JOGOS ALIMENTAM NEGÓCIOS NA CRISE

Rio 2016

De projetos de engenharia a água de coco, empresas de vários setores faturam com a Olimpíada e contam com o movimento das competições para compensar recessão

Do Rio de Janeiro - O Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos calcula que a Rio 2016 está gerando ao redor de 90 mil empregos temporários desde o ano passado – considerando 5 mil vagas no próprio comitê e outras 85 mil nos fornecedores para as instalações olímpicas e para o período de disputas. No total, as competições devem adquirir produtos de cerca de 2 mil fornecedores. O total de empregos, se consideradas as construções e reformas urbanas fora dos centros esportivos, alcança números bastante maiores e praticamente incalculáveis, considerando o pátio de obras em que se transformou a cidade nos últimos três anos.

No total, o Comitê Organizador – gestor das competições e instalações esportivas, mas que não participa das obras -- previu que nos 12 meses prévios aos Jogos, até a conclusão das competições, investiria R$ 3 bilhões em materiais em geral, 10% do total comprado de pequenas e médias empresas -- entre elas, fabricantes de produtos licenciados, como os mascotes Tom e Vinícius.  Por outro lado, as obras destinadas às arenas esportivas e de reforma urbanística do Rio já superaram os R$ 30 bilhões. Essa montanha de dinheiro acabou ajudando as empresas fornecedoras a engrossar seu faturamento ou, quando não, a compensar as perdas geradas pela crise aguda na economia.

Usain Bolt durante ato promocional dos Jogos Olímpicos segura o mascote Vinícius, um dos produtos licenciados
Usain Bolt durante ato promocional dos Jogos Olímpicos segura o mascote Vinícius, um dos produtos licenciados (Foto: Rio2016)

Esse vento favorável soprado pela Rio 2016 em favor principalmente das empresas de menor porte é atestado pelo presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, Paulo Protásio. “Os Jogos estão beneficiando muito os negócios locais. E no segmento de produção e comercialização de produtos alusivos às Olimpíadas, as maiores beneficiadas são as pequenas e médias empresas”, disse em entrevista ao Estúdio GME (Assista abaixo à entrevista completa).

É o caso da Cagen Engenharia, empresa fundada há 12 anos, que desenvolveu projetos para a Copa do Mundo e, nos últimos três anos, para as Olimpíadas. “Participamos das três principais arenas, do velódromo e do Centro Aquático. E esses trabalhos representaram a maior parte de nosso faturamento em 2012 e 2014”, explica o presidente da empresa, João Luís Casagrande. No período, em que trabalhava também para a Copa 2014, 65% da receita da Cagen saíam das obras pela cidade. O restante resultava de atuação no exterior, em projetos para empreiteiras brasileiras.

Na Copa, a empresa fez projetos de cálculo estrutural para a reforma do Maracanã. Emendou com as Olimpíadas. “Foram anos muito bons, mas em 2015 começamos a perder demanda”, explica Casagrande, já que praticamente todas as obras – tanto das arenas quanto de mobilidade e revitalização da cidade – estavam em andamento e muitas já concluídas. A Cagen trabalhou em muito do que foi feito para o Rio abrigar os Jogos – ampliação do Metrô no trecho Barra da Tijuca, nos BRTs, Transoeste Lote Zero, Transcarioca, Transolímpica, Transbrasil, nas obras do Porto Maravilha, descida do Gasômetro, entre outras.

Casagrande, da Cagen: projetos de engenharia para Copa do Mundo e Olimpíadas
Casagrande, da Cagen: projetos de engenharia para Copa do Mundo e Olimpíadas  (Foto: divulgação)

Mas nem tudo foi perfeito no período. “O faturamento foi bom, mas a rentabilidade não. Os custos para as Olimpíadas foram muito enxutos, inclusive por causa da crise, o que reduziu as margens em geral ”, explica Casagrande.  E com as obras concluídas ou em andamento, o segmento de projetos de engenharia já não usufrui mais das demandas da Rio 2016 e sofre com a crise na economia.

“Desde o ano passado sofremos uma queda grande nos contratos, já que trabalhávamos muito para grandes empreiteiras, que reduziram as atividades depois da operação Lava Jato. O setor em geral está parado e o pouco que resta ainda vem de contratos antigos”, explica Casagrande, que em 2014 chegou a empregar 75 pessoas e hoje mantém 34.

O empresário Fábio Lewin aposta que os Jogos Olímpicos vão ajudar seus negócios na Coco Legal, empresa que envasa água de coco natural em garrafas pet de 300ml, 500ml e 2 litros. Os principais mercados da empresa são restaurantes e hotéis do Rio e Niterói, embora também faça entrega a domicílio. Mas pretende aproveitar a Rio 2016 para ampliar as vendas e ocupar a capacidade ociosa de sua nova fábrica, recentemente inaugurada.

“Esperamos ampliar vendas em cerca de 60% durante o período dos Jogos, fornecendo para empresas de catering, que vão servir refeições para os atletas, e no próprio mercado local, que tende a crescer com a chegada dos visitantes”, diz Lewin, que comanda a empresa com seu irmão há 14 anos.

Entregador dos produtos da Coco Legal a domicílio: empresa prevê vendas 60% maiores durante os Jogos
Entregador dos produtos da Coco Legal a domicílio: empresa prevê vendas 60% maiores durante os Jogos (Foto: divulgação)

O processo de conservação da bebida, explica o empresário, é diferente do produto acondicionado em caixinha longa vida, que é pasteurizado. “Fazemos um congelamento ultrarrápido, em apenas 4 segundos, o que preserva as propriedades da bebida e a conserva ”, garante. Por esse método, a bebida congelada pode ser guardada por até 90 dias. Depois de descongelada, deve ser consumida em cinco dias.

A Coco Legal produz e comercializa hoje 90 mil litros de água de coco, 50% a mais do que a média do ano passado. E projeta chegar aos 150 mil litros no período das Olimpíadas e nos Jogos Paralímpicos – entre agosto e setembro próximos. E nem a crise econômica tira o ânimo de Lewin. “Muitos restaurantes fecharam e perdemos clientes, mas como atuamos por enquanto em poucos nichos de mercado, acreditamos que vamos conseguir ampliar nossas vendas rapidamente buscando alternativas que os Jogos estão oferecendo”, diz o empresário, que considera possibilidades como vendas no comércio de praia e supermercados.

A Serplac Rio, empresa especializada em estruturas metálicas, no mercado há 23 anos, também ganhou com o crescimento de demanda das obras no Rio. Primeiro, foi responsável pelo fornecimento, montagem e instalação de “guarda-corpos” (divisórias de segurança em metal e vidro) para o Estádio do Maracanã. E atualmente atua com o mesmo produto, de tecnologia alemã e estética diferenciada, para estações das novas linhas do Metrô da cidade. No Maracanã, foram 16 quilômetros lineares de “guarda-corpos” e, para o Metrô, 10 quilômetros. “Hoje, cem por cento do faturamento da Serplac vêm das instalações no Metrô”, explica José Geraldo Jacob Neto, presidente da empresa, que prevê a conclusão dos trabalhos nos próximos meses.

Desde o final do ano passado, no entanto, o empresário investiu em outro empreendimento: comprou 50% da Geovoxel, empresa de engenharia que trabalha com equipamentos de alta tecnologia como o “geo-radar”, para monitoramento de solo e que presta serviços para as obras do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que vai transitar por boa parte da zona portuária e região central. Neste momento, a Geovoxel tem 80% de sua receita extraída de obras para os Jogos.

Mascote da Rio 2016, um dos produtos licenciados pelo Comitê Organizador
Mascote da Rio 2016, um dos produtos licenciados pelo Comitê Organizador (Foto: divulgação)

A Interart Estandes e Cenários é outra companhia que busca faturamento extra em contratos prévios e no período dos Jogos. Nos últimos meses, montou dois estandes de salas para eventos testes em instalações olímpicas. E negocia mais dois contratos: um para preparar ambientes para competidores no velódromo, dentro do Complexo de Deodoro; e outro para montar um estúdio para emissora estrangeira de TV no IBC (o centro de imprensa e comunicação).

“Trabalhamos com vários tipos de montagens de ambientes e cenários e esperamos dobrar nossos negócios com as Olimpíadas”, observa Ricardo Leon, sócio-diretor da Interart, que tem como forte de sua receita a produção de estandes para feiras, shows e shoppings. Mas a crise acertou em cheio o setor e o desemprenho da empresa, que chegou a ter 120 empregados em 2013. “Até ali crescíamos entre 20% e 30% ao ano”, conta Leon, que nos dois últimos anos viu seu faturamento cair 70%. Hoje a empresa mantém 40 funcionários, mas ele conta com os Jogos para recuperar pelo menos parte do que foi perdido.

Para atrair pequenas e médias empresas como fornecedores dos Jogos, o Comitê Organizador Local fechou parceria nos dois últimos anos com o Sebrae, buscando qualificar até microempresas para participar das demandas da organização do evento. Entre os produtos demandados constam mais de 1 milhão de itens, entre eles 24 mil bolas de tênis, 34 mil camas, 8.400 petecas, 60 mil cabides, 12 mil computadores e 11 milhões de refeições, além de serviços nas áreas de logística e equipamentos em geral.