Política

A gigante estatal, epicentro dos esquemas de corrupção descobertos pela Operação Lava Jato, começa a recuperar a autoestima e a confiança do mercado

Do Rio - No começo de 2016, as ações da Petrobras haviam chegado a R$ 4,20. Era o ponto mais baixo numa trajetória de queda de mais de 80% em relação ao valor registrado em fevereiro de 2012. De lá para cá, no entanto, a estatal recuperou boa parte do valor perdido em bolsa. Mesmo sem chegar perto dos valores registrados no período de apogeu, as ações da companhia tiveram um ano de forte valorização. Em 31 de janeiro, estavam cotadas a R$ 15,02, uma alta de 257,6% em apenas 12 meses.

No curto prazo, a tendência projetada pelos especialistas financeiros continua de alta. “Não vamos ter uma valorização tão grande como tivemos em 2016, mas esperamos algo entre 20% e 25% ao longo do ano, à medida que a Petrobras começar a entregar bons resultados”, diz Marcos Saravalle, analista da XP Investimentos. Roberto Indech, analista da Rico CTVM também mantém recomendação de compra para os papéis da Petrobras. “Ainda há um potencial de valorização bastante alto, especialmente no médio prazo”, avalia.

A alta em bolsa, no entanto, não é o único sinal de que a confiança do investidor na Petrobras voltou. De janeiro a setembro de 2016, a companhia captou US$ 12,5 bilhões e amortizou US$ 26,2 bilhões, com destaque para a oferta de títulos no mercado de capitais internacional, no valor de US$ 9,75 bilhões, para recompra de títulos com vencimento entre 2017 e 2019. Esta operação levou a Petrobras a ser considerada a empresa que executou a melhor operação de gestão de dívidas no mercado internacional de capitais em 2016, recebendo o prêmio “Corporate Liability Management of the Year” da revista LatinFinance.

Sob nova direção: Pedro Parente implanta governança corporativa e melhora confiança na gestão da empresa
Sob nova direção: Pedro Parente implanta governança corporativa e melhora confiança na gestão da empresa (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Prioridade financeira

A recuperação da saúde financeira é uma das prioridades do Plano Estratégico e do Plano de Negócios e Gestão da Petrobras para o período de 2017-2021. Segundo a Petrobras, o objetivo é antecipar em dois anos a redução do nível de alavancagem (relação entre dívida e geração de caixa), que chegou à taxa de 5,3, em 2015, para 2,5 já em 2018. Com isso, seria possível melhorar a classificação de risco da companhia e reduzir os juros em novos empréstimos. O processo de alongamento começou 2017 com mais uma bem-sucedida emissão de US$ 4 bilhões em janeiro.

Tudo isso traduz mudanças importantes no cenário que a Petrobras enfrentava até o começo do ano passado. Além dos problemas de gestão e dos escândalos de corrupção, a empresa lutava contra a intervenção do governo em sua política de preços, a queda no preço internacional do petróleo e uma legislação restritiva, que aumentava excessivamente o volume de investimentos para Exploração e Produção.

A mudança na gestão da companhia depois dos escândalos de corrupção e do impeachment da presidente Dilma Rousseff foi bem recebida. No comando da Petrobras, Pedro Parente, ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Fernando Henrique, buscou implementar medidas de boa governança, que ajudassem a empresa a melhorar sua imagem depois do escândalo do Petrolão, e programas de corte de custos, que apontassem para uma gestão mais responsável na empresa.

De olho no core business

Parente também deu continuidade ao o programa de parcerias e desinvestimentos da Petrobras, buscando se desfazer de ativos fora do seu core business para liberar recursos para os projetos mais rentáveis. Isso significa, na prática, sair integralmente das atividades de produção de biocombustíveis, distribuição de GLP (gás de cozinha), produção de fertilizantes e petroquímica, além de parcerias em atividades como exploração e produção de petróleo, refino e distribuição.

Em 2015-2016, o programa totalizou US$ 13,6 bilhões, um bilhão e meio abaixo da meta estabelecida. “O não atingimento da meta deveu-se ao cumprimento, pela companhia, da decisão liminar da Justiça de Sergipe, impedindo a conclusão das negociações dos campos de Tartaruga Verde e Baúna, para as quais a Petrobras já estava em estágio avançado de negociação”, informa a estatal. Com isso, a meta do programa para o biênio 2017-2018 será automaticamente acrescida do valor que faltou, totalizando agora US$ 21 bilhões.

A mudança na regulamentação que obrigava a companhia a estar presente em todos os campos do Pré-Sal com no mínimo 30% de participação também foi positiva para a empresa. Respondendo perguntas enviadas por e-mail pela Gazeta Mercantil Experience, a Petrobras avalia que a medida dá direito à companhia de escolher se quer investir e se quer ser operadora. “Consequentemente, podemos participar apenas nos ativos com maior potencial. Essa mudança no marco regulatório vai intensificar a realização de parcerias com a indústria, além de atrair investimentos para o país.”

Barril em alta

A maré virou para a Petrobras também no mercado internacional. Depois de um período de forte baixa na cotação do petróleo, o preço do barril teve recuperação em 2016, e passou a se sustentar em uma cotação entre US$ 50 e US$ 60. O anúncio de um corte de produção pelos países da Opep em novembro do ano passado cria uma boa perspectiva de esse patamar se sustente por longo tempo.

“O preço não volta para o nível de 2011 a 2014, quando era cotado a US$ 100, mas cria um novo ponto de equilíbrio para a indústria global do petróleo”, diz Walter De Vitto, analista de Energia da Tendências Consultoria. Para Saravalle, a alta do barril em curto espaço de tempo ajudou a impulsionar a recuperação da Petrobras. “Esse preço, sem dúvida, dá mais fôlego à exploração do Pré-Sal”, assevera.

Para o Estado do Rio de Janeiro, a recuperação financeira da Petrobras é vital para a economia. Afinal, o setor petroleiro responde por cerca de 30% do PIB fluminense. Karine Fragoso, gerente de Petróleo, Gás e Indústria Naval do Sistema Firjan, no entanto, teme que essa oportunidade esteja em risco “No fim do ano passado, a Alerj (Assembléia Legislativa do RJ) votou um aumento de 7,5% para 12% no ICMS das empresas que atuam na cadeia produtiva do petróleo”, explica. “Com isso, o Rio de Janeiro perde competitividade para outros estados, como São Paulo e Espírito Santo. É um tiro no pé.”

Conteúdo nacional

Karine argumenta ainda a revisão da política de conteúdo nacional na cadeia produtiva da Petrobras deve ser feita com cuidado. “A indústria é competitiva da porta para dentro. Os principais problemas estão fora das empresas, nos tributos, na infraestrutura do país”, afirma. Segundo ela, quando se eliminam os fatores externos, a diferença média de custo dos equipamentos brasileiros em relação aos concorrentes estrangeiros é de 8%.

Enquanto espera que os investimentos da Petrobras provoquem uma reação positiva na indústria, Karine observa que novas oportunidades podem surgir com o programa de desinvestimentos da empresa. “Isso atrai outros players para o país e abre novas frentes de mercado, diversificando a carteira de clientes potenciais em áreas como Petroquímica, gasodutos ou exploração de petróleo on-shore.”

A Petrobras, por sua vez, defende a manutenção de uma política de conteúdo nacional, mas acredita que ela deve ser revista. “Entendemos que o melhor seria uma política orientada para que, futuramente, os fornecedores brasileiros possam concorrer em igualdade de condições com seus rivais de outros países. Para isso, é importante ter percentuais decrescentes de conteúdo local em vez de crescentes como os existentes hoje. Existe espaço para desenvolver uma política de conteúdo local inteligente e efetiva. A Petrobras tem poder de escala muito importante para ajudar nessa política”, conclui a empresa.