TROPEÇOS NA RETA DE CHEGADA

Rio 2016

Da segurança ao encanamento, faltando 10 dias para a abertura dos Jogos, Rio de Janeiro enfrenta a crítica das delegações estrangeiras e dificuldades para deixar tudo em ordem

À medida que se aproxima a abertura dos Jogos Olímpicos, a segurança é reforçada no Rio de Janeiro. Militares são vistos às pencas em todos os cantos da cidade, guardam as vias expressas, instalações olímpicas e pontos turísticos, dando a impressão de que a segurança para os visitantes e a população em geral aumentou. Turistas e atletas começaram a chegar e estes últimos são os autores das primeiras grandes reclamações sobre as instalações -- boa parte dos alojamentos estava inabitável.

Na segurança, depois da chegada do reforço militar, houve, de fato, redução no registro de crimes nas delegacias dos bairros onde o policiamento foi ampliado.O recente atentado em Nice, na França, também fez redobrar o alerta contra o terrorismo. Além da prisão de 11 suspeitos de planejar a realização de atentados durante os Jogos, o esquadrão antibombas foi acionado cinco vezes, em diferentes pontos do Rio de Janeiro, nas duas últimas semanas. Todas as ocorrências aconteceram por causa de bolsas deixadas no meio da rua. Não havia explosivos em nenhuma delas. Os donos das bolsas, no entanto, não foram encontrados.

Ao mesmo tempo, uma área crucial para a segurança sofreu questionamento nos últimos dias: o controle de acesso de pessoas, bagagens e cargas nas instalações olímpicas. Bastaram dois dias para a organização reconhecer que a operação dos aparelhos de raios-x, contratada junto à Artel Recursos Humanos, de Santa Catarina, era ineficiente. Os operadores foram então substituídos por agentes contratados da Sunset Vigilância e Segurança, do Rio de Janeiro.

A troca foi justificada pelo diretor de Comunicação do Comitê Rio 2016, Mário Andrada, como uma necessidade operacional. Segundo ele, no primeiro dia de funcionamento havia filas de 30 minutos na entrada do Centro de Mídia e do Centro de Transmissão do Parque Olímpico, com revistas manuais.

“Passamos a revista para o raio-x, mas as filas ficaram ainda maiores. Então, decidimos substituir os operadores por um grupo com maior experiência específica, até desafogar esse rush”, disse Andrada, em entrevista durante um evento da Rio Negócios, realizado em 25/7 no Museu do Amanhã. Ele afirmou ainda que, depois do primeiro estresse, o grupo menos experiente está treinado e pronto para atuar em outras áreas.

Atletas da delegação da Austrália, de volta aos alojamentos, depois dos consertos hidráulicos e elétricos
Atletas da delegação da Austrália, de volta aos alojamentos, depois dos consertos hidráulicos e elétricos (Foto: divulgação)

No entanto, um funcionário que trabalha no controle de cargas e bagagens do Aeroporto do Galeão – e que pediu para não ser identificado – explica que a operação dos equipamentos exige mais experiência. “Sem gente capacitada, o controle é ineficiente”, afirmou, acrescentando que por via das dúvidas prefere assistir aos Jogos pela televisão.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Vigilância, José Jacobson Neto, criticou a escolha da empresa catarinense. “O raio-x de bagagem é procedimento nevrálgico. E há muitas empresas capacitadas e autorizadas a atuar pela Polícia Federal”, disse. “Não havia necessidade de contratar uma empresa sem alvará.” Procurados pela Gazeta Mercantil Experience, a Artel e a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos do Ministério da Justiça não retornaram os pedidos de esclarecimentos.

Independentemente da segurança, a reta final da preparação dos Jogos Olímpicos de 2016 também ficará marcada pelos problemas encontrados nos alojamentos dos atletas. Várias delegações reclamaram das condições encontradas nos prédios. A primeira foi a da Austrália, que deixou os prédios e só retornou quando os reparos foram feitos. Estados Unidos, Itália e Holanda pagaram funcionários temporários para obras de acabamento nas unidades que alojarão os atletas.

Segundo o Comitê Rio 2016, vinte e cinco dos 31 prédios da Vila dos Atletas estavam prontos para o uso na terça-feira (26/7). Os restantes seriam entregues até quinta-feira. A Vila foi construída pelo consórcio Ilha Pura, formado pela Odebrecht e pela Carvalho Hosken, que espera vender os apartamentos como um projeto imobiliário. Para dar conta das melhorias necessárias, 650 homens foram contratados para trabalhar 24 horas nos prédios. 

Houve atrasos também na entrega de obras viárias e de infraestrutura de transporte. A Linha 4 do Metrô será inaugurada no dia 30 de julho, faltando apenas seis dias para a abertura das Olimpíadas. Não haverá tempo para testes na linha, que é um dos acessos mais importantes para a Barra da Tijuca, onde será realizada grande parte das competições. Além disso, durante os Jogos, seu uso será limitado a profissionais credenciados e ao público que assistirá às competições.

Por outro lado, o Túnel Marcelo Alencar, ligação subterrânea entre o Aterro do Flamengo e os acessos à Avenida Brasil e à Ponte Rio-Niterói, finalmente foi 100% concluído. A obra substitui o Elevado da Perimetral, derrubado para a reformulação da Zona Portuária, e foi feito para desafogar outras vias da região central da cidade, que passaram por período de severos congestionamentos nos dois últimos anos. Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro (CET-Rio), no pico da tarde o novo túnel reduzirá em até 15% o fluxo no Túnel Rebouças sentido Centro e em até 25% no Túnel Santa Bárbara.

Para Viviane Ramos, fisioterapeuta, o Túnel Marcelo Alencar reduziu pela metade o tempo de viagem entre sua casa, em Del Castilho, na Zona Norte, e o centro da cidade. “Estou apaixonada. É um caso de amor sincero e absoluto com o túnel”, diz ela .

Apesar dos percalços na preparação da cidade, Ricardo Fort, vice-presidente global de patrocínios e eventos da Coca-Cola, patrocinadora dos Jogos, mantém o otimismo. Falando a empreendedores e jornalistas em evento da Rio Negócios, ele usou a própria experiência em Olimpíadas para concluir que as notícias negativas sempre antecedem a abertura. “Em Atenas tivemos estádios inacabados, em Pequim tivemos o problema da poluição, em Londres houve manifestações violentas semanas antes das Olimpíadas”, enumera. “As coisas aqui andam na velocidade certa para o Brasil. No fim, as Olimpíadas do Rio vão ser um sucesso. À moda brasileira, não à moda suíça, mas um sucesso”, conclui.