Política

Temer resiste ao primeiro impacto das denúncias, mas a grande preocupação nacional é a incapacidade do governo em seguir com as reformas na economia diante do caos político

(Foto: Fabio Barata/PR)

De São Paulo - O presidente Michel Temer fez o seu pronunciamento à nação na TV na quinta-feira, 18/05, e anunciou veementemente: “Eu não vou renunciar.” Ele começou a fala dizendo que seu governo viveu na semana o seu melhor e seu pior momento. Primeiro, ressaltou os avanços da economia, que nas últimas semanas esboçou uma recuperação à recessão. Temer citou o recuo da inflação e a redução da taxa básica de juros como sinais de melhoria sob a batuta da equipe econômica, comandada pelo ministro Henrique Meireles.

Os bons resultados econômicos dominaram o discurso de Temer e seu governo dias a fio até a noite de quarta-feira, quando o jornal O Globo antecipou parte das denúncias e das gravações bombásticas a respeito das relações nada republicanas entre o presidente e o dono do Grupo JBS.

Nos dias seguintes, as gravações de vídeos e áudios das delações dos irmãos Joesley e Wesley Batista vieram à tona e obtiveram ampla cobertura da impressa envolvendo não só Temer e o senador Aécio Neves, protagonistas do primeiro impacto, mas também Lula, Dilma, Mantega, Eduardo Cunha e uma série de parlamentares, ministros de estado, juízes e procuradores.

Ainda na quinta-feira, Temer viu sua situação se complicar, quando o ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de inquérito para investigá-lo, atendendo ao pedido feito pela Procuradoria Geral da República (PGR). Com isso, Temer passou formalmente à condição de investigado na Operação Lava Jato e desde então, ele se reúne permanentemente com os aliados mais próximos, avaliando periodicamente as possibilidades de defesa  e de manutenção no poder.  

A partir do conteúdo bombástico das denúncias, o esforço do governo Temer para dar andamento as reformas da Previdência e Trabalhista praticamente se dissipou. Nas delações da JBS, baseadas em farta documentação, áudios e vídeos, os irmãos Batista assumiram abertamente os vários crimes e contravenções por parte da empresa, mesmo com a operação Lava Jato em pleno vapor.

No áudio no qual Joesley gravou Temer fora da agenda presidencial e em fim de noite no Palácio Jaburu, residência do presidente, o empresário elenca uma lista diversa de irregularidades e ações criminosas nas relações com o próprio governo, como a compra de silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, controle sobre juízes e desembargadores, demonstrando uma intimidade com o mais alto poder do país que até então não se tinha capturado em vídeo, ou áudio, na Lava Jato.

Temer, pelo que se percebe na gravação de voz, não assumiu uma postura de repreensão aos relatos do empresário. Pior ainda, não denunciou para autoridades o que ele acabara de ouvir. Em seu discurso, Temer limitou-se a negar a sua participação, negou o aval à compra de silêncio de Cunha, e enfatizou que tudo será esclarecido durante as investigações. Ele também pediu que haja o máximo de rapidez na apuração dos fatos.

Mas, com a divulgação dos áudios de Joesley Batista no dia seguinte, a fragilidade política de Temer ficou exposta e as consequências vieram a galope. Mesmo aliados já duvidam da sua habilidade de mobilizar a base parlamentar para manter a agenda das reformas. O ministro da Cultura, Roberto Freire, do PPS, foi primeiro a entregar o cargo. O PSDB ainda se mantém no governo, mas outros partidos menores também indicam que vão abandonar o barco.

A crise política aguda gerada nos últimos dias põe a recuperação da economia brasileira em risco. O país volta a viver a sombra da hecatombe fiscal, que já assola estados como o Rio de Janeiro e Minas Gerais, e pode se estender pelo resto do pais mais rapidamente do que se esperava.

Diante da situação, o principal e mais instantâneo termômetro do humor do mercado, a bolsa de valores despencou na quinta-feira. Já no início do pregão, o índice Bovespa caiu 10%, obrigando a o acionamento do “circuit braker” (mecanismo que permite, na hipótese de oscilações mais bruscas nos preços dos ativos negociados, que as ordens de compra e de venda sejam paralisadas, com o objetivo de proteger  os investidores  em momentos atípicos do mercado). A bolsa acabou fechando em 8,8% negativos, e muitos investidores correram para segurança do dólar, que teve alta expressiva de 7,83%, cotado R$ 3,38.

O pânico ocorrido entre os operadores e investidores no dia seguinte das revelações não acontecia desde a crise mundial de 2008. Já no dia seguinte (19/04) a Bolsa recuperou pequena parte das perdas, com alta de 1,69%, indicando que acredita, ainda que parcialmente, numa saída controlada do caos político.

Segundo a maior parte dos analistas dos principais bancos e gestoras de recursos do país, generalizou-se a percepção do mercado de que Michel Temer não tem mais condições de levar adiante a agenda de reformas, em última instância, a sua principal missão de governo-ponte.

Sem elas ,o país e o mercado continuarão nervosos e paralisados, ao sabor das delações, da capacidade de Temer de responder as acusações, de uma eventual renúncia e dos muitos pedidos de impeachment que se acumulam na mesa-diretora da Câmara. Sem contar que o presidente ainda pode cair no julgamento da chapa pelo TSE.