Política

Apesar de cair na Lava Jato, perder o controle de todas as suas empresas e ver até seu iate virar sucata, o ex-homem mais rico do Brasil ainda guarda uma bela fortuna

(Fernando Frazão/Agência Brasil)

Do Rio - O prédio abandonado de frente para a Baía de Guanabara é o testemunho da ascensão e queda do empreendedor brasileiro que prometia conquistar o mundo e chegar ao topo da lista dos homens mais ricos do planeta. O tradicional Hotel Glória, primeiro hotel cinco estrelas do país, que recebeu presidentes e celebridades em seus anos de esplendor, está com as portas fechadas e sua reforma foi paralisada há seis anos. O prédio tornou-se um foco de mosquitos, que atormentam os moradores da região.

Comprado por R$ 80 milhões em 2008, o Glória era símbolo de glamour no portfólio de Eike. A reforma, no entanto, empacou em 2013, quando a petroleira OGX, pediu recuperação judicial, dando início à derrocada do império. O empresário chegou a fechar a venda do hotel para o fundo suíço Acron, em 2014, por R$ 200 milhões, mas o negócio acabou não se concretizando. Dois anos depois, o ativo estava no pacote vendido ao Mubadala, fundo soberano de investimentos de Abu Dhabi, e um dos principais credores do grupo X.

Assim como o Hotel Glória, Eike Batista já viu dias melhores. Preso desde o último dia 30, quando se entregou à Polícia Federal no Rio de Janeiro, o empresário era considerado um símbolo do crescimento e do potencial da economia brasileira na virada da década passada. Entre 2010 e 2012, estava no topo do mundo. Dono da maior fortuna do país, fazia parte do seleto clube dos bilionários mundiais, chegando à 7ª posição no ranking da Forbes em 2012, com US$ 34,4 bilhões em ativos.

Usina térmica de Pecém, da MPX, de Eike: vendida a alemães da E.On e rebatizada Eneva
Usina térmica de Pecém, da MPX: endividada, teve que ser vendida a alemães da E.On e foi rebatizada Eneva (Foto: divulgação MPX)

Em apenas quatro anos, havia quintuplicado seu patrimônio, em uma ascensão meteórica. O céu parecia o limite para um grupo de empresas que anunciava investimentos de US$ 15,7 bilhões em 2011, e projetava outros US$ 50 bilhões nos dez anos seguintes. A queda foi igualmente rápida. O pedido de recuperação judicial da OGX – que chegara a captar R$ 6,7 bilhões com o lançamento de suas ações em bolsa – demoliu as pretensões do empresário. Em julho de 2013, perdeu a designação de bilionário, e em outubro daquele ano somava pouco mais de US$ 70 milhões.

Viagra genérico

Nos anos seguintes, acossado pelas dívidas do grupo, Eike tentou se reerguer, buscando investidores para os mais diversos negócios. Tentou criar startups para lançar uma nova marca de pasta de dente, para criar um genérico do viagra, mas os investidores haviam perdido a fé no seu toque de midas.

Do antigo império X, restou muito pouco nas mãos do empresário. A dívida de R$ 13,8 bilhões da OGX, transformada em OGPar, foi convertida em ações como pagamento aos credores. O processo de conclusão da recuperação judicial deve ser encerrado em abril. Eike ainda detém pouco mais de 50% das ações da holding, mas ao final do processo sua participação ficará reduzida a 1,29%.

A companhia, que foi o pivô da quebra do grupo EBX, ainda enfrenta dificuldades. Com prejuízo de R$ 55,6 milhões entre janeiro e setembro de 2016, a OGPar teve de paralisar a produção de seu único campo em operação, entre março e julho do ano passado, por inviabilidade econômica.

Dentre as empresas de Eike Batista, a OSX, braço de construção naval do grupo, foi a mais afetada pela quebra da OGX. Em janeiro de 2016, o fundo Mubadala comprou 29% da companhia, como parte do acordo com o empresário brasileiro. Em 2012, os árabes haviam investido US$ 2 bilhões nas empresas do grupo, tornando-se os maiores credores de Eike, que ainda detém 49,5% da OSX, que segue em recuperação judicial.

A mineradora MMX, por sua vez, foi dividida em três operações: MMX Corumbá, MMX Sudeste e Porto Sudeste. A Corumbá continua em recuperação judicial. Os demais ativos foram vendidos para o Mubadala, em parceria com a multinacional Trafigura. As duas empresas devem injetar R$ 70 milhões na MMX Sudeste, para o pagamento de credores. Já a MPX, braço de energia do grupo, foi vendida para a alemã E.On, e passou a se chamar Eneva. Em junho do ano passado, a empresa saiu da recuperação judicial, reestruturando uma dívida de R$ 2,33 bilhões.

Outro projeto emblemático de Eike Batista, o Super Porto do Açu, em São João da Barra, no litoral fluminense, também mudou de mãos. A empresa de logística LLX, dona do ativo, foi vendida para o fundo americano EIG por R$ 1,3 bilhão e se transformou na Prumo Logística. Os investimentos somados na implantação do projeto, que hoje conta com 11 terminais em operação, já passa dos R$ 10 bilhões. Os árabes também detém uma fatia do negócio, mas a participação de seu idealizador não passa de 1%.

No auge do sucesso, a diversificação dos negócios do grupo X chegou a segmentos como turismo e entretenimento. Por meio da IMX, o grupo fez parte do consórcio que arrendou o estádio do Maracanã, em parceria com a Odebretch. Em 2015, Eike vendeu seus 5% no estádio para a empreiteira e passou o controle da IMX para os árabes. Já a MGX, que detinha a concessão da Marina da Glória desde 2009, foi 100% vendida para a BR Marinas, em 2013.

Sucata em São Gonçalo

Enquanto o Grupo EBX desmoronava, Eike viu ainda um dos símbolos mais sofisticados de seu império ir para o ferro velho. No auge da crise, para reduzir gastos, o empresário tentou vender o iate Pink Fleet, usado em passeios de luxo e eventos corporativos na Baía de Guanabara, mas não encontrou compradores.

A embarcação, que custou US$ 19 milhões, chegou a ser oferecida em doação para a Marinha brasileira, que recusou o presente por causa do alto preço para converter o iate em navio militar. Com isso, o Pink Fleet foi levado para um estaleiro em São Gonçalo (RJ), onde vai ser transformado em sucata.

Iate milionário de Eike Batista: sucata depois do insucesso na venda
Iate milionário de Eike Batista: sucata depois do insucesso na venda (Foto: Polícia Federal)

Ironicamente, a situação financeira de Eike Batista é hoje mais confortável do que nos anos de crise que antecederam suas prisões. Com a redução das dívidas que o transformaram no primeiro bilionário negativado do mundo, o empresário viu sua riqueza voltar a crescer. Segundo o último índice Bloomberg Billionaires, Eike possui umafortuna de aproximadamente US$ 100 milhões.

Isso talvez explique a manutenção da qualidade de vida da família, como exibido nas recentes férias do filho de Eike, Thor Batista. Segundo o jornal O Globo, ele viajou na virada de ano com a namorada para Londres e hospedou-se na suíte master do Shangri-Lá Hotel, cuja diária publicada em site na internet chegaria a R$ 39 mil. Ao voltar do passeio, Thor procurou o jornal para mostrar recibos segundos os quais ele teria pago muito menos: R$ 52 mil por 11 diárias.

Os US$ 100 milhões que ainda sobram a Eike, porém, são insuficiente para colocá-lo entre os 500 mais ricos do mundo e aparentemente estarão fora de seu alcance enquanto permanecer na prisão por acusações cada vez mais cheias de evidência sobre sua participação em esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro.