Política

Em crise, o Rio de Janeiro até agora não cumpriu a promessa de reaproveitar as instalações das Olimpíadas. Arenas abandonadas nada lembram o que foi exibido ao mundo no ano passado. Mídia internacional critica o descaso.

(Reprodução: Bored Panda e La Vanguardia)

Do Rio de Janeiro -- Até agora o contraste entre a expectativa pelo legado olímpico no Rio de Janeiro e a realidade encontrada pela população carioca nas instalações esportivas é no mínimo decepcionante. Do Maracanã subaproveitado à deterioração das Arenas esportivas, não faltam motivos de frustração e temor de que a cidade esteja mais próxima do cenário de Atenas do que de Barcelona.

A situação mais grave é a do Parque Radical de Deodoro. A promessa era a de convertê-lo na segunda maior área de lazer da cidade, atrás apenas do Parque do Flamengo, para atender uma região carente de opções. No entanto, as melhorias não foram realizadas e instalações como a pista de Mountain Bike e o circuito para Canoagem Slalom estão em péssimo estado, apenas oito meses depois do encerramento dos Jogos.

Um grupo do Comitê de Esportes da Câmara Municipal do Rio de Janeiro visitou o local e conta que não há banheiros e as placas de sinalização foram roubadas. As quadras poliesportivas prometidas ainda não saíram do papel. “É uma vergonha. Só o Parque de Deodoro consumiu um investimento de R$ 700 milhões”, lamenta Felipe Michel, presidente do Comitê de Esportes da Câmara Municipal.

Sem condições

O Parque Radical chegou a abrir ao público em setembro de 2016, mas encontra-se fechado desde o fim do ano passado, quando a empresa que administrava o local encerrou suas atividades. Abandonada, a instalação passou para o controle da Prefeitura em fevereiro. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, Esportes e Lazer, foram providenciados serviços para limpeza e segurança do Parque e uma nova licitação está sendo preparada, havendo recursos para manter as instalações depois da reabertura. “Hoje, o Parque Radical não oferece as condições necessárias de segurança para que seja reaberto. Estamos falando de um parque aquático moderníssimo, com corredeiras e mais de 50 milhões de litros de água. Precisamos ter uma série de cuidados para que funcione sem qualquer tipo de risco para a população”, respondeu a Secretaria, por e-mail.

Estádio Aquático, ao ser entregue antes do início dos jogos: reaproveitamento para população de baixa renda ainda não saiu do papel (Foto: Rio2016)

Já o Parque Olímpico da Barra, onde se concentrava o maior número de instalações olímpicas, está aberto ao público, mas a decepção é evidente. Apenas uma parte, administrada pela Prefeitura, foi reaberta, mas apenas nos sábados e domingos. Não há ciclovia ou pista de atletismo como foi prometido. A estrutura nova se limita a um campo de grama sintética, duas quadras de esportes e equipamentos de ginástica. Não há água ou banheiros para os frequentadores.

Piscina transferida

“Os equipamentos são novos, mas é muito pouco para o transtorno provocado por três anos de obras”, lamenta Luciano Dias, presidente da Associação de Moradores de Villas da Barra, nos arredores do Parque. O projeto de reaproveitamento das instalações também previa o desmonte do Estádio Aquático, que seria convertido em dois centros de treinamento para natação em outros locais, dentro do conceito de “arquitetura nômade”. As duas piscinas já foram desmontadas e uma delas foi levada pelo Exército para o Forte de São João, onde servirá para treino de atletas de alto rendimento. A outra piscina ainda não tem local definido para a instalação.

A Arena 3 do Parque Olímpico também está sob responsabilidade do município. A Prefeitura mantém o projeto de construção de uma Escola Municipal e de um Centro de Treinamento Olímpico para crianças. “A ideia é observar vocações esportivas específicas. “Essas crianças estarão, antes da ida para o Centro, nas 22 vilas olímpicas e nos núcleos esportivos do município”, informa a Secretaria de Educação, Esportes e Lazer.

Atualmente, 16 vilas estão fechadas esperando uma nova licitação. Havia esperança de que pudessem ser reabertas no começo de abril, mas isso não aconteceu. Segundo a Secretaria, o processo licitatório é demorado e deveria ter sido feito antes do término dos contratos.

Desmontagem sem prazo

O restante das instalações do Parque está nas mãos do Ministério dos Esportes, do COB e de empresas privadas. O Centro de Tênis, que seria convertido em espaço para treinamento, está sendo aproveitado para outros eventos, como a etapa do Circuito Mundial de Vôlei de Praia. Já a Arena do Futuro, que seria desmontada e convertida em quatro escolas, continua de pé. Não há prazo para a execução desse projeto, assim como para a desmontagem e reaproveitamento dos Centros de Imprensa e de Mídia.

Vista geral do Parque Olímpico, que orgulhou os brasileiros durante os Jogos: nem arquitetura nômade e nem uso das arenas para estudantes (Foto: Rio2016)

Outra obra olímpica que gerou polêmica foi a criação do campo de golfe, na Barra da Tijuca, construído em área de preservação ambiental. O campo é uma das instalações olímpicas mais bem conservadas. Em dezembro, a Confederação Brasileira de Golfe assinou um contrato com a CRF para gestão da área. “A empresa fará os investimentos necessários para tornar o campo sustentável economicamente”, diz Euclides Gusi, presidente da CBG. Segundo ele, o campo será sustentado como toda cancha de golfe pública. “Com as receitas de green fee (taxa cobrada dos golfistas para jogar 18 buracos), aulas, aluguel de carrinhos, restaurante, loja de golfe, competições e eventos da modalidade, e eventos em geral”, explica. Por enquanto, a operação ainda é em modelo de soft opening, ou seja, só o campo está em funcionamento.

Golfe turístico

Há esperança de integrar o campo da Barra ao circuito de competições internacionais e de turismo de golfe. Logo depois dos Jogos, o campo sediou o Aberto do Brasil, torneio do PGA Tour Latinoamérica, principal circuito do continente, além de diversos torneios amadores. “Estamos programando eventos mensais para atrair turistas”, diz Gusi. Ele acredita que o campo aberto ao público pode difundir o esporte no país. “A existência de um campo público é vital, pois o interessado em golfe não precisa se tornar sócio de um clube para praticar a modalidade”.

Enquanto tenta não deixar o legado olímpico se esfacelar, o Rio de Janeiro continua na luta para atrair novos eventos esportivos. No último dia 3 de abril, a cidade comemorou a indicação como cidade-sede do Americas Masters Games 2020, o Panamericano de Masters, que reunirá 10 mil atletas durante 10 dias. Além disso, prepara o lançamento da candidatura a cidade-sede dos Gay Games 2026.

Continuidade e longo prazo

O Rio será cidade olímpica até 2020, quando o título passa para Tóquio. O Master Games dá continuidade a esse projeto e as instalações já construídas são nossa principal vantagem para atrair esses eventos”, explica Michael Nagy, diretor comercial do Rio Convention and Visitors Bureau.

Para Nagy, o Rio de Janeiro tem toda condição de evitar o destino de Atenas e construir um legado mais duradouro como polo esportivo global. “Esse trabalho não é feito da noite para o dia e precisa do envolvimento dos três níveis de governo e também do setor privado”, argumenta. “Londres levou quatro anos para aproveitar de fato suas instalações esportivas depois dos Jogos”.