Política

Inquérito da PF sobre a organização criminosa chamada de "PMDB da Câmara", aponta indícios de recebimento de propinas, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Temer teria recebido R$ 31,5 milhões e o delator Lúcio Funaro aponta mais R$ 13,9 milhões em recursos ilegais 

 

São Paulo - A Polícia Federal (PF) enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira, 11/09, o inquérito que investiga um braço da organização criminosa, ou “ORCRIM” no jargão policial, chamada de “Quadrilhão”, chefiada pelo PT e com participação ativa do PMDB e PP. O relatório da PF enfoca as atividades criminosas do “PMDB da Câmara”, que é formado por um grupo de deputados e ex-deputados do partido e supostamente é chefiado pelo presidente Michel Temer (PMDB).  

Segundo a PF, a ORCRIM conta ainda com os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência) e Geddel Viera Lima (ex-ministro preso), que, em conjunto atuavam como “longa manus” de Temer na arrecadação de recursos ilícitos junto a grandes empresas.

O relatório aponta ainda, a participação de outros expoentes do PMDB, entre eles os ex-presidentes da Câmara Eduardo Cunha (RJ) e Henrique Eduardo Alves (RN), presos pela Lava Jato. A PF ainda aponta Lúcio Bolonha Funaro como o operador financeira da ORCRIM.

Outros citados: Sandro Mabel (ex-deputado federal), os ex-assessores de Temer José Yunes, Rodrigo Rocha Loures e Tadeu Filippelli e Fabio Cleto (ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal).  

A PF acusa o grupo dos delitos de corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro, entre outros crimes e contravenções. Segundo o relatório, Temer recebeu 31,5 milhões de reais em propina ao longo dos governos Lula, Dilma e também no seu próprio governo, no qual manteve as atividades criminosas, mesmo depois das investigações da operação Lava Jato já registrarem indícios da sua participação.  

O inquérito foi enviado ao Ministério Público Federal (MPF) e é dado como certo que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deverá utilizá-lo para montar a nova denúncia contra Temer. A expectativa é que Janot faça a acusação na próxima sexta-feira, 17/09, dia em que ele deixa o cargo.

Segundo a PF, a quadrilha do "PMDB da Câmara". (foto: reprodução PF) 

 

O operador financeiro da “ORCRIM”

O doleiro Lúcio Funaro, preso desde julho de 2016, atuou como consultor financeiro e banqueiro informal do PMDB há pelo menos 10 anos. Funaro é alvo de ação penal por fraudes no Fundo de Investimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FI-FGTS), na qual tem como operador político junto com o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Citado no relatório da PF, segundo as investigações ele é o “operador” do “PMDB da Câmara” e era o responsável pelo fluxo de recursos dos empresários que pagavam propinas aos políticos quem recebiam as vantagens indevidas em troca de favorecimentos.

Após três meses de negociações com o MPF, o STF homologou na terça-feira passada, 05/09, o acordo de delação de Funaro. Divulgado pela revista VEJA, Funaro se comprometeu a contar às autoridades o roteiro com os detalhes esquema financeiro da ORCRIM, revelando também uma lista de subornos a parlamentares, venda de legislação e grandes esquemas de corrupção.

De acordo com a PF, o papel de Temer na ORCRIM era liderar e coordenar as atividades dos vários membros da quadrilha, inclusive fazer lobby com outros políticos, cobrar repasses de caixa dois e, também, há indícios que ele era destinatário de partes da propina.

Segundo Funaro, ele nunca conversou sobre dinheiro e repasses diretamente com o presidente Temer, pois esta interface era de responsabilidade de Eduardo Cunha. O doleiro disse que era Cunha que repassava as ordens de pagamento e divisões da propina. Funaro ainda afirma que Temer “sempre soube” de todos os esquemas de corrupção e repasses de propinas gerenciados por Cunha.

“Temer participava do esquema de arrecadações de valores ilícitos dentro do PMDB. Cunha narrava as tratativas e as divisões (de propina) com Temer”, afirma Funaro.

Funaro cita dois repasses a Temer: O primeiro é de de 1,5 milhão de reais repassados pelo grupo Bertin. O segundo, em 2014, saiu de um acerto com a JBS e gerou propina no valor de 7 milhões de reais, tendo como destinatários Temer, Cunha e o ministro da Agricultura na ocasião, Antônio Andrade.

O presidente ainda teria intermediado um pagamento de 5,4 milhões de reais em favor da campanha de Gabriel Chalita à prefeitura de São Paulo em 2012. Os recursos teriam vindo de Henrique Constantino, do Grupo Constantino.

Na denúncia da PF não estão contabilizados os 13,9 milhões de reais citados por Funaro.     

 

O operador financeiro do PMDB, Lúcio Bolonha Funaro, preso desde julho de 2016, fechou acordo de delação premiada. (foto: reprodução)  

 

A divisão das propinas e as malas de dinheiro

Segundo as apurações da PF, Temer teria supostamente recebido 31,5 milhões de reais divididos da seguinte forma:

- R$ 500 mil entregues ao ex-assessor presidencial Rodrigo Rocha Loures por um executivo da JBS;

- R$ 10 milhões provindos da Odebrecht, para o financiamento das campanhas do PMDB;

- R$ 20 milhões referentes ao contrato PAC SMS da diretoria Internacional da Petrobras controlada pelo PMDB; e

- R$ 1 milhão que teria sido entregue ao colaborador de longa data de Temer, coronal aposentado da Polícia Militar João Baptista Lima Filho.

 

O relatório ainda cita o repasses como doações oficiais e de caixa dois à campanha de Paulo Skaf ao governo paulista em 2014. 

O doleiro Lúcio Funaro afirmou em depoimento à PF, em 07/09, que ele pessoalmente fez várias entregas de "malas de dinheiro" nas mãos do ex-ministro Geddel Vieira Lima em uma sala do aeroporto de Salvador.

Geddel estava respondendo processo de obstrução de justiça em liberdade, mas foi preso no dia 08/09, quando, depois de uma denúncia, a PF achou em um apartamento em Salvador a quantia de R$ 51 milhões em dinheiro acomodados em malas e caixas.  

Se somados aos valores de propinas delatados por Funaro (R$ 13,9 milhões), o presidente Temer pode estar envolvido com um volume total de 45,4 milhões de reais de recursos ilegais.  

 

As defesas se manifestam  

Em nota, a Secretaria de Imprensa da Presidência da República afirmou que o “presidente Michel Temer não participou e nem participa de nenhuma quadrilha” ou de qualquer “estrutura com o objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagens indevidas em órgãos da administração pública”. “O presidente Temer lamenta que insinuações descabidas, com intuito de tentar denegrir a honra e a imagem pública, sejam vazadas à imprensa antes da devida apreciação pela Justiça.”. 

Também por meio de nota, “o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, informa que só irá se pronunciar quando e se houver acusação formal contra ele que mereça resposta”.

Moreira Franco também negou as acusações. “Jamais participei de qualquer grupo para a prática do ilícito. Repudio a suspeita. Responderei de forma conclusiva quando tiver acesso ao relatório do inquérito. Lamento que tenha que falar sobre o que ainda não conheço. Isto não é democrático.”.

A defesa de Eduardo Cunha “nega de forma veemente todas as acusações e prestará os devidos esclarecimentos oportunamente.”.

A defesa de Geddel negou que o ex-ministro tenha recebido 'malas com dinheiro" do doleiro Lúcio Funaro. O advogado de Geddel, Gamil Foppel, disse que o depoimento de Funaro é mentiroso.