Política

A demissão do ex-ministro Osmar Serraglio desencadeou uma série de eventos que trouxe consequências indesejáveis para o presidente Michel Temer. Sua principal preocupação é a possível a delação de Rocha Loures e avanço das investigações na direção do ex-coronel Lima.

Ex-assessor da presidência e ex-deputado federal, Rocha Loures está preso e é o mais novo objeto de desejo da força tarefa da Lava Jato para fazer um acordo deleção premiada. Temer e Loures são investigados pelo inquérito aberto após a Operação Patmos, que apura suspeitas de corrupção passiva, obstrução da Justiça e organização criminosa, acusações baseadas na delação de Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, e de outros executivos da empresa.  

Se Loures resolver abrir o verbo sobre como era a sua relação com Temer, o presidente se deparará com uma situação nunca antes enfrentada na Lava Jato: um delator muito próximo do círculo do poder que pode incriminá-lo diretamente. Nesta categoria de “intimidade”, só Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara, tem o mesmo condão de comprometer Temer.      

É consenso entre vários analistas políticos que o presidente cometeu um erro estratégico brutal ao demitir Serraglio no dia 28 de maio. O recém demitido ministro da Justiça retornou à Câmara, reassumiu seu mandato de deputado federal e, automaticamente, fez com que Loures perdesse a imunidade parlamentar. Não demorou uma semana para que Loures fosse preso por determinação do ministro Edson Fachin, que é relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). A falta de sensibilidade de articulação de Temer foi tão latente, que, recentemente, até Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, comentou entre amigos que o presidente havia errado feio, disparando um tiro que saiu pela culatra ao demitir Serraglio, segundo o relato do jornalista Gabriel Mascarenhas à Veja.com.

A prisão de Loures se deu no dia 03 de junho. Ele foi encaminhado à Superintendência Regional da PF em Brasília e, desde então, sua delação premiada vem sendo cantada aos quatro ventos. Pessoas ligadas a Loures, dizem que a maior pressão vem de sua mulher, que está grávida. Outro fator que pode ser considerado, são os horrores de uma vida em reclusão, na qual os cabelos são raspados, desfigurando homens que até então gozavam de poder e dinheiro. Preocupado com esta última possibilidade, Loures pediu em petição ao STF para não ter os cabelos raspados, caso fosse transferido para uma penitenciária. Com isto, é claro que ele imediatamente virou piada e meme nas redes sociais. 

 

 

Rocha Loures ocupa cargos de confiança desde 2015, quando Temer era vice-presidente. foto: divulgação assessoria de Rocha Loures 

Silencio garantido pela Constituição 

Em 09 de junho de 2017, Temer e Loures compartilharam um dia de negação e silêncio. Logo pela manhã, Rocha Loures foi encaminhado ao edifício-sede da Polícia Federal em Brasília para prestar seu primeiro depoimento após sua prisão. Orientado por seus advogados, Loures invocou o seu direto constitucional de se manter em silêncio, se recusando a responder às perguntas dos dois delegados.

Em sintonia com seu ex-assessor, na tarde do dia 09/06, a defesa do presidente Temer protocolou uma petição no STF desqualificando as 82 perguntas enviadas pela Polícia Federal, que pediam o esclarecimento de situações descritas no conjunto de delações encabeçadas por Joesley Batista, e de outros executivos da empresa. Além da recusa em responder às perguntas, a defesa pediu ainda o arquivamento do inquérito.

A defesa de Loures declarou que a prisão dele ocorreu apenas para “forçar uma delação”, acrescentando que “talvez solto”, Loures poderia ser mais simpático e cogitar a ideia de colaborar com a Justiça, através de uma delação premiada. A prisão de Loures foi solicitada por Rodrigo Janot, que sustentou que a reclusão do ex-assessor era “imprescindível para a garantia da ordem pública e da instrução criminal”. Na denúncia feita ao STF, Janot descreve Loures como “homem de confiança do presidente Michel Temer” e destaca que existem fortes indícios de que o ex-assessor agia para atrapalhar o andamento das investigações.

Já a defesa do presidente Temer, produziu um documento com 14 páginas dirigidas ao ministro Fachin, apresentando 48 razões para Temer não responder às questões da PF. Os advogados alegaram que o presidente foi "coadjuvante de uma comédia bufa, encenada por um empresário e criminoso confesso e agora está sendo objeto de uma inquirição invasiva, arrogante, desprovida de respeito e do mínimo de civilidade.". Em ato contínuo de ataque ao trabalho policial, eles afirmaram que "O questionário é um acinte à sua dignidade pessoal e ao cargo que ocupa, além de atentar contra vários dispositivos legais, bem como contra direitos individuais, inseridos no texto constitucional.".

Os advogados de Temer ainda alegam que o presidente está sendo "alvo de um rol de abusos e de agressões aos seus direitos individuais e à sua condição de mandatário da Nação que colocam em risco a prevalência do ordenamento jurídico e do próprio Estado Democrático de Direito.". Adotando esta linha, Temer começa a soar como sua antecessora, Dilma Rouseff, que ao invés de se concentrar na sua defesa individual, e rebater ponto a ponto às acusações, preferiu adotar uma defesa genérica, na qual ela se colocava como vítima dos inimigos golpistas da democracia. No final, deu no que deu. Ela sofreu o impeachment e deixou o seu legado em forma de crise política e econômica sem precedentes.  

O trabalho da PF continua. Agora o alvo é o ex-coronel João Baptista Lima Filho, amigo de longa data do presidente Michel Temer. Em e-mail encontrado na casa Lima, há uma indicação de que ele pode ter cuidado de despesas da reforma da casa de Maristela de Toledo Temer, filha do presidente, feitas entre 2014 e 2015, em sua casa em São Paulo. No questionário da PF, cinco perguntas são direcionadas ao relacionamento entre Coronel Lima e Temer. O foco é na função de Lima como arrecadador de campanhas e recebedor de recursos provindos da JBS.    

O efeito dominó começou com a demissão de Serraglio,  Loures permanece preso e pressionado a delatar, Temer vai se esquivando das respostas e dos amigos e Joesley tenta manter o seu acordo de delação para tocar os seus negócios em seu apartamento na 5º avenida em Nova Iorque.