Política

O presidente francês, Emmanuel Macron, em num raro discurso às duas casas do parlamento francês feito no palácio de Versalhes, prometeu uma "profunda transformação" da França e da Europa, pedindo o fim do derrotismo e do "cinismo".

 

Londres - Macron, que vem utilizando o bordão “fazer nosso planeta grande novamente”, se coloca como um inovador tanto na política interna quanto na diplomacia internacional. Seu bordão é uma clara contraposição a decisão de Donald Trump de retirar os Estados Unidos do acordo climático de Paris. Lembrando que Trump, em seu estilo nacionalista, utilizou “fazer a América grande de novo” em sua campanha presidencial.

No seu discurso de noventa minutos, bem ao estilo do Estado da União (discurso do presidente americano que acontece tradicionalmente nos Estados Unidos), Macron reiterou suas principais propostas de campanha para mudar as leis trabalhistas francesas e rever o funcionamento do parlamento, exigindo que os legisladores suportem suas inciativas e silenciem "o cínico que reside em todos nós ".

Macron repetiu sua promessa de reduzir em um terço o número de membros do parlamento e afirmou que, caso o parlamento não aprove sua iniciativa, ele convocará um referendo popular sobre a questão. Outra “cutucada” no parlamento Francês é a promessa de dar aos cidadãos mais poder para usar petições para colocar assuntos-chave e de interesse popular na agenda de discussão dos parlamentares. Segundo ele, e sem dar mais detalhes, a medida adicionará uma "dose" de representação proporcional ao parlamento francês.

O estado de emergência na França, em vigor desde os ataques terroristas de Paris em novembro de 2015, seria revogado no outono francês, mas, Macron, depois que advogados de direitos humanos se manifestaram preocupados, revisará esta posição e prometeu novas leis antiterroristas supervisionadas por juízes.

Outro assunto abordado, foi a crescente e persistente desigualdade da população francesa. Macron prometeu acabar com o desequilíbrio social e declarou que isto na França é ainda um problema que deixa as pessoas "presas" por suas "origens sociais".

Macron, que é um centrista pró União Europeia (UE), demonstrou-se entusiasmado com a necessidade de reinventá-la, especialmente, após Brexit (saída da Reino Unido da UE). Ele disse que a desistência dos britânicos foi um "sintoma" de um "fracasso ... que devemos ter a coragem de enfrentar de frente". Sobre isto, ele acrescentou: "Os últimos 10 anos foram cruéis para a Europa" e "Nós administramos crises, mas perdemos o nosso caminho". Ele enfatizou: "Eu acredito firmemente na Europa. Mas não acho injustificado o ceticismo ".

O presidente francês, Emmanuel Macron, fala durante um congresso especial reunindo ambas as casas do parlamento (Assembleia Nacional e Senado) no palácio de Versalhes (foto: AP)

 Em parceria com a Alemanha, Macron anunciou que ambos países lançarão "convenções democráticas" em toda a Europa até o final de 2017, com o objetivo de discutir o futuro da UE. Estas convenções funcionariam como uma forma de debates nacionais sobre as questões da UE e visam criar caminhos para "refundar a Europa". Cada país-membro seria "livre para assinar ou não, mas não há mais tempo para soluções apressadas".

Mesmo com toda “pompa e circunstância” e importância simbólica que Macron deu ao evento, alguns deputados da oposição de esquerda boicotaram a reunião no imponente palácio de Versalhes, acusando o novo presidente de querer impor uma nova “monarquia”. Os críticos consideraram que a escola do local, a antiga sede dos reis franceses, era provocativa e causou raiva entre os esquerdistas e a preocupações sobre os custos entre alguns centristas.

Macron fez o discurso em um momento crucial do seu governo iniciante. No dia anterior, o primeiro ministro, Édouard Philippe, apresentou em seu discurso de início de trabalhos ao parlamento os detalhes sobre as reformas estruturais propostas pelo governo, incluindo as mudanças para afrouxar o código trabalhista francês para facilitar as regras de contratação para as empresas.

Macron segue com capital político em alta e está usando sua popularidade de início de governo para tomar medidas de contenção dos gastos públicos. Através de Philippe, ele já começou a atacar o déficit do Estado Francês que, se não for diminuído, pode se tornar um problema para e execução de sua agenda reformista, que ficará sem recursos para a implementação.