A CHANCE DE MOSTRAR O LADO BOM DO BRASIL

Rio 2016

Realizar direito as Olimpíadas é boa oportunidade para o país exibir virtudes. Diretor de comunicação do Comitê Organizador diz que, no final, imagem brasileira vai ganhar.

De São Paulo - Em artigo recente, um dos mais conceituados homens da publicidade e do marketing do país, Nizan Guanaes, disse que os Jogos Olímpicos são “a pauta boa do ano”. “Temos zika, recessão, violência urbana, poluição na baía. Essa conjuntura adversa torna as Olimpíadas mais relevantes ainda, uma oportunidade valiosa de mostrar o que o Brasil tem de bom”, escreveu em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo. A lógica de otimismo proativo de Nizan coincide com os objetivos da organização da Rio 2016. E com os resultados exibidos até agora, principalmente no cumprimento dos orçamentos das obras esportivas, parece possível que os Jogos consigam, ao final, revelar ao mundo um Brasil inversamente proporcional ao que tem sido exibido pela crise econômica e política.

Para o diretor de Comunicação do Comitê Organizador das Olimpíadas, Mário Andrada, a realização bem sucedida das competições nos dois meses de Jogos Olímpicos e Paralímpicos (incluindo o êxito nas áreas de saúde e segurança para os atletas e os visitantes), somada à confirmação da execução das obras em preço, qualidade e prazo, terá a capacidade de agradar a mídia e a opinião pública internacional. “Tenho certeza de que a imagem do Rio e do Brasil como um todo vai ganhar muito com a realização das Olimpíadas. Mesmo para o público brasileiro, as pesquisas mostram que apesar da crise a maioria aprova a realização dos Jogos aqui”, diz Andrada.

Ilustração da revista The Economist: Cristo Redentor capaz de vencer o vírus da zika
Ilustração da revista The Economist: Cristo Redentor capaz de vencer o vírus da zika (Foto: reprodução)

Ele se refere a pesquisas recentes realizadas tanto pelo Comitê Organizador quanto pela prefeitura do Rio. Segundo levantamento do Ibope com moradores da cidade do Rio de Janeiro, 75% das pessoas se dizem a favor de abrigar o evento. Outro levantamento, da Nielsen, em todo o país, mostra que 58% dos brasileiros são favoráveis aos Jogos no Brasil.

No exterior, a tradicional revista The Economist publicou em março reportagem elogiando o cumprimento responsável das obras e os preparativos em geral da cidade para receber a competição mundial. Apesar do fracasso na prometida despoluição da Baía da Guanabara, onde ocorrerão as competições de vela, a publicação citava os preparativos para Olimpíadas no Rio como uma exceção em meio ao caos econômico e político exibido nos últimos tempos pelo país.

Para a revista, nem a epidemia recente de zika e a relação da doença com a microcefalia devem comprometer o sucesso dos Jogos, já que medidas sanitárias preventivas estariam sendo tomadas e o período das competições – agosto e setembro -- é mais seco e desfavorável à reprodução do mosquito transmissor da doença.

Apesar de descrever o cenário econômico e político brasileiro como de “desolação e de descoordenação”, a revista definiu a cidade do Rio como “um oásis no deserto brasileiro”. As avaliações foram feitas antes do desmoronamento da ciclovia de São Conrado, que matou duas pessoas. A obra, embora não faça parte das instalações esportivas dos Jogos, está incluída no rol de inovações urbanas pelas quais passa o Rio e já é uma mácula no conjunto de preparativos para as competições.

Isto porque as perícias indicam que houve pelo menos negligência nos projetos de engenharia e na construção, que não consideraram o frequente impacto de ondas em vários trechos da via e não previram a amarração das plataformas às pilastras. A prefeitura do Rio culpou e descredenciou de novos projetos a empreiteira Contemat-Concrejato, responsável pela obra, que teve custo total de R$ 44,7 milhões, quase 30% acima do inicialmente previsto. A notícia ganhou espaço na mídia internacional, que relacionou o desastre com os Jogos Olímpicos. A prefeitura e a organização das competições esperam, agora, que nenhum outro fato trágico ocorra e que o desastre de São Conrado torne-se um ponto fora da curva nos preparativos da Rio 2016. 

Notícia do desastre com a ciclovia na mídia mundial. Mancha para a imagem que o Rio quer construir com o êxito nas competições
Notícia do desastre com a ciclovia na mídia mundial. Mancha para a imagem que o Rio quer construir com o êxito nas competições (Foto: reprodução)

As pesquisas de opinião pública e a reportagem de uma das mais respeitadas revistas do planeta exibem, de qualquer forma, um certo descolamento entre as expectativas em torno das Olimpíadas e o cenário febril e incerto do país. “A imprensa internacional tende a seguir a mesma sequência de cobertura de outros grandes eventos esportivos recentes pelo mundo. Nas matérias prévias, contam as mazelas, os problemas do país, as dúvidas sobre a realização dos Jogos. Mas aos poucos vão atestar que os orçamentos foram cumpridos, as instalações esportivas foram feitas de forma rigorosa e os repórteres vão começar a se surpreender e olhar e publicar o lado bom”, aposta Mário Andrada.

Para ele, parte significativa da boa imagem alcançada até agora se deve à transparência nas contas e nas informações em geral abertas ao público, desde o início das obras, tanto as feitas para as competições quanto para a cidade. “Aprendemos com a os erros da Copa, com as manifestações populares que explodiram em 2013. Não basta fazer. Tem que fazer e mostrar como está fazendo e quanto está gastando para isso. Assumimos também desde o início a opção pela organização de Olimpíadas dignas, mas sem luxo. Acredito que o brasileiro compreendeu isso e por este motivo aprova o evento”, completa o diretor de Comunicação do Comitê Organizador, para quem o resultado final do jogo da comunicação vai ser de vitória para o Brasil.

Andrada, diretor de comunicação da Comitê Organizador, prevê ganho para imagem do país no exterior com o sucesso das Olimpíadas
Andrada, diretor de comunicação da Comitê Organizador, prevê ganho para imagem do país no exterior com o sucesso das Olimpíadas (Foto: William Lucas/Rio2016)

Está claro para os organizadores que a consolidação dessa simpatia de parte do público e de meios de comunicação pela maneira como o se Rio organiza vai depender ainda da confirmação do cumprimento dos orçamentos, da realização sem incidentes das competições e de que tragédias como a da ciclovia de São Conrado não se repitam. Mas como escreveu o próprio Nizan Guanaes no mencionado artigo sobre o marketing dos Jogos, olhar o copo meio cheio nessas horas adversas pode ajudar. “Somos historicamente mais competentes em divulgar nossos problemas que nossas qualidades, ainda mais num momento como este. Mas não podemos focar só nos nossos defeitos, pois serão nossas qualidades que resolverão nossos problemas.”