Política

O presidente surpresa dos Estados Unidos descobre, durante os seus primeiros 100 dias de governo, que nem tudo o que ele pretende fazer é possível e que nem sempre seu país estará em 1º lugar

(Foto: Avi Ohayon/GPO)

De São Paulo -- Numa entrevista ao jornal The New York Times em março de 2016, Donald Trump foi questionado se o termo “America First”, usado no início do século XX, traduzia sua visão de política externa de que outros países se aproveitavam dos Estados Unidos. “Correto”, respondeu. E completou: “Eu não sou um isolacionista. Sou America First. Eu gosto dessa expressão”. Assim, de uma hora para outra, a frase virou slogan de sua campanha.

Ao eleitorado, Trump explicou que “America First” - Os Estados Unidos em primeiro lugar, numa tradução livre – significava o país voltar a ter respeito no plano internacional, uma crítica a Barack Obama. Prometeu defender os cidadãos dos terroristas e da perda e de países como China e México por tirarem empregos dos norte-americanos. Tudo isso, para manter o país uma superpotência.

Ao mesmo tempo, disse que os EUA não poderiam patrulhar o mundo eternamente. Chamou de obsoleta a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar multilateral, e disse a aliados como Alemanha, Israel e Japão que deveriam cuidar da paz em suas regiões de influência.

Parece contraditório querer ser a superpotência e não patrulhar o mundo? E é, mas uma pesquisa do Pew Research Center divulgada há um ano mostrou que 70% dos eleitores queriam um presidente com mais foco em assuntos internos do que nos externos e queriam ver os EUA como a única potência militar.   

Nas últimas décadas, a política externa dos EUA passou por mudanças, indo de mais a menos incisiva. Mas buscou transitar dentro da nova ordem internacional que o próprio país ajudou a construir: um mundo com regras, mais aberto e liberal e com os EUA apoiando seus aliados. 

A "mãe" de todas as bombas, lançada contra reduto do Estado Islâmico no Afeganistão (Foto: U.S. Department/Youtube)

A política externa de Trump seria melhor compreendida se fosse melhor explicada. Ocorre que parece uma colcha de retalhos montada com conhecimentos vagos, “achismos” e, tão arriscado quanto, certezas absolutas. Ele já desmereceu a experiência dos diplomatas em entender nuances e tomar decisões, dizendo que sua experiência como empresário o faz ser um bom negociador na esfera das relações internacionais.  

Os primeiros 100 dias de governo deveriam ter sinalizado melhor para onde vai sua política externa, mas não foram de muita ajuda. Incluiu do interesse de se aproximar do controverso presidente russo, Wladimir Putin, com quem os EUA não andam muito bem, à construção de um muro na fronteira do México e à depreciação de acordos ambientais.

Ao mesmo tempo, há alguns sinais de que Trump pode estar se dando conta de que o mundo não é branco e preto e que tem muitas nuances. E pode estar dando ouvidos a seus conselheiros, como o de segurança nacional e o secretário (ministro) de defesa.

Assim que assumiu, Trump cumpriu sua promessa e retirou o país da Parceria Transpacífica (TPP, em inglês), um tratado de livre comércio entre o país e 11 economias, incluindo China e México que ainda não havia entrado em vigor nos EUA. O presidente sempre acusou acordos de comércio de tirarem empregos dos norte-americanos. Quanto ao Nafta, o acordo com o México e Canadá, ameaçou sair, mas agora diz estar disposto a renegociá-lo. Em vigor há 20 anos, há ganhadores com o acordo nos EUA e isso complica uma saída. Envolve mais interesses e simplesmente decidir sozinho não é tão fácil.

Por enquanto, nem sinal de novos acertos comerciais. Para o Brasil, o caminho para uma maior aproximação entre os dois países, com medidas para facilitação de comércio e de investimentos e em outras áreas como educação, deve ocorrer por outros canais oficiais que não a Casa Branca. Embora Trump e o presidente Michel Temer tenham se falado duas vezes por telefone, as conversas foram generalistas. No mapa da América Latina, Trump hoje só tem olhos para México, Cuba e Venezuela. O que pode não ser de todo mau para o Brasil.

Também logo no início de mandato, Trump tentou duas vezes e sem sucesso baixar decretos barrando a entrada de pessoas de países de maioria muçulmana e refugiados. De um lado tenta barrar quem foge até da guerra da Síria. De outro, bombardeia o país porque se disse impactado pelas cenas de crianças atingidas pelo ataque com arma química pelo presidente Bashar al-Assad.

Fato é que na sequência atacou o ISIS no Afeganistão e posicionou um arsenal naval próximo à Coreia do Norte, em resposta a suas ameaças de atacar aliados dos EUA – Japão e Coreia do Sul. Esses três movimentos armados parecem mostrar que a Casa Branca quis mandar um recado a quem possa interessar: os EUA continuam dispostos a patrulhar o mundo, proteger seus aliados e usar seu arsenal de guerra.

A dúvida é: Trump exagerou nas promessas de campanha ou, o que é mais provável, está escutando sua experiente equipe de defesa e segurança? Possivelmente, mudanças de ideia e manutenções de políticas de Obama podem surgir no seu mandato à medida que o presidente entenda que governar a nação mais poderosa do mundo é mais complicado do que jogar War.

Afinal, como disse o primeiro ministro Winston Churchill, “pode-se ter uma política audaciosa ou pode-se seguir uma política cuidadosa, mas é um desastre tentar seguir uma política audaciosa e cuidadosa ao mesmo tempo. É preciso que seja uma ou outra”.