Política

Ex-presidente lidera as pesquisas de intenção de voto para 2018, apesar de ser réu em cinco processos, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Mas será que ele sobreviverá politicamente até as eleições?

(Foto: Valter Campanato/Ag. Brasil)

De São Paulo e Rio - A cada aparição pública, o ex-presidente Lula gosta de lembrar que “pode voltar” à presidência da República, sem esconder certo tom de ameaça a seus opositores. Com o PT em frangalhos depois das condenações de boa parte de suas lideranças em processos como os do Mensalão e Lava Jato, e a derrota retumbante nas eleições municipais de 2016, Lula soa como cartada derradeira do partido para tentar recuperar pelo menos parte do poder perdido.

Num cenário político tão incerto quanto fragmentado, o ex-presidente lidera as sondagens de intenção de voto em primeiro turno para 2018, batido num hipotético segundo turno apenas por Marina Silva (Rede). Venceria Alckmin e Aécio na margem de erro, principais alternativas do PSDB neste momento.

Na última pesquisa espontânea do Datafolha, divulgada na segunda semana de janeiro, Lula foi o nome mais lembrado, com 9% das citações contra 3% de Jair Bolsonaro, do PSC, segundo colocado. Aécio Neves (PSDB) fica em terceiro com 2%, seguido por Marina Silva (Rede), Michel Temer (PMDB), Ciro Gomes (PSB), Dilma Rousseff e até o juiz Sérgio Moro, com 1% cada.

Mas a mesma pesquisa espontânea aponta que o ex-presidente tem uma rejeição de 44%, a mais alta entre os nomes apresentados como “presidenciáveis”, empatado com o do atual presidente Michel Temer.

Marcelo Souza, diretor da MDA Pesquisas, observa que Lula ainda concentra forças entre os mais pobres, com menor escolaridade, na Região Nordeste e fora dos grandes centros urbanos. Ele acredita que as chances do petista em 2018 não podem ser desprezadas, especialmente contra políticos já conhecidos do eleitorado.

André César, da Hold Assessoria, vê poucas chances de Lula superar os efeitos da Lava Jato e se reeleger em 2018
André César, da Hold Assessoria, vê poucas chances de Lula superar os efeitos da Lava Jato e se reeleger em 2018 (Foto: reprodução TV Câmara)

“A população percebe que a corrupção atinge um grande número de políticos e partidos e, dentro deste cenário, as chances dele de fato existem”, avalia Souza. “Mas isso mudará caso Lula tenha pela frente algum adversário novo e com perfil ‘não político’, ou caso as denúncias avancem de forma a obter provas contundentes sobre sua participação em casos de corrupção.”

André César, cientista político e sócio-diretor da Hold Assessoria Legislativa, por sua vez, não acredita na capacidade de Lula manter a dianteira e voltar a se eleger nas eleições do final do ano que vem. “As pesquisas mostram Lula candidato forte neste momento. Mas estamos ainda a dois anos da eleição”, observa. Ele diz que o lançamento da candidatura do ex-presidente teria também como objetivo ajudar na sobrevivência do PT. “Mas diante das investigações da Lava Jato, que fecharam o cerco contra ele em 2016, há uma grande possibilidade de não haver viabilidade eleitoral para Lula na disputa a presidência.”

Apesar de ser réu em cinco processos sob a acusação de crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, entre outros, Lula só seria impedido de disputar a presidência enquadrado na Lei da Ficha Limpa em caso de condenação em segunda instância em órgão colegiado. 

Para Monica Herman Caggiano, professora de Direito Constitucional e Eleitoral da Universidade de São Paulo (USP), há ainda tecnicamente muito tempo para que, até 2018, o ex-presidente seja condenado e enquadrado na Lei Ficha Limpa. “Mas para torná-lo inelegível, essa condenação precisa vir de um órgão colegiado de segundo grau. E, por enquanto, mesmo o que está no Supremo Tribunal Federal, ainda está em primeira instância”, lembra.

Monica Herman Caggiano, da USP: ex-presidente pode cair na Lei da Ficha Limpa, embora para ela faltem provas mais contundentes
Monica Herman Caggiano, da USP: ex-presidente pode cair na Lei da Ficha Limpa, embora para ela faltem provas mais contundentes (Foto: reprodução Youtube/TCMSP)

Ela acredita que ainda faltem provas mais conclusivas de corrupção de Lula e da participação dele no esquema de corrupção envolvendo várias instâncias de seu governo e do PT. “Mas um dirigente máximo tem que saber o que acontece na sua casa. Se ele era o grande dirigente do partido pelo menos deveria ter conhecimento da conduta e de como o partido age sobre vários aspectos inclusive captação de fundos para sobreviver e para campanhas, que não são fáceis, nem baratos”, comenta.

A professora de Direito Eleitoral da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Vânia Aieta, por outro lado, acredita que a condenação em segunda instância em órgão colegiado dificilmente aconteceria em tempo de impedir Lula de se candidatar.

“Os processos começaram a correr agora, e normalmente esse tipo de ação leva tempo. A não ser que algum fato novo, como a apresentação de provas fortes e cabais contra ele, acelerasse o julgamento”, ressalta. “Fora isso, hoje, não há impedimento jurídico, pois não há condenação. Mesmo uma investigação de fatos ocorridos na eleição e que pudessem impedir a posse teria como prazo limite a diplomação do presidente.”

Memória e perdão

O cientista político e professor da PUC de São Paulo, Edison Nunes, pondera que Lula se beneficia neste momento de certa generosidade característica do eleitor brasileiro, e por isso permanece vivo numa eventual disputa eleitoral. “O eleitor brasileiro é generoso. As pessoas não só tendem a esquecer fatos, como também a interpretar os desvios de forma, às vezes, até ambígua”, avalia. Nunes cita como exemplo as trajetórias de Maluf e Jânio Quadros, que mesmo desgastados por denúncias, acabaram vencendo eleições. “Um político só estará morto no Brasil quando estiver morto fisicamente.”

Para Edison Nunes, cientista político da PUC-SP, Lula se beneficia da falta de memória e "generosidade" do eleitor
Para Edison Nunes, cientista político da PUC-SP, Lula se beneficia da falta de memória e "generosidade" do eleitor (Foto: divulgação)

Para o publicitário Guto Graça, sócio-diretor da empresa de pesquisas de mercado Data Script, Lula não compreendeu a própria dimensão e por isso fez opções erradas. “Ele chegou a ser citado como exemplo positivo em mais de 50 campanhas publicitárias pelo mundo. Poderia ter sido um Mandela. Mas preferiu o caminho de outros ex-presidentes brasileiros. Saiu de Mandela a Collor em menos de três anos”, calcula Graça.

Isso não quer dizer que o “produto” Lula esteja fora do prazo de validade, ainda mais em uma eleição em que os nomes esperam autorização para entrar em campo, e o jogo pode ser decidido pelo Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público antes mesmo de começar. “Se sobreviver aos escândalos, Lula tem chance de chegar a 2018 maior do que o PT e agregar nomes para sua campanha”, acredita Guto Graça.

O anti-Lula

As chances do candidato petista também dependerão do rol de adversários que terá de enfrentar nas urnas. “Lula construiu um patrimônio político sem ter tido rivais”, observa Graça. “Seus adversários foram o caseiro Francenildo, Joaquim Barbosa e Sérgio Moro. Em mais de uma década, não houve um anti-Lula de fato na política brasileira.”

Na avaliação do publicitário, “se Lula entrar em condições de disputa, diante do quadro frágil de uma oposição que não construiu um nome forte em 12 anos, sim, tem chance”, continua. “Isso se daria mais pelo ‘share of mind’ e pela debilidade dos nomes de oposição do que por ser uma ‘lenda viva’, como alguns tentam tratá-lo.”

Marcelo Souza, da MDA Pesquisas, concorda. Para ele, o adversário mais difícil para Lula é o “não político”. “Ou pelo menos algum político que consiga se mostrar com esse perfil e ainda que tenha sua atuação política pautada como bom gestor, além de conseguir passar ileso nas denúncias de corrupção”, aponta.

Ele cita ainda outros fatores que podem pesar contra ou a favor de Lula na balança da eleição. “As delações da Odebrecht, que ainda não vieram a público, podem incluir tanta gente a ponto de favorecer Lula”, diz. “Ou serem tão contundentes contra ele que tenham poder de sepultar de vez suas chances.” A popularidade do Governo Temer também deve ser levada em conta. “Quanto pior para Temer, melhor para Lula, em especial nas áreas econômicas e sociais."

Edison Nunes, cientista político da PUC, observa que a reação emocional do eleitorado favorece o ex-presidente. “A maior parte dos eleitores tem uma relação de amor e ódio com os políticos. E o Lula é o tipo de político que mobiliza símbolos extremamente poderosos na cultura brasileira, relativos à luta dos pobres contra os ricos. Não estou falando de classe social, mas da pobreza versus a riqueza, que se explica pelo desvio moral, pelo mal. Então, pode ficar o santo guerreiro contra o dragão da maldade”, diz o cientista político.

De santo a funcionário

No entanto, esse cenário muda pouco a pouco. “Estamos tendo uma rotação geracional. Principalmente os mais jovens aprenderam que o político não está lá para ser um ‘santo guerreiro’, mas para exercer uma função pela qual é pago”, argumenta Nunes. Por isso, a tendência é que os eleitores considerem mais a capacidade profissional dos candidatos para exercer um determinado cargo do que sua ideologia política.

Nunes aposta no crescimento de políticos como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que mesmo sem carisma e sem o apoio de parte do próprio partido, vem ganhando as eleições que disputa e conseguindo eleger quem ele apoia. “É um novo tipo de político que está surgindo. A mensagem das urnas elegendo Dória foi clara: chega do mesmo tipo de política, vamos trabalhar!”

Nesse sentido, a figura política de Lula seria afetada no longo prazo. “Não só a dele, mas todas as lideranças da geração que se constelou na imagem do heroísmo contra a ditadura”, conclui.