUPAÇÃO 2

AMÉRICA LATINA – O MURO COM O MÉXICO E GOVERNOS DE ESQUERDA

João Ildebrando Bocchi – Economista PUC-SP – Acredito que ampliar o muro e dificultar a entrada pelo México seja até provável. O muro já existe parcialmente, já tem algumas centenas de quilômetros. Mas perseguir milhões de clandestinos pelo país é muito mais difícil. Quanto à relação comercial com a América Latina, o Trump não vai conseguir fechar o país com facilidade. As empresas americanas são grandes importadoras de matérias primas, peças e bens intermediários e não vão concordar com um bloqueio abrupto.

Marc Burbridge – Professor da FGV de Negociação e Gestão de Conflitos – Há um simbolismo negativo na questão do muro, mas ele já existe de fato em boa parte da fronteira. O que Trump tende a fazer é endurecer com os imigrantes clandestinos, dificultando a entrada e obrigando a legalização dos que já estão do país. Mas não acredito numa caça aos ilegais em praça pública, mesmo porque boa parte dos policiais nos EUA são latino-americanos e não aceitariam a missão.

Ricardo Sennes - Diretor da Consultoria Prospectiva - Ainda que o governo tenha uma política mais protecionista, ele estará amarrado por acordos multilaterais, como o Nafta, que impedem ele de agir de forma extrema contra o México. É difícil imaginar que Trump consiga trazer de volta empresas que decidiram transferir sua produção para fora. Para isso são necessárias ações de mercado, que recuperem a competitividade em alguma regiões americanas deterioradas. Um atrativo de mercado que os Estados Unidos têm, atualmente, é a energia mais barata e esse é o típico fator que pode estimular alguma recuperação industrial. 

José Luiz Pimenta Jr - Professor de Relações internacionais da ESPM - Acabar com o Nafta (acordo de livre comércio entre EUA, Canadá e México) é muito difícil, já que as empresas americanas utilizam o acordo institucionalmente para alocar seus recursos e distribuir sua produção. A curto prazo vai ser muito difícil mudar um acordo tão sólido e muito complicado convencer a parcela republicana do Congresso que não compactua com idéias intervencionistas de Trump.

Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Investimentos -- De um modo geral, para a América Latina as relações ficam mais difíceis do que no governo de Obama, mas não necessariamente para o Brasil. O México pode sofrer bastante com as restrições à imigração e o protecionismo. E os governos de esquerda não devem contar com boa vontade do novo presidente americano.

Pedro Costa Junior - Professor de Relações Internacionais da Rio Branco - O muro pode sair do papel, mas não do jeito como ele prometeu, porque obviamente o México jamais vai pagar pela obra. O que mais pode impactar para o México é a saída dos Estados Unidos do NAFTA (Acordo de Livre Comércio do Norte), como o Trump prometeu. A política comercial de Trump promete ser protecionista e isolacionista. O México vai ser atingindo diretamente se os EUA aumentarem a taxação para produtos importados.

Roberto Abdenur – Ex-embaixador do Brasil nos EUA  – Trump teve apenas 15% a 16% do eleitorado latino, mas na Flórida conquistou 31% desse segmento, o que foi fundamental para a vitória. Por isso, acho que a aproximação com Cuba deve seguir bem mais devagar, para não desagradar os cubanos-americanos anticastristas. No caso dos demais governos esquerdistas, creio que o novo presidente será pragmático e a relação não será prejudicada por problemas ideológicos.


Ricardo Sennes, da Prospectiva: Trump terá dificuldade para aprovar medidas polêmicas no Congresso (Foto: Embaixada Britânica/Juliana Nogueira)

PREOCUPAÇÃO 3

A EUROPA - A APROXIMAÇÃO COM A RÚSSIA DE PUTIN

Pedro Costa Junior - Professor de Relações Internacionais da Rio Branco - Se tem alguém que está dando risada nesse momento é Vladimir Putin. O governo russo claramente torcia por Trump. Em várias ocasiões, Trump disse que o russo era inteligente, que o admirava, algo inusitado vindo de um presidente dos Estados Unidos, dada a história entre os dois países. As relações devem ficar mais próximas e desagradar aliados europeus, como Alemanha e França.

Roberto Abdenur – Ex-embaixador do Brasil nos EUA – A troca de gentilezas com Putin pode melhorar o diálogo, mas não elimina a disputa entre os dois países. Há interesses maiores dos Estados Unidos em jogo. O isolacionismo de Putin preocupa os aliados europeus dos EUA e os países bálticos temem que a Rússia possa invadi-los e anexá-los, como fez com a Crimeia.

Marc Burbridge – Professor da FGV da disciplina Negociação e Gestão de Conflitos – As diferenças entre Estados Unidos e Rússia não terminaram totalmente com o fim da União Soviética. Agora, Trump faz elogios a Putin e certamente vai reaproximar os dois países. Isso vai gerar algum estresse com outros aliados da Europa. Mas há uma boa perspectiva de que essa proximidade EUA/Rússia gere avanço na pacificação e no desarmamento das duas maiores potências bélicas do mundo.

Ricardo Sennes - Diretor da Consultoria Prospectiva - A aproximação com Putin e a Rússia é uma questão muito estranha. Acredito que seja mais retórica e não vejo nada de concreto. Não acredito que Trump apoie de fato as ações de Putin na Ucrânia ou no Oriente Médio, mas pode haver uma aproximação diplomática. 

PREOCUPAÇÃO 4

O PODER ECONÔMICO DA CHINA E OS NEGÓCIOS COM A ÁSIA

Roberto Abdenur – Ex-embaixador do Brasil nos EUA – A proposta de fechar a economia e aumentar a taxação dos produtos chineses é gravíssima. O comércio entre China e Estados Unidos é um pilar da economia mundial. Isso poderia dar início a uma série de guerras comerciais que afetariam seriamente a economia global. O Brasil não seria prejudicado diretamente, mas dificultaria a negociação de novos acordos bilaterais de comércio.

Ricardo Sennes - Diretor da Consultoria Prospectiva - Trump deve opor resistência à Parceria Transpacífico (TPP), assinada em 2015 pelos Estados Unidos, Japão, Chile e outros nove países e é parte fundamental da estratégia geopolítica de Obama na Ásia. Mas Hillary também declarava oposição ao acordo durante a campanha com o argumento de que custará empregos aos Estados Unidos. Apesar de Trump ser contra, a média republicana tem jogado a favor do TPP no Congresso.

Marc Burbridge – Professor da FGV de Negociação e Gestão de Conflitos – Será difícil para Trump cumprir a promessa de trazer de volta para solo americano as fábricas de marcas americanas que hoje produzem na China e em outros países ou a de taxar de forma punitiva o produto industrial importado. Se fizer isso, vai aumentar os custos desses fabricantes e elevar os preços, gerando inflação, que não interessa para a economia dos EUA.

Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Investimentos -- O confronto econômico dos Estados Unidos com a China é inevitável e será desafiante para Trump. Ao desvalorizar o yuan, as exportações chinesas ficam mais competitivas. Além disso, a China é o maior credor dos Estados Unidos. Se os juros americanos aumentarem e o dólar subir, as exportações chinesas aumentam e a dívida americana fica mais cara.

Pedro Costa Junior - Professor de Relações Internacionais da Rio Branco  - Trump diz que a China e países como México e outros asiáticos roubam empregos dos americanos e por isso quer trazer as fábricas de volta para o solo americano. Mas obviamente ele não vai conseguir fazer isso porque as condições de produção no sudeste asiático são muito mais favoráveis, a mão de obra mais barata, o câmbio desvalorizado. Logo Trump vai cair na real e ver que é inviável.

José Luiz Pimenta Jr - Professor de Relações internacionais da ESPM - Trump falou muito em gerar emprego por meio de obras públicos e de uma nova industrialização para tentar voltar a produzir nos Estados Unidos alguns produtos cuja produção foi distribuída pelo mundo, principalmente na China. A indústria buscou outros países porque deixou de ser vantajoso produzir lá. Exemplos são os carros e os eletroeletrônicos. É muito complicado reativar um modelo ultrapassado. 

Ex-embaixador nos EUA, Roberto Abdenur: plano de fechar comércio para a China pode gerar crise internacional (Foto: divulgação)

PREOCUPAÇÃO 5

ORIENTE MÉDIO – ISRAEL, SÍRIA E ESTADO ISLÂMICO

Pedro Costa Junior - Professor de Relações Internacionais da Rio Branco -Israel e Estados Unidos têm uma relação praticamente incondicional, umbilical, são aliados inclusive dentro do Congresso americano e isso não vai mudar. Mas Trump tem um discurso ambíguo: ele diz que vai varrer o Estado Islâmico do mapa mas, ao mesmo tempo, fala em retirar os EUA dos problemas do mundo. O prognóstico é de que ele se alie ao Putin para poder destruir o EI e para derrubar o Bashar Al Assad.

Roberto Abdenur – Ex-embaixador do Brasil nos EUA – Trump disse que ia acabar com o Estado Islâmico, mas não disse como. Provavelmente, ele deve manter o apoio às forças que combatem o Isis na Síria e no Iraque, mas não deve intervir diretamente, seguindo sua diretriz de evitar confrontos militares diretos.

Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Investimentos --Seria talvez um problema maior com Hillary Clinton na Casa Branca. Ela certamente iria para o embate. Trump, por outro lado, já disse que não quer se meter. Mas é uma região muito crítica para os interesses americanos, então ele será obrigado a se envolver de alguma maneira. Acho provável que aumente o apoio aos aliados regionais, como Israel e a Arábia Saudita.

Ricardo Sennes - Diretor da Consultoria Prospectiva - No conflito árabe-israelense, acredito que a posição americana deva mudar pouco. Há um acordo clássico, bipartidário, que envolve republicanos e democratas. É improvável qualquer ruptura com Israel. Ao mesmo tempo, é muito provável que haja um endurecimento com o Estado Islâmico (El). 

PREOCUPAÇÃO 6

GESTÃO DA ECONOMIA INTERNA

Ricardo Sennes - Diretor da Consultoria Prospectiva - Trump vai ter como primeira missão convencer os republicanos que ficaram contra ele de que é capaz de governar. O Congresso não reflete a vontade dele e ele vai precisar de apoio do Congresso para pôr planos em prática. Os republicanos ficaram divididos na campanha e não há motivos para apoiá-lo, irrestritamente, agora. Terá dificuldade para liderar grandes medidas internamente.

Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Investimentos - Se Trump conseguir impulsionar a construção e o setor de infraestrutura talvez consiga cumprir a promessa de geração de empregos. A economia já apresenta condições para uma alta de juros, que deve acontecer a partir de dezembro. Novas elevações vão depender do comportamento da economia quando o novo presidente assumir.

Marc Burbridge – Professor da FGV de Negociação e Gestão de Conflitos – O Obama conseguiu tirar a economia americana do buraco de 2008, quando foi eleito, e deixou tudo muito bem arrumado. Um de seus grandes feitos foi reduzir ao máximo o desemprego, hoje baixíssimo. Por isso o Trump terá dificuldade para cumprir a promessa de criar mais empregos. Se for bom gestor, pode conseguir fazer a economia crescer mais do que ocorreu com Obama nos últimos anos.

José Luiz Pimenta Jr - Professor de Relações internacionais da ESPM - - Ele vai poder induzir megaobras, no estilo no New Deal, mas revogar um sistema econômico não é algo que se faz do dia para a noite

Roberto Abdenur – Ex-embaixador do Brasil nos EUA – Não acho que a política protecionista vai impulsionar a economia americana ou gerar os empregos que Trump prometeu na campanha. Pelo contrário, no longo prazo, o desemprego pode até piorar. A incerteza é muito ruim para a economia. Na final, tudo vai depender de quão longe ele vai efetivamente levar o seu discurso de campanha