Rio 2016

Novo prefeito do Rio terá de enfrentar crise financeira para administrar a herança olímpica e completar a gigantesca reforma urbana do antecessor. Diz que fará "governo técnico" e já avisa que nem todas as obras serão continuadas.

Do Rio de Janeiro - Com quase 60% dos votos válidos, Marcelo Crivella (PRB) venceu o segundo turno da eleição para prefeito do Rio de Janeiro. O senador, ex-ministro da Pesca de Dilma Roussefff e bispo licenciado da Igreja Universal promete fazer um governo técnico. “O processo eleitoral termina aqui. Nós não temos memória para injúrias e infâmias. Vamos concentrar nossas energias para concretizar nosso projeto”, afirmou Crivella, em seu discurso da vitória, no Bangu Atlético Clube, na Zona Oeste da cidade, região apontada pelo novo prefeito como prioridade em seu governo.

Crivella terá um desafio e tanto pela frente para cumprir seu lema de campanha: cuidar das pessoas. A crise financeira que atingiu o governo do estado do Rio começa a dar seus primeiros sinais na administração municipal. O novo prefeito promete manter relações institucionais com o governo do estado, e diz que ainda precisa conhecer a real situação das finanças do município. “Não é possível antecipar muitas ações sem ter real dimensão do que nos espera em 2017. Já na transição poderemos obter muitas dessas respostas”, responde por e-mail a equipe de Crivella, que afirma ainda que pretende honrar todos os compromissos do município, mas sem abalar a saúde financeira da prefeitura.

Viaduto da Transcarioca, uma das linhas exclusivas de BRT: novo prefeito sinaliza que sistema de ônibus articulados será prioridade
Viaduto da Transcarioca, uma das linhas exclusivas de BRT: novo prefeito sinaliza que sistema de ônibus articulados será prioridade (Foto: Divulgação Prefeitura do Rio)

BRT é prioridade

Qualquer que seja a real situação encontrada nos cofres da prefeitura, algumas importantes obras viárias iniciadas na gestão Eduardo Paes estão paradas, como o BRT Transbrasil e a segunda etapa do VLT Carioca. O novo prefeito, no entanto, promete que não apenas o BRT será finalizado, como também tem planos de ampliar a linha Transcarioca até a Ilha do Governador.

“Na mobilidade, a meta é estabelecer um diálogo com a população para o processo de racionalização das linhas de ônibus. A gestão atual não ouviu o povo. Cortou linhas, aumentou o custo da passagem e sequer conversou com o usuário do transporte público. Uma medida autoritária que só atendeu aos interesses dos empresários de ônibus”, argumenta a equipe de campanha que deve ser transplantada para o governo municipal, destacando que o vice-prefeito Fernando MacDowell é um reconhecido especialista em transporte.

Quanto ao VLT, a visão do novo prefeito é que se trata de um transporte “bonito e charmoso, mas que não é eficiente nem em termos de investimento, nem em termos operacionais”. No entanto, Crivella afirma que não vai quebrar contratos e que precisa analisar o modelo de perto para corrigir eventuais distorções na base do diálogo. “E, se necessário, da pressão”, alerta.

Para Ronaldo Balassiano, professor de Engenharia de Transportes da Coppe UFRJ, é preciso que o novo governo continue a investir na malha de transportes, apesar das dificuldades financeiras, para não pôr a perder os avanços no setor. Segundo ele, a cidade passou quatro décadas sem investimentos significativos em mobilidade, e o ciclo de obras para a Copa e as Olimpíadas tirou o Rio de Janeiro da inércia.

“O legado olímpico começa agora. Mesmo que seja num ritmo menor, é preciso seguir investindo para consolidar a malha, como Londres e Barcelona continuam fazendo”, diz.

Além disso, Balassiano espera que Crivella reveja duas promessas de campanha: a construção de novos estacionamentos subterrâneos no Centro da cidade e a diminuição no número de radares de trânsito. “Os estacionamentos no Centro seriam um retrocesso. Precisamos de menos carros e mais transporte público”, justifica. “E os radares, com algumas exceções, reduzem acidentes e salvam vidas.”

VLT, que tem a metade da rota funcionando: Crivella considera sistema bonito, mas pouco eficiente e que pode ser revisto
VLT, que tem a metade da rota funcionando: Crivella considera sistema bonito, mas pouco eficiente e que pode ser revisto (Foto: Alex Costa/GME)

Críticas olímpicas

Crivella também fez críticas duras aos investimentos da prefeitura na realização dos Jogos Olímpicos. Por isso, fica a dúvida sobre o que será feito das instalações do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca. Os planos de Eduardo Paes incluíam a abertura do espaço ao público e o aproveitamento de algumas instalações como escolas públicas.

Em resposta à Gazeta Mercantil Experience, a equipe do novo prefeito promete analisar caso a caso o destino dos equipamentos esportivos e não quebrar contratos, para manter a credibilidade do município junto à iniciativa privada. “A prefeitura fez muitas concessões a empresários sem transparência. Nós daremos transparência ao que foi feito e a todas às PPPs que fizermos”, promete.

O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, Jerônimo Moraes, espera que Crivella invista em projetos completos nas obras de infraestrutura, para evitar acidentes como o que derrubou a ciclovia Tim Maia e matou duas pessoas, em abril deste ano, poucos meses depois da inauguração. “As licitações só deveriam ser abertas com base em projetos completos, e a empresa que executa não pode ser a mesma que fiscaliza”, diz.

Moraes lembra que o projeto custa de 2% a 3% da obra e que vale a pena investir nessa etapa, ainda mais quando os recursos são escassos. “Num projeto completo e bem elaborado, os custos totais caem”, argumenta.

Além da mudança no modelo de execução das obras, o presidente do CAU-RJ também defende o investimento em transporte de massa e a adoção de soluções habitacionais que aumentem a densidade urbana da cidade, estimulando a ocupação da região central da cidade. “A infraestrutura está pronta, e seria uma boa opção para a Zona Portuária, mas infelizmente, esse tópico não foi abordado durante a campanha”, lamenta Moraes.