Política

2017 já começou. O agravamento da crise política e a persistência da recessão neste final de ano começam a desenhar o que o país vai viver a partir de janeiro. E uma coisa é certa: a economia vai continuar sofrendo.

(Foto: Marcos Corrêa/PR)

De São Paulo e Rio - A crise política que se acentua e torna o cenário econômico para 2017 cada vez mais nebuloso e cheio de perspectivas negativas. A delação dos executivos da Odebrecht na Operação Lava Jato torna a situação ainda mais caótica. As instituições estão enfraquecidas e a expectativa de retomada continua em baixa. Lideranças do legislativo e o próprio presidente Michel Temer aparecem nas delações. Todos os agentes econômicos olham para o futuro imediato e pensam mais em poupar e se proteger do que em gastar e investir.

A indústria adia investimentos e tenta administrar sua grande ociosidade. Há 12 milhões de trabalhadores desempregados e outros 10 milhões se sustentando com subempregos ou trabalhos de oportunidade. Famílias desoladas, governo já cobrado por resultados na economia, falta de consenso para levar adiante reformas fundamentais comporão um caldo depressivo, que tende a manter o consumo em baixa e o endividamento em alta.

Enriquez Garcia, da USP: incapacidade política para reativar a economia pode manter quadro recessivo
Enriquez Garcia, da USP: incapacidade política para reativar a economia pode manter quadro recessivo (Foto: divulgação)

A contaminação da economia pela indefinição política é evidente. As revisões da taxa de crescimento do PIB para o próximo ano se tornaram frequentes de alguns meses para cá, caindo de 1,3% para 0,8%, nos cálculos do Banco Central, e para 0,5%, conforme o Fundo Monetário Internacional (FMI). E já há quem fale em estagnação ou até em mais um ano recessivo. “O fundamento da crise é a incapacidade política de criar mecanismos para reativar a economia”, afirma Manuel Enriquez Garcia, professor da FEA-USP e presidente da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB). “Está havendo muita demora para se negociar e votar as medidas necessárias para uma retomada”, arremata.

“A crise política e institucional gera instabilidade e causa uma quebra de expectativa dos agentes econômicos”, afirma William Nozaki, economista e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP). “Os planos de investimentos das empresas estão comprometidos e o consumidor trata de se proteger. Tecnicamente, o país pulou de uma recessão, quando são registrados dois ou mais semestres sem crescimento econômico, para uma depressão, que envolve uma retração prolongada e intensificada por problemas estruturais, como a queda do nível de emprego, da produção industrial e dos rendimentos da população. “Se a instabilidade política continuar, 2017 será tão difícil como 2016”, prevê Nozaki.

Os três setores da economia estão com problemas. O caso da indústria continua sendo o mais grave. A queda da produção, nos últimos três anos, que chegou a 45% no negócio automobilístico, por exemplo, exigirá alguns anos de recuperação. A indústria aproveitou os anos de crescimento para aumentar sua capacidade instalada, mas não se modernizou o suficiente e perdeu competitividade.

Embora as exportações de produtos manufaturados e semimanufaturados estejam crescendo, elas não serão suficientes para neutralizar as perdas nas vendas no mercado interno ou para contribuir fortemente para a recuperação do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2016, a balança deve fechar com um saldo comercial favorável de cerca de US$ 47,7 bilhões. Para 2017, analistas consultados pelo Banco Central, no último boletim Focus, preveem um superávit de US$ 44,5 bilhões.

O setor de serviços continua perdendo com a diminuição do consumo, mas pode ser beneficiado pela redução da taxa de juros, fator de animação do crédito. Mesmo que esteja longe da bonança de outros tempos em que as commodities agrícolas em alta, o agronegócio tem mais chances de crescer com um câmbio favorável no mercado externo, apesar da soja, principal produto da pauta de exportação, ter atingido seus limites de produtividade.

Nozak, da FESP: quadro atual indica poucas possibilidades de crescimento em 2017
Nozak, da FESP: quadro atual indica poucas possibilidades de crescimento em 2017 (foto: divulgação)

O cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) considera que o primeiro semestre de 2017 será dominado pela repercussão da lista da Odebrecht e pelos desdobramentos da Operação Lava Jato. “Essa lista vai ser determinante para o cenário político em 2017 com reflexos em 2018, quando teremos novas eleições presidenciais”, avalia.

O cientista político acredita que as revelações da empreiteira podem abalar a reputação de caciques políticos e potenciais candidatos à presidência e a governos estaduais. Isso abriria espaço para nomes novos. Ele não acredita, no entanto, que sejam Sérgio Moro ou Joaquim Barbosa. “Nenhum dos dois tem o temperamento para enfrentar uma campanha eleitoral”, diz Geraldo Tadeu. O certo é que em uma eleição pulverizada, sem grandes nomes, surpresas podem acontecer. “Vimos isso na última eleição para prefeito do Rio, quando a pulverização dos votos da centro-direita acabou levando Marcelo Freixo, do PSOL, para o segundo turno”.

De volta a 2017, Geraldo Tadeu, alerta que o primeiro semestre de 2017 ainda será marcado pelo agravamento da crise fiscal nos estados. “Não é um problema de fácil solução, e o governo federal, às voltas com sua própria crise de caixa, não vem tendo boa vontade com os governadores”, diz.

O cientista político considera que o governo Temer possui “um déficit de legitimidade”, tendo ainda herdado a baixa popularidade de Dilma Rousseff. “O PT vendeu caro o impeachment e o país ficou polarizado. Ao mesmo tempo, o governo vê encolher sua base junto aos movimentos que apoiaram a saída de Dilma. A Fiesp já começa a pressionar o governo e a pedir a saída do Meirelles.”

Para Geraldo Tadeu, o governo não tem um plano econômico definido. "Havia uma esperança de que a mudança de expectativas poderia alavancar a economia, mas isso não aconteceu. É certo que as medidas de controle fiscal são importantes, mas não há resultado visível de curto prazo”, completa.

Apesar do turbilhão de problemas políticos e econômicos, ainda há alguns indicadores de resistência. Não se nota, por exemplo, um movimento forte de venda e desnacionalização de ativos industriais ou do agronegócio e nem de ofertas de bens imóveis subavaliados, o que mostra que os agentes econômicos estão sendo capazes de sustentar seu patrimônio.

Outros sinais positivos são observados nos índices de inflação e na taxa de juros, que têm apontado para baixo. Nos últimos meses, a inflação ficou mais próxima dos patamares da meta estabelecida pelo Banco Central, de 6,5%, para 2016. Em 2015, ela foi de 10,67% e a previsão para 2017 é que fique abaixo de 5%.

O mesmo vale para taxa de juros, que vai terminar 2016 em 13,75% ao ano. Ao longo de 2017, a previsão do mercado é que ela caia para 10,5%. Seja como for, ninguém aposta que esses indicadores por si só antecipem um novo período de prosperidade. A visão predominante tende a ser pessimista. E mesmo que o fundo do poço tenha sido alcançado e que haja alguma reação nos próximos meses, ela só ficará evidente no segundo semestre.

Espírito Santo, do Ibmec e Órama prevê consumo das famílias em baixa e desemprego ao redor de 14%
Espírito Santo, do Ibmec e Órama prevê consumo das famílias em baixa e desemprego ao redor de 14% (Foto: divulgação Órama)

Alexandre Espírito Santo, economista da Órama Investimentos, projeta um crescimento de 0,8% no PIB para 2017. “Considerando apenas os aspectos econômicos, devemos ter uma recuperação modesta no ano que vem, a partir do segundo trimestre, contando com a aprovação da PEC dos gastos e a reforma da Previdência começando a caminhar”, explica. Com a inflação caindo para o centro da meta, ele prevê uma redução de 2,5% nos juros ao longo de 2017.

A possível melhoria, no entanto, deve ser pontual. “A recuperação depende do investimento das empresas, pois não virá do consumo das famílias”, calcula Espírito Santo, que projeta um desemprego de 14% em 2017. O governo, por sua vez, enfrenta uma crise fiscal. O impulso teria de vir, portanto, do investimento das empresas. “Mas como o endividamento das empresas também é alto, esse investimento virá em conta-gotas.”

Espírito Santo acrescenta, porém, que o crescimento projetado para 2017 não é garantido, graças às incertezas no cenário da economia internacional, principalmente com a chegada de Donald Trump à presidência dos EUA, e principalmente os desdobramentos da crise política brasileira.

“Não acho que o Trump vá jogar a plataforma de campanha no lixo. É provável que ele siga uma linha parecida com a do presidente Reagan”, avalia. O aumento do protecionismo e a possibilidade real de uma guerra comercial entre os Estados Unidos e a China podem trazer turbulências. “Os reflexos disso poderiam afetar a economia brasileira.”

O economista, porém, destaca que apesar do Fator Trump, as perspectivas externas são mais claras do que as do cenário doméstico. “É possível desenhar melhor os cenários, as cartas estão na mesa e a gente sabe mais ou menos o que pode vir. Não podemos dizer o mesmo da crise política brasileira”, lamenta. “Em 30 anos de mercado, nunca vi algo como está acontecendo agora. É um imbróglio de consequências absolutamente imprevisíveis para a economia e para o país”, conclui.