Política

A sensação de alívio e orgulho nacional pela realização sem sustos das Olimpíadas está sendo comemorada. Só que ainda há grandes etapas a cumprir.

(Foto: Rio2016 - Getty Images/David Ramos)

De São Paulo - O Brasil não passou vergonha, nem houve atentados. Ganhamos mais medalhas do que em Olimpíadas passadas, mas nem todas as esperadas. A Rio 2016 terminou com um balanço positivo e elogiado pelos atletas, imprensa e visitantes estrangeiros. Os temores exibidos pelos próprios organizadores e pelo governo brasileiro antes da abertura foram substituídos pela sensação de orgulho e dever cumprido, apesar do contexto econômico e político adverso para o país e para o próprio estado do Rio de Janeiro.

Mas nem tudo já terminou no jogo da organização do maior evento já recebido pela cidade. Tem as Paralimpíadas, que vão utilizar as mesmas instalações dos Jogos Olímpicos a partir de 7 de Setembro e dependem de dinheiro público, o que a princípio era tido como desnecessário pelo Comitê Organizador. Feito isso, haverá que se fazer a apresentação das contas finais e o cumprimento do reaproveitamento para os cariocas das instalações do Parque Olímpico, que no papel, pelo menos, devem ser convertidas até em escolas públicas em bairros pobres do Rio.

Isaquias Queiroz: um quase desconhecido que gerou euforia ao faturar três medalhas
Isaquias Queiroz: um quase desconhecido que gerou euforia ao faturar três medalhas (Foto: Rio2016)

As contas, aliás, já são questionadas pelo próprio presidente Tribunal de Contas da União (TCU), Augusto Nardes, que considerou a destinação de cerca de R$ 270 milhões de dinheiro público (R$ 150 milhões da prefeitura do Rio e R$ 100 milhões do governo federal) para as Paralimpíadas como “falta de planejamento”, em entrevista à BBC Brasil. O TCU é responsável por fiscalizar os gastos da Rio 2016.

A princípio, teriam sido utilizados R$ 39 bilhões em todas as obras e na organização do evento –  R$ 24 bilhões em obras para a cidade, entre elas as de mobilidade, como o VLT, algo mais de R$ 7 bilhões para as obras das instalações olímpicas e outros R$ 7 bilhões para promover o evento. Mas, segundo Nardes, não há transparência suficiente nos gastos até agora. “Se não abrirem as contas, perdem a credibilidade junto à opinião pública”, observa o juiz.

E não estão apenas na contabilidade os senões aos Jogos Olímpicos do Rio. Houve também problemas na organização que acabaram esquecidos ou minimizados pelo sucesso do evento deste a abertura – um show que orgulhou a imensa maioria dos brasileiros ouvidos ou que se manifestaram nas redes sociais, irremediavelmente comparado com a frustração da festa sem graça da Copa de 2014.

Aliás, a sensação nacional com a conclusão bem-sucedida da parte mais importante da Rio 2016 parece ser mais de alívio do que de orgulho, já que os momentos prévios às competições traziam grandes dúvidas e temores sobre o êxito do evento, que incluíram a prisão de um grupo de brasileiros apoiadores do terrorismo do Estado Islâmico aparentemente dispostos a promover ataques às instalações olímpicas.

Além da bombástica decretação do governo fluminense de situação de “calamidade pública”, para receber ajuda de R$ 2,9 bilhões da União, logo depois, na chegada dos atletas, vieram à tona problemas elétricos e hidráulicos na Vila Olímpica, a ponto de delegações terem deixado os apartamentos. Nos primeiros dias de disputas, filas gigantescas nas arenas fizeram muita gente perder parte de jogos, por deficiência no sistema de vistoria. E um soldado da Força Nacional foi assassinado a tiros ao entrar por engano com carro militar na Favela da Maré.

O alívio nacional foi alimentado também por alguns eventos quase “redentores”, como a descoberta da mentira do nadador americano sobre ter sido roubado por policiais. E por conquistas de medalhas inéditas, como a de Thiago Braz, do salto com vara, as três de Isaquias Queiroz no remo e, principalmente, o primeiro ouro olímpico do futebol, o mais festejado de todos.

A comemoração eufórica de uma grande parcela significativa de brasileiros e organizadores, porém, não precisou esperar por todas essas pendências. Para quem temia o pior, a conquista do "bom" já valeu medalha para a autoestima nacional.