A TERCEIRA REVOLUÇÃO URBANA

Rio 2016

A cidade mais famosa do país passa por reforma completa, como já ocorreu duas outras vezes nos últimos 110 anos. Agora, o objetivo é levar o carioca de volta ao centro.

Do Rio de Janeiro - A revolução urbana que o Rio de Janeiro enfrenta neste momento pré-Olimpíadas significará a maior renovação da cidade mais famosa do país nos últimos cinquenta anos. Mas ela não é propriamente uma novidade na história carioca. No período republicano, esta será a terceira grande transformação. A primeira, no início do século XX, sob o comando do prefeito Pereira Passos – quando as grandes avenidas que partiam do porto foram abertas ou alargadas – e a outra, operada pelo governador Carlos Lacerda e complementada pelo sucessor Negrão de Lima, nos anos 60.

Desta vez, porém, um dos mais respeitados urbanistas do país, Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, diz enxergar nas reformas mais do que uma “revolução”, mas uma “evolução” urbana. “Desde os anos 40 vivemos aqui e nas grandes cidades do mundo uma lógica expansionista de desenvolvimento das cidades. Olhava-se pouco para o meio ambiente e para as regiões centrais das metrópoles, que foram se deteriorando. A atual revisão do Rio volta a olhar para o centro histórico e o próprio cidadão como prioridade”, avalia Fajardo.

Ponte Estaiada da via do BRT Transcarioca, construída em paralelo com rodovias
Ponte Estaiada da via do BRT Transcarioca, construída em paralelo com rodovias (Foto: Prefeitura do Rio)

Uma boa amostra do que se pretende com a “nova cidade” que vai mostrar-se ao mundo durante os Jogos Olímpicos é a revitalização de toda a Zona Portuária. E um ícone já pronto são os arredores da Praça Mauá, que foi reconstituída em seu perfil histórico e ganhou reurbanização em trechos como o píer, em que foi construído o Museu do Amanhã, obra do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, uma parceria entre a prefeitura da cidade, a Fundação Roberto Marinho e o Banco Santander. No mesmo conjunto, estão a Orla Prefeito Luiz Paulo Conde  e o Museu de Arte do Rio – uma das primeiras novidades concluídas da nova cidade. (Veja giro de 360 graus na Praça Mauá)

“É uma mudança de sentido, uma redemocratização urbanística, porque o centro das grandes metrópoles é o melhor lugar para reunir a diversidade social, para receber o turista, mesclar a arquitetura antiga e a nova, para concentrar jovens e idosos. É o espaço mais democrático e que no novo projeto para Rio volta a ser protagonista”, diz o urbanista.

O parque de obras em que se transformou boa parte do Rio de Janeiro nos últimos dois anos inclui intervenções em toda a orla e centro próximo, uma rota que começa Estação Rodoviária, percorre a Avenida Rodrigues Alves, passa pelas Praça Mauá, Candelária e Praça XV. Considerando apenas o conjunto denominado Orla Prefeito Paulo Conde, são 600 metros lineares, com passeios públicos e espaços de convívio e lazer sobre uma área até há pouco degradada. Era ocupada em toda a sua extensão pelo Elevado Perimetral, via que escondia a vista do mar de quem transitasse pela zona portuária e que foi implodida no final de 2013.

Washington Fajardo: o urbanista diz que desta vez a reforma urbana do Rio se volta para o centro
Washington Fajardo: o urbanista diz que desta vez a reforma urbana do Rio se volta para o centro (Foto: Ricardo Cassiano)

A CIDADE SE CONSTRUIU

COM SUCESSIVAS REFORMAS

DESDE ANTES DE SE

TORNAR CAPITAL DO PAÍS

Os marcos urbanísticos do Rio atual surgem bastante antes da instalação da República no país. A maior obra arquitetônica do período colonial, ainda hoje um dos principais símbolos da cidade, os Arcos da Lapa, foi inaugurada em 1723, como aqueduto para transportar a água de um córrego do Morro de Santa Tereza para as partes baixas da cidade. Mas é com a chegada da família imperial portuguesa, a partir de 1808, que o Rio ganha ares europeus, com a instalação da Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico e a Quinta da Boa Vista.

Reforma de alargamento da Avenida Rio Branco, no início do Século XX
Reforma de alargamento da Avenida Rio Branco, no início do Século XX (Foto: Arquivo Nacional)

Com a Proclamação da República, em 1889, a então capital brasileira – assim como boa parte do país favorável à mudança de regime de governo – buscou renovar-se e mostrar-se moderna para a Europa. O plano foi arquitetado pelo prefeito Pereira Passos no início do Século XX. Ele é nomeado pelo então presidente, Rodrigues Alves, em 1902, para reformar e sanear a cidade, caótica com o crescimento populacional descontrolado devido principalmente à disparada da imigração, a partir do fim da escravidão quatorze anos antes. Parte dos ex-escravos também havia deixado a zona rural rumo às cidades.

O Rio vivia na virada do século período de depressão sanitária. Febre amarela, varíola e tuberculose e malária eram doenças comuns e que acometiam principalmente a população pobre, boa parte abrigada em casarões transformados em cortiços na orla portuária.

Passos abre novas vias e alarga as avenidas a partir do porto, colocando abaixo segundo estudos sobre a época 700 habitações coletivas, desabrigando 14 mil pessoas, que passaram a buscar moradias improvisadas nos morros mais próximos do centro. Surgem, então, as primeiras “favelas” da cidade, nome emprestado de planta espinhosa muito comum nos morros cariocas.

A mesma Avenida Rio Branco alargada há mais de 100 anos para facilitar o trânsito ao porto, terá agora 750 metros só para pedestre, bicicleta e VLT
A mesma Avenida Rio Branco alargada há mais de 100 anos para facilitar o trânsito ao porto, terá agora 750 metros só para pedestre, bicicleta e VLT (Foto: Alex Costa)

“Todas as reformas do Rio sofreram pela ausência de políticas habitacionais de fato”, frisa Fajardo. "Os conjuntos de moradias populares sempre foram construídos na periferia e com baixa qualidade construtiva". Segundo ele, a visão “expansionista” começou a ser revisada a partir dos anos 70, mas só agora chega de fato e de forma planejada ao Rio. O urbanista não vê ainda projetos que integrem a população de menor renda à recuperação do centro urbano, mas percebe tendência dos administradores  em caminhar nesse sentido.

“É preciso que a tendência que já se verifica no mercado imobiliário, por meio de lançamentos de imóveis para a classe média, seja incrementado com construções populares de qualidade para oferecer ao centro a diversidade social que marca a região”, defende Fajardo. Para ele, essa preocupação pode ser observada nos projetos de mobilidade, que vão acrescentar opção de transporte público – como metrô, ônibus articulados com vias exclusivas (os BRTs), o VLT (espécie de bonde moderno) e novas faixas exclusivas de ônibus – a mais da metade da população, até recentemente privada do benefício.

Parque de obras na Avenida Brasil, uma das principais do Rio: novos caminhos exclusivos para ônibus articulados
Parque de obras na Avenida Brasil, uma das principais do Rio: novos caminhos exclusivos para ônibus articulados (Foto: Alex Costa)

Toda essa reforma urbana nos últimos anos rendeu desconforto à população. O trânsito da área central do Rio, que já era considerado ruim, tornou-se caótico. Vias em reforma, como as avenida Rio Branco, Rodrigues Alves e Brasil, além das ruas estreitas que formam a malha central, ficam congestionadas durante praticamente todos os dias da semana. A administração do prefeito Eduardo Paes admite os transtornos, mas assegura que os resultados ao final das obras serão positivos, ainda que para críticos o tumulto no trânsito vai persistir, devido principalmente à retirada do Elevado Perimetral, que servia de entroncamento expresso do centro para as regiões Norte e Sul.