OLIMPÍADA SEM LUXO DESAFIA A CRISE

Rio 2016

Organização garante que apesar do problemas da economia os custos estão dentro do previsto, boa parte dos recursos veio da iniciativa privada e instalações serão úteis à cidade

Do Rio de Janeiro - O presidente da Empresa Olímpica Municipal (EOM), Joaquim Monteiro de Carvalho, assegura que os orçamentos tanto de obras para os Jogos Olímpicos quanto as de “legado”, que vão beneficiar a infraestrutura da cidade, serão cumpridos e que esta vai ser a “Olimpíada da simplicidade”.  “Não queremos  ganhar prêmio de design, não construímos um “ninho de pássaro” como em Pequim. Queremos fazer a melhor olimpíada, com tudo funcionando bem, mas sem luxo. Vamos investir só o necessário e o previsto”, resume. 

É uma demonstração de que os organizadores dos Jogos -- tanto a prefeitura, que responde pela maior parte das obras desportivas e de infraestrutura urbana, quanto o governo federal, que financia parcela dos empreendimentos, além do Comitê Organizador -- assumem para o mundo o ambiente de crise econômica nacional e estadual em que a Rio 2016 será realizada e por isso fizeram opção pelo simples, em busca da eficácia e não da sofisticação das instalações e dos resultados esportivos durante as competições de agosto.

Às vésperas dos Jogos, o discurso de Monteiro de Carvalho parece transcender o discurso vazio, tão habitual no Brasil. Ainda que nesses casos seja prudente não antecipar vitórias, os balanços apresentados até aqui indicam que a execução segue o roteiro previsto há cerca de 8 anos, quando a candidatura da cidade foi feita. Apesar do aparente cuidado com o cumprimento espartano dos projetos, há pontos fora da curva, como o velódromo, que vai abrigar as disputas de ciclismo, ainda não não concluído e não entregue ao Comitê Organizador -- segundo a prefeitura, culpa da empresa Tecnosolo, que entrou em recuperação judicial e descumpriu os prazos.

 

Custos comparados da Olimpíadas Rio 2016 e outros eventos esportivos

Algumas empresas contratadas para as obras também não escaparam de denúncias sobre desvios de verba. Recentemente a Polícia Federal deflagrou operação de fraudes de R$ 85 milhões no Complexo de Deodoro, que vai receber as provas de 11 esportes radicais. O consórcio responsável pelas obras, formado pelas empreiteiras OAS e Queiroz Galvão, e empresas subcontratadas por ele, são alvo de investigação por serviços não realizados, mas faturados como se tivessem ocorrido, de transporte e descarte de entulho. Segundo o Ministério da Transparência, há indícios de falsificação de documentos e superfaturamento.

Em números redondos, o custo de construção ou reforma de arenas está previsto hoje em R$ 7,1 bilhões e as obras urbanas (restauração da orla portuária, construções de infraestrutura de mobilidade, entre novas vias, VLTs e BRTs), em R$ 24 bilhões. Ao redor de 60% desses totais são investidos pela iniciativa privada, em Parcerias Público Privadas, as PPPs. Há outros R$ 7,4 bilhões para a gestão das instalações desportivas e a realização dos Jogos pelo Comitê Organizador das Olimpíadas, subordinado ao Comitê Olímpico Internacional (COI), que trabalha com receitas próprias geradas pela venda de ingressos, patrocínios publicitários, licenciamentos e participação nos negócios de comércio de produtos dentro das arenas e a venda dos direitos de transmissão pela TV, entre outras.

No total, os R$ 39,1 bilhões contabilizados até agora pela organização estão abaixo das previsões feitas em 2008, quando a cidade se candidatou para receber Olimpíadas e Jogos Paralímpicos – foram projetados R$ 28,8 bilhões, que corrigidos pela inflação chegam a R$ 44 bilhões, embora algumas obras tenham ficado acima do projetado (como a da ciclovia da orla de São Conrado, que teve trecho derrubado pelo mar e duas pessoas morreram, cujo preço final superou em quase 30% o previsto inicialmente). Os investimentos totais no Rio também estão abaixo do de Londres 2012 – considerando o câmbio atual, os ingleses gastaram R$ 65 bilhões.

O Parque Olímpico na Barra da Tijuca: obras funcionais e reaproveitáveis depois das competições
O Parque Olímpico na Barra da Tijuca: obras funcionais e reaproveitáveis depois das competições (Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro)

“É uma satisfação ver as projeções de custos das arenas serem cumpridas. Mas isso não está acontecendo por acaso. É resultado de um trabalho muito cuidadoso com cada gasto”, explica Monteiro de Carvalho, que reitera que o objetivo dos Jogos do Rio não é exibir luxo, mas oferecer obras íntegras, elegantes e funcionais, com orçamento rigoroso. “Não vamos usar mármore nos banheiros. Serão Olimpíadas simples, porém com instalações capazes de oferecer o máximo de qualidade para os atletas e ao público que virá para as competições”, afirma o presidente da Empresa Olímpica Municipal, responsável pela construção das arenas e instalações dentro dos centros olímpicos.

Outra estratégia importante dentro dessa receita econômica de estruturação das obras para o evento é o aproveitamento posterior de instalações esportivas para benefícios a bairros carentes do Rio. A arena de handebol, por exemplo, foi construída com estrutura desmontável e vai transformar-se em quatro escolas para 500 crianças cada uma, que serão distribuídas por comunidades cariocas.

Estádio Aquático, no Parque Olímpico: previsto para se transformar em dois ginásios comunitários
Estádio Aquático, no Parque Olímpico: previsto para se transformar em dois ginásios comunitários (Foto: Ricardo Sette Câmara/Prefeitura do Rio)

Também o Estádio Aquático da Barra da Tijuca, para 18 mil expectadores, que custou R$ 225 milhões e tem construção modular, será transformado em dois centros de natação comunitários. E o prédio do IBC (Centro de Transmissões dos Jogos) vai virar um alojamento para atletas em treinamento no próprio Parque Olímpico. É a denominada “arquitetura nômade”. “Trata-se de uma inovação que transforma as próprias instalações esportivas em legados sociais para população da cidade”, explica Monteiro de Carvalho.

O Parque Olímpico da Barra e o centro de disputas radicais de Deodoro serão reaproveitados como instalações esportivas públicas – a Arena Carioca 3 (na Barra), por exemplo, se transformará em escola de esportes olímpicos para 850 alunos. A Vila Olímpica, onde ficarão alojados os 15 mil atletas, terá os apartamentos comercializados como unidades residenciais pelas empreiteiras que bancaram a construção. 

Apesar da crise econômica, o presidente da EOM acredita que a Rio 2016 vai dar um exemplo para o próprio país – ao cumprir orçamento, cumprir a maior parte dos prazos e projeções – e para o mundo, que muitas vezes olha para o Brasil como um país incapaz de organizar um evento desse porte com rigor na gestão de recursos. A própria revista The Economist em edição recente tratou os preparativos das Olimpíadas brasileiras como uma espécie de “oásis” em meio ao caos da economia e da política do país. “Foi a opção do uso da sabedoria em lugar do luxo”, resume Monteiro de Carvalho.